he Russian Direct Investment Fund (RDIF)/Handout via REUTERS
he Russian Direct Investment Fund (RDIF)/Handout via REUTERS

Vacina russa contra covid induz resposta imune e não apresenta efeitos adversos, diz estudo

Estudo preliminar sobre o imunizante mostra que grupo de pacientes teve resposta positiva, mas especialistas afirmam que são necessários mais testes; autoridades russas dizem que negociam a produção da vacina no Brasil

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2020 | 08h53

Um grupo de pacientes que participou de um estudo preliminar da vacina russa contra o novo coronavírus desenvolveu uma resposta imune sem nenhum efeito colateral sério, de acordo com a revista The Lancet. Os resultados dos dois testes, conduzidos em junho-julho deste ano e envolvendo 76 participantes, mostraram que 100% deles desenvolveram anticorpos para a doença.

“Os dois testes de 42 dias - incluindo 38 adultos saudáveis cada - não encontraram nenhum efeito adverso sério entre os participantes e confirmaram que as vacinas candidatas provocam uma resposta de anticorpos”, afirma a publicação. 

De acordo com a The Lancet, os testes iniciais sugeriram que a vacina Sputnik V produziu uma resposta em um componente do sistema imunológico conhecido como células T. Os cientistas têm examinado o papel desempenhado por elas no combate à infecção do coronavírus, com descobertas recentes mostrando que essas células podem fornecer proteção de longo prazo do que os anticorpos.

O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, avaliou nesta sexta-feira, 4, que "a vacina russa pode ser categorizada como candidata", em entrevista à GloboNews. No entanto, o especialista ponderou que é improvável que os cientistas russos consigam saber qual o período de imunização em tempo hábil para a eventual aprovação do imunizante. "Vamos licenciar vacinas nesse cenário de pandemia sem todas as informações completas. Para preencher todos as informações que precisamos, esperaríamos 4, 5 anos", acrescentou.

Além disso, esses resultados preliminares não provam que a vacina protege efetivamente contra a infecção por covid-19, já que outros estudos são necessários, afirmam especialistas. “Ensaios grandes e de longo prazo, incluindo uma comparação com placebo, e monitoramento adicional são necessários para estabelecer a segurança e eficácia a longo prazo da vacina para prevenir a infecção por covid-19”, disse a The Lancet.

Comentando sobre os resultados dos testes em estágio inicial, o autor principal, Naor Bar-Zeev, do Centro Internacional de Acesso a Vacinas, da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins, disse que os estudos foram “encorajadores, mas pequenos”. Bar-Zeev, que não esteve envolvido no estudo, disse que “a eficácia clínica de qualquer vacina covid-19 ainda não foi demonstrada”.

Com os resultados agora publicados pela primeira vez em uma revista científica, a Rússia afirma que enfrentou seus críticos no exterior. E autoridades russas afirmam que a imunidade induzia é de dois anos. “Com esta (publicação), respondemos a todas as perguntas do Ocidente que foram diligentemente feitas nas últimas três semanas, francamente com o objetivo claro de manchar a vacina russa”, disse Kirill Dmitriev, chefe do Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF), o fundo soberano da Rússia, que apoiou a vacina.

A Rússia afirma que 40 mil pessoas devem participar do estudo de fase 3 e os resultados iniciais dessa etapa são esperados para outubro ou novembro deste ano.

No dia 11 de agosto, as autoridades russas anunciaram que a vacina entrava na terceira e última fase dos ensaios clínicos, mas que não esperariam os resultados dessa fase, do qual "milhares de pessoas participam", já que sua intenção era homologá-la em setembro.

O anúncio foi recebido com ceticismo por muitos pesquisadores e alguns países como a Alemanha, que duvidaram da eficácia e segurança do imunizante, principalmente pela falta de dados públicos sobre os ensaios realizados no momento do anúncio.

O presidente Vladimir Putin, no entanto, afirmou que a vacina garantiu "imunidade de longa duração" contra a doença.

A Sputnik V consiste em dois componentes diferentes, administrados em duas injeções com três semanas de intervalo, segundo o estudo publicado na The Lancet. É uma vacina de "vetor viral": usa dois adenovírus humanos (uma família muito comum de vírus) transformados e adaptados para combater o covid-19.

Os estudos foram realizados entre 18 de junho e 3 de agosto por pesquisadores dos ministérios da Saúde e Defesa russos e financiados pelo primeiro.

Autoridades russas afirmam que já estão em negociação com Brasil e Índia para a produção da vacina. A Rússia disse que espera produzir entre 1,5 milhão e 2 milhões de doses por mês de seu imunizante até o final do ano, aumentando gradualmente a produção para 6 milhões de doses por mês.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem 176 projetos de vacinas em andamento no mundo, dos quais 34 estão em fase de ensaio clínico, o que significa que já começaram a ser testados em humanos. Destes, oito estão na fase três, os mais avançados.

Interesse do Brasil

O Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) anunciou no último dia 27 a intenção de testar a vacina russa contra a covid-19 em pelo menos dez mil voluntários. O protocolo para validar a fase 3 dos estudos clínicos deve ser submetido à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em até 30 dias. 

Depois de aprovado, o Estado estima um prazo de duas semanas para realizar os ajustes finais. Em um cenário realista, o Tecpar espera iniciar os testes em voluntários em 50 dias. Uma comitiva paranaense realizou duas reuniões em Brasília com o objetivo de acelerar o processo de aprovação dos testes. 

Além do Paraná, a Bahia também demonstrou interesse no imunizante russo. No último dia 12, a Embaixada da Rússia no Brasil afirmou que está negociando um acordo sobre a vacina com o governo do Estado. 

Em nota, a Embaixada informou que, no dia 30 de julho, o chanceler russo, Sergey Akopov, participou de uma videoconferência com o governador baiano e presidente do Consórcio do Nordeste, Rui Costa, e o secretário de Saúde do Estado, Fábio Vilas-Boas

O tema da conversa foi uma possível parceria entre as instituições de pesquisa baianas e os centros científicos russos nos testes e produção do imunizante. Foi discutida também a possibilidade de outros estados da região se juntarem à negociação.

Akopov prometeu, no fim do último mês, enviar ao governo e a parlamentares estudos sobre o desenvolvimento da Sputnik V. Cobrado sobre estes dados durante reunião na Câmara dos Deputados, o chanceler mostrou um calhamaço recém-chegado às suas mãos, segundo ele. 

“Acabamos de receber os documentos sobre os resultados de pesquisas e provas da primeira e segunda etapa (da pesquisa clínica). Vamos a partir de hoje enviar, é um documento muito volumoso, a todos os participantes da reunião de hoje”, afirmou, mostrando os papéis.

No mesmo dia, o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou, por meio de sua assessoria, que "tem interesse na vacina para o combate à covid-19 que seja comprovadamente eficaz para garantir a saúde dos brasileiros". / COLABOROU GABRIEL CALDEIRA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.