Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Vacinação de adolescentes e crianças contra a covid-19: tire as principais dúvidas

Iniciada em países como Estados Unidos, Canadá e Chile, imunização de menores de 18 anos começa nesta quarta-feira, 18, no Estado de São Paulo

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2021 | 05h10
Atualizado 18 de agosto de 2021 | 22h55

Já iniciada em países como Estados Unidos, Canadá e Chile, a vacinação contra a covid-19 de adolescentes de 12 a 17 anos começou em algumas partes do Brasil. No Estado de São Paulo, tem início oficialmente nesta quarta-feira, 18.

Se adolescentes não são o grupo de maior risco para a covid-19, por que vacinar esta faixa etária? Esses jovens podem tomar qualquer imunizante? É melhor aplicar doses primeiro em todos os adultos ou aumentar a parcela da população protegida? Entenda essas e outras questões abaixo:

Por que é importante vacinar adolescentes?

Os motivos são vários. Quando o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou a inclusão de adolescentes de 12 a 17 anos no calendário de vacinação do Estado, especialistas em saúde ouvidos pelo Estadão avaliaram que a iniciativa é positiva. "Vacinar os adolescentes é extremamente importante para chegar ao benefício coletivo da imunidade de rebanho”, disse, em julho o epidemiologista da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) Pedro Hallal.

Segundo o professor a medida também ajuda na retomada das aulas presenciais — considerada por especialistas como uma prioridade diante do longo período de colégios fechados no Brasil. Embora a vacinação seja considerada importante neste processo de reabertura das escolas, estudos já mostraram que é possível reduzir significamente os riscos de contágio dentro da sala de aula, com a adoção de medidas como distanciamento social, uso de máscaras reforçadas, além de minimizar a transmissão na comunidade.

Na mesma época, o professor de Medicina da Universidade de São Carlos (Ufscar) Rodrigo Stabeli acrescentou que quanto mais rápido a vacinação avança, inclusive entre os adolescentes, mais a cobertura vacinal no País passa a ser significativa, fazendo com que a transmissibilidade e a possibilidade de surgirem novas variantes diminuam.

Onde já foi iniciada a vacinação de adolescentes?

No Brasil, capitais como Campo Grande, Porto Alegre e São Luís já começaram a aplicar doses em adolescentes. A faixa etária de 12 a 17 anos, a qual o governo de São Paulo começa a vacinar a partir de 18 de agosto, também passou a ser incluída nos programas de vacinação de países que estão mais avançados na cobertura vacinal, como Estados Unidos, Canadá, Chile e Japão. Além de grande parte da Europa. A capital paulista inicia a imunização desse grupo nos jovens de 16 e 17 anos que tenham comorbidade. 

Na campanha de São Paulo, quais são as comorbidades previstas?

Entre as comorbidades previstas nesta fase da campanha de São Paulo estão diabete, insuficiência cardíaca, síndrome de Down e obesidade mórbida, doença renal ou neurológica crônica, problema de audição, limitação motora que dificulte andar ou subir escadas, cegueira ou baixa visão, câncer e HIV. Jovens grávidas e puérperas (parto foi há 45 dias ou menos) também podem ir aos postos.

É necessário apresentar laudo da condição de saúde ou documento comprobatório, como cartão de gratuidade no transporte público indicando deficiência; ou documentos comprobatórios de atendimento em centros de reabilitação. Caso não haja documento comprobatório será possível a vacinação com a assinatura de uma autodeclaração. Os adolescentes devem ser acompanhados pelo responsável no ato da vacinação e o preenchimento do pré-cadastro no site Vacina Já agiliza o tempo de atendimento nos postos de saúde. 

Quais vacinas podem ser aplicadas em adolescentes no Brasil?

Até o momento, a vacina da Pfizer é o único imunizante aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para vacinação de adolescentes no Brasil. Em 30 de julho, o Instituto Butantan solicitou aprovação para a a faixa etária de 3 a 17 anos na bula da vacina Coronavac, mas, de acordo com a Anvisa, o pedido ainda "está em análise pela área técnica".

A Janssen, por sua vez, teve autorização da agência reguladora para condução de um estudo com menores de 18 no Brasil, mas ainda não apresentou as informações coletadas. "Os resultados são apresentados para a agência no momento em que o laboratório tiver dados que considere suficientes para solicitar a aprovação em bula para este público específico", explicou a Anvisa.

