Reprodução/Estadão
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Vacina de Oxford: voluntários deveriam ter sido retirados de estudo, avalia especialista

Erro de dosagem deveria ter sido com transparência para não abalar a confiança da população no imunizante, segundo microbiologista

Fabiana Cambricoli e Paula Felix, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2020 | 05h00

O intervalo entre anúncio sobre a eficácia da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca e a divulgação de que houve um erro de dosagem do imunizante nos testes foi considerado uma falha de transparência por especialistas ouvidas pelo Estadão nesta quinta-feira, 26, algo que pode impactar na confiança da população no imunizante. A retirada do grupo em que ocorreu o evento inadequado poderia ter sido uma solução.

"Eles não falaram, em um primeiro momento, que o caso da meia dose era um erro. A gente imaginou que, realmente, era uma mudança no protocolo, que estavam tentando outra estratégia, usando meia dose na primeira injeção e a dose completa na segunda como uma estratégia para evitar a imunidade ao vetor. Eles usam o adenovírus", explica  Natália Pasternak, microbiologista, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Instituto Questão de Ciência.

Para Natália, o informe deveria ter sido feito, até porque a eficácia alcançada com as duas doses completas foi de 62%, que já seria suficiente diante da situação da pandemia.

"A gente vem a saber que foi um erro no preparo da dose, que essa meia dose nunca foi uma estratégia. Erros acontecem, mas eles têm de ser reportados com honestidade e transparência. Isso já abala a credibilidade da empresa e abala a confiança das pessoas não só na empresa, mas no processo científico, no processo de vacinação e nas vacinas como um todo."

Segundo a microbiologista, a eficácia de 90% foi notada no grupo que recebeu a meia dose, que é considerado pequeno para um teste clínico de fase 3.

"O que faz quando percebe o erro? Exclui essas quase 3 mil pessoas do estudo, que podem até continuar em um estudo separado, mas exclui da contagem principal. Se eles tivessem feito isso, teriam apresentado da seguinte maneira: houve um erro de dosagem e o restante chegou a 62%. É pouca gente, mas tem de testar melhor."

Médica pediatra e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai diz que é preciso entender o que ocorreu com os voluntários que receberam a meia dose, mas que a explicação tem de ser dada com dados científicos.

"A ciência está sendo atropelada por política, investidores da bolsa.  Prefiro aguardar que a ciência explique o que aconteceu, mas quem está anunciando é o investidor, o empresário e o político. Eu lamento por tudo isso. É a primeira vez que a população vivencia uma pesquisa de perto."

Isabella também destaca a importância da transparência na divulgação dos resultados das pesquisas. "Quanto mais responsabilidade dos empresários e políticos para divulgação de qualquer resultado, seja bom ou ruim, é imprescindível para que a população fique segura."

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