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Vacina não será suficiente: é preciso garantir que o SUS continue funcionando

A pandemia não acabará com a aplicação da vacina, pois não serão todos vacinados em um passe de mágica; durante o período de vacinação, casos e mortes pelo covid-19 continuarão a ocorrer, impondo todas as atuais restrições sanitárias

Gonzalo Vecina, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2021 | 05h00

2021 continuará o ano de 2020. A pandemia não acabará com a aplicação da vacina, pois não serão todos vacinados em um passe de mágica. Com tudo dando certo, basicamente as vacinas providenciadas pela Fiocruz e pelo Butantã poderão ser suficientes para cobrir toda a população indicada até o fim de 2021. Trata-se de vacinar todos acima de 18 anos, exceto grávidas e alguns portadores de problemas alérgicos. Algo como 160 milhões de brasileiros. E durante o período de vacinação, casos e mortes pela covid-19 continuarão a ocorrer, impondo todas as atuais restrições sanitárias. 

A sequência de vacinação e qual vacina vai ser usada ficam a cargo do Ministério da Saúde e do plano a ser aprovado pela tripartite. Pode ser que tenha alguma quantidade de vacinas entregue por outros fabricantes, a depender da disposição do ministério em negociar com eles. Mais sempre é melhor que menos. Faltam alguns "detalhes" – seringas, planejamento do software de controle das vacinas e das doses tomadas, organização da rede básica. Importante também levar em conta a já tradicional vacinação da gripe com vacina produzida pelo Butantã que deverá cobrir 80 milhões de pessoas – idosos, crianças e profissionais de saúde entre março e maio. Todos os anos temos realizado com sucesso esse ciclo que evita um número razoável de mortes pela gripe.

Por que não vacinar mais rápido? Por falta de ofertas de vacinas. Iremos vacinando à medida que as vacinas forem entregues. Realço que essa decisão foi das duas centenárias instituições, e que o governo federal só fez atrapalhar até este momento. É tempo, portanto, de tomar a frente e conseguir fazer um plano nacional com pelo menos essas duas vacinas e conseguir iniciar um melhor ano-novo em 2022.

Mas a vacina não será suficiente para gerar um novo tempo. Falta garantir que o SUS continue funcionando, que não lhe faltem os recursos até agora negados no orçamento de 2021. Falta discutir que temos de voltar as atividades de ensino sem vacinas, mas com um plano de retomada desenhado escola a escola, com professores e pais. Falta enfrentar o fato de que a economia não voltará a funcionar nesse tempo. E se os que vivem da economia informal não tiverem alternativas entregues pelo Estado, correremos o risco de sérios distúrbios sociais provocados pela fome.

É a agenda de curto prazo dessa extensão deste ano. Faz parte da conclusão admitir os problemas gerados pelo nosso Trump tropical. Faz parte da agenda do ano velho que teima em não ir embora. Líderes não são acidentes, são necessários. Problema a ser enfrentado nas novas eleições, no ano novo de 2022. A nova agenda deve pensar e propor o novo país fênix. 

Com uma economia reconstruída, com um sistema de educação inclusivo e de melhor qualidade e com um sistema de saúde universal financiado por impostos públicos. Num país que revisitará sua agenda ambiental e dentro da perspectiva de uma agenda social que busque diminuir as profundas desigualdades que hoje temos e que precisam de políticas públicas que o transformem.

O país do ano novo precisa da disposição dos brasileiros para ter um novo ano. Não nascerá do divino, mas sim da vontade de todos os que souberem o que querem. 

A contagem do tempo em ciclos anuais é um ato humano que a natureza ignora, mas a construção do novo pode transformar o mundo. O novo será consequência do conhecimento do que queremos e conseguirmos construir.

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