Clatterbridge Cancer Hospital
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Vacina personalizada contra o câncer alcança resultados esperançosos na Inglaterra, dizem médicos

Medicamento, testado em tumores na cabeça e no pescoço no Clatterbridge Cancer Center, ainda de forma preliminar e com número reduzido de pessoas, foi produzido a partir do DNA dos próprios pacientes

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

06 de julho de 2022 | 12h33
Atualizado 06 de julho de 2022 | 20h20

Uma vacina personalizada contra o câncer, produzida a partir do DNA do próprio paciente, alcançou resultados iniciais esperançosos em estudos clínicos do Clatterbridge Cancer Center, um dos principais centros de estudos médicos da Inglaterra. O estudo ainda é preliminar, com poucos participantes, e os resultados ainda não foram publicados em revista científica. 

A vacina foi aplicada como tratamento complementar em cânceres de cabeça e pescoço, aqueles que acometem as regiões da boca, faringe (garganta), laringe e cavidade nasal, bem como a pele, glândulas salivares, vasos sanguíneos, músculos e nervos da região, além da glândula tireoide.

Nenhum dos oito primeiros pacientes vacinados teve recaída. Por outro lado, o câncer voltou em dois de oito pacientes que não haviam sido imunizados. Os participantes do estudo haviam completado o tratamento tradicional (cirurgia, quimioterapia e radioterapia), porém que apresentavam alto risco de recorrência da doença. Os resultados foram apresentados no Congresso americano de Oncologia Clínica, em junho. 

Embora os números ainda sejam pequenos, ainda sem publicação nos periódicos científicos, a personalização trazida pela técnica abre uma nova perspectiva no tratamento contra o câncer, dizem os especialistas.

Christian Ottensmeier, consultor médico oncologista e diretor de pesquisa do Clatterbridge Cancer Center, mostrou certa dose de cautela, mas otimismo para as próximas fases da pesquisa. “Estou realmente esperançoso", disse. "Todos os dados estão apontando na direção certa”, acrescentou.

O Clatterbridge Cancer Center foi o primeiro hospital inglês a oferecer o tratamento. Um pequeno ensaio clínico com doentes com câncer nos ovários na França e nos EUA também vem mostrando resultados promissores.

Tecnologia usada na vacina contra covid

A vacina foi batizada de TG4050. Ela é desenvolvida pela empresa francesa Transgene com tecnologia semelhante à usada na produção do imunizante contra a covid-19 da AstraZeneca. Em linhas gerais, os cientistas coletam uma amostra do tumor do paciente e analisam as mutações, como uma assinatura única genômica daquele tumor. Com um mecanismo de inteligência articial, eles analisam pelo menos 30 dessas mutações mais propensas a estimular uma resposta imune.

Os fragmentos de DNA dessas mutações são inseridos no vírus que, por sua vez, é injetado no paciente. O sistema imune reconhece e produz uma resposta contra a célula desse tumor, fazendo vigilância e a defesa do organismo. 

Especialistas destacam personalização, mas ressaltam que dados são preliminares

O oncologista Thiago Bueno, vice-líder do Centro de Referência de Tumores de Cabeça e Pescoço do A.C.Camargo Cancer Center, classifica os dados como promissores, mas mantém a cautela. “São resultados iniciais, mas promissores. Estamos empolgados com esses resultados iniciais embora seja preciso manter os pés no chão e ter cautela. Vamos precisar ver os dados a longo prazo e analisar mais pacientes para afirmar que é uma tecnologia que veio para ficar no nosso arsenal no tratamento contra o câncer", diz o especialista. 

William Nassib William Júnior, diretor médico do Centro de Oncologia e Hematologia da BP - Beneficência Portuguesa, adota racionício semelhante. "Esse estudo aumenta o nosso conhecimento ao mostrar que o sistema imunológico foi capaz de ser treinado para reconhecer as moléculas introduzidas como tratamento. No entanto, nós não sabemos quais são os benefícios a longo prazo. Os dados são preliminares. Eles estão apontando na direção correta, mas precisamos de mais pacientes e de acompanhamento mais longo para ter certeza de que essa estratégia, bastante promissora, possa se tornar um novo tratamento padrão", opina. 

“Apesar de ser um estudo pequeno, não nos permitindo obter conclusões definitivas, os dados são animadores e deverão ser investigados com um maior número de pacientes para provar-se seguros e eficazes”, concorda o oncologista João Navarro, médico da Rede de Hospitais São Camilo de SP.

Para Bueno, o grande avanço do estudo feito na Inglaterra é a personalização do tratamento. “Cada tumor de cabeça e pescoço é único. A personalização abre uma nova perspectiva de tratamento contra o câncer. Nós ainda não temos tecnologias de indução de resposta imune de maneira tão personalizada, como um tratamento para cada paciente", explica. 

A imunoterapia, tipo de tratamento onde se esquadra o estudo inglês, representa uma das mais recentes inovações no tratamento da doença metastática do câncer de cabeça e pescoço. A terapia estimula o próprio sistema imunológico do paciente a controlar o tumor. São medicações injetadas na corrente sanguínea do paciente que podem produzir bons resultados de acordo com a resposta do paciente. 

William explica que o hospital estuda atualmente a combinação a imunoterapia com a quimioterapia ou com radioterapia para potencializar o efeito benéfico das duas medicações. Outra linha de pesquisa combina quimioterapia e imunoterapia para eliminar o câncer de laringe (garganta e corda vocal) sem a necessidade de cirurgia. 

Cientistas apontam os desafios para a criação de vacinas

Especialistas afirmam que as vacinas podem representar o futuro do tratamento contra o câncer, aproveitando o poder natural do sistema imunológico. As novas abordagens incluem imunizantes preventivos e terapêuticas capazes de diferenciar células tumorais das normais. Mas ainda existem grandes desafios para a criação e produção de vacinas contra o câncer.

Um deles é a variabilidade genética entre os tumores, inclusive de um mesmo sítio primário, ou seja, o local de origem do câncer, como explica Thiago Bueno. "Por esse motivo, uma vacina personalizada para cada tumor individualmente poderia vencer essa barreira", exemplifica.

Outros desafios envolvem a própria identificação das células anormais. Para que uma vacina seja criada, é preciso encontrar uma molécula que seja estranha ao organismo. "Uma segunda dificuldade é encontrar as moléculas alteradas contras as quais o sistema imunológico possa desenvolver uma resposta robusta para eliminá-las', avalia William Nassib William Junior.

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