Procurada pelo Estadão, a AstraZeneca informou que iniciou um estudo de fase 2 de seu imunizante anticovid no Reino Unido para avaliar a segurança e a resposta imunológica da vacina em crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos de idade. O ensaio envolve 300 voluntários e é conduzido na Universidade de Oxford. "Os participantes do ensaio são acompanhados por 12 meses após a (aplicação da) segunda dose da vacina", explicou a empresa, sem especificar a data prevista para conclusão.

Quais vacinas podem ser aplicadas em crianças no Brasil?

Até o momento, nenhuma. A única que tem autorização para ser aplicada em menores de 18 anos é a Pfizer, mas a faixa etária autorizada pela Anvisa é de 12 a 17 anos. Na quarta-feira, 18, a agência recusou o pedido feito pelo Instituto Butantan de aplicar a Coronovac nas crianças acima de 3 anos.

Segundo a Anvisa, os dados enviados pelo Butantan foram insuficientes para atestar o perfil de segurança e a eficácia de proteção da Coronovac na população pediátrica. "Há que se lembrar que o sistema imunológico ainda está em fase de maturação nas crianças. Decorre daí todo um cuidado adicional, que nunca será pouco em relação a essa população", destacou o diretor-presidente da agência, Antonio Barra Torres.

Quais países estão vacinando crianças?

A China está vacinando crianças a partir de 3 anos com a Coronavac. Já Estados Unidos, Chile, Canadá, Israel, Japão, Cingapura e Reino Unido estão vacinando adolescentes de 12 a 17 anos com Pfizer, a mesma utilizada no Brasil para esta faixa etária.

Quais vacinas estão sendo testadas em crianças?

A Pfizer está testando sua vacinas em crianças a partir de 6 meses. A Janssen tem autorização no Brasil para estudo clínico em menores de idade: um para adolescentes de 12 a 18 anos e outro para crianças abaixo de 12 anos. Os resultados, entretanto, ainda não foram apresentados. A AstraZeneca informou ter iniciado um estudo de fase 2, no Reino Unido, para avaliar a segurança e a resposta imunológica da vacina em voluntários de 6 a 17 anos de idade. O ensaio envolve 300 voluntários e é conduzido na Universidade de Oxford. 

O que a Organização Mundial da Saúde diz sobre a vacinação em crianças e adolescentes?

Até o momento, a única vacina recomendada pela Organização Mundial da Saúde para crianças e adolescentes é a da Pfizer, indicada para adolescentes de 12 aos 17 anos. Segundo a OMS, ainda são necessárias mais evidências científicas sobre o uso de outros imunizantes para esta faixa etária. A agência ainda reforça que os ensaios clínicos estão em andamento e que irá atualizar suas recomendações "quando a evidência ou a situação epidemiológica pedir uma mudança de diretrizes".

Crianças e adolescentes também transmitem covid-19?

Sim. Estudo publicado esta semana na revista científica Jama, feito no Canadá, mostrou inclusive que crianças com menos de 3 anos têm mais probabilidade de transmitir o novo coronavírus dentro de casa do que outras faixas etárias abaixo de 18 anos. Embora os mais novos tenham chance menor de trazer o vírus para dentro do lar, a probabilidade de transmissão domiciliar foi cerca de 40% maior quando a criança infectada tinha 3 anos ou menos do que quando tinha de 14 a 17 anos.

Vacinar adolescentes é mais urgente do que completar a imunização da população adulta?

Vacinar adolescentes antes de completar o esquema vacinal de adultos divide especialistas. Uma parte defende completar o esquema vacinal (duas doses) dos adultos, que têm maior risco de agravamento da doença. Outros especialistas acreditam que é melhor garantir algum grau de proteção (ao menos uma dose) para uma parcela maior da população. 

Membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, Julival Ribeiro afirma que a pergunta sobre priorizar adolescentes continuará sendo muito debatida no Brasil. Isso porque a maior parte da população está vacinada com apenas uma dose, insuficiente na proteção contra a variante Delta, mais transmissível. “É uma decisão difícil no Brasil, sobretudo porque milhões de pessoas ainda precisam ser vacinadas e milhões de pessoas só tomaram a 1ª dose”, complementou o infectologista.

Segundo Ribeiro, se a vacinação estivesse mais avançada, estratégias como a aplicação de uma terceira dose em idosos e imunossuprimidos, por exemplo, poderiam estar sendo discutidas com mais amplitude. O Ministério da Saúde avalia a aplicação de uma injeção de reforço em parte da população e Estados já planejam essa estratégia para os mais velhos.

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