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Vacinação de crianças

Deve-se vacinar maior fração possível da população para evitar novas ondas de infecção

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2021 | 05h00

Enquanto tentamos conseguir as doses necessárias para manter nossa lentíssima campanha de vacinação contra a covid-19, os países que já estão em fase adiantada de imunização têm outras preocupações. A mais relevante para o Brasil é a vacinação das crianças.

Na Inglaterra e nos EUA, as pessoas ansiosas para serem vacinadas já receberam suas doses e a campanha está mudando de estratégia. Agora o desafio é vacinar quem resiste a ser vacinado e a compra da terceira dose, um reforço a ser ministrado com o objetivo de estender a proteção a novas variedades. Os principais fabricantes já estão desenvolvendo versões: a Moderna terminou um pequeno estudo de Fase 3 que demonstrou que sua terceira dose protege contra variantes, incluindo a de Manaus. A Pfizer divulgou resultados semelhantes para a variedade inglesa e da África do Sul.

Mas para esses países o mais importante é iniciar a vacinação de crianças e jovens. Os principais fabricantes já publicaram estudos, mostrando que suas vacinas são seguras e eficientes para esse grupo. A Pfizer já foi aprovada para uso de crianças a partir dos 12 anos no Canadá e provavelmente será aprovada nos EUA e na União Europeia nas próximas semanas. O plano atual é iniciar a vacinação imediatamente.

Por que tanta pressa se a covid-19 é geralmente mais fraca e menos frequente nos jovens (das mais de 560 mil mortes nos EUA só 332 tinham menos de 18 anos)? Duas razões são fáceis de entender: uma é o desejo de reabrir todo o sistema educacional de forma segura e definitiva. Outra é vacinar a maior fração possível da população para evitar novas ondas de infecção. Outro motivo envolve a direção em que o SARS-CoV-2 pode evoluir.

Na primeira onda, que ocorreu em 2020, o vírus atacou principalmente os mais velhos. A principal razão é que o vírus ainda não havia sofrido pressão evolutiva, sendo pouco infectante e menos letal. Essas características fizeram dos idosos e dos adultos com comorbidades as únicas vítimas possíveis para a cepa original. No início de 2021, surgiram variantes mais infecciosas, capazes de reproduzir com mais facilidade no corpo humano. Foi a seleção natural. Após surgirem ao acaso, resultado de mutações aleatórias, as variantes capazes de atacar adultos saudáveis passaram a infectar uma nova população de seres humanos que estava fora do alcance de seus ancestrais. Foi assim que ganharam espaço.

Até agora essas novas variedades ainda não se mostraram capazes de infectar facilmente jovens e crianças. Essa faixa etária, por enquanto, é o único grupo de humanos em que o vírus ainda não conseguiu penetrar. Na medida que os mais velhos são vacinados e os adultos também, as variedades atuais, e as novas que vão surgir, terão grande dificuldade para continuar a se propagar entre adultos. Isso cria uma enorme vantagem competitiva para qualquer variedade que seja capaz de se propagar entre jovens e crianças ou escape das vacinas. Para evitar seu surgimento e dispersão, o lógico é vacinar os adultos com a terceira dose e todos os jovens o mais rápido possível. 

É importante ressaltar que apesar de muitos bebês e crianças estarem sendo infectados e internados nas UTIs, ainda não foi identificada uma variedade capaz de romper a barreira que impede que o vírus infecte os jovens (a natureza dessa barreira é pouco conhecida, mas investigada). Tampouco podemos ter certeza de que essa barreira venha a ser rompida e novas variedades capazes de infectar crianças venham a surgir. Mas o que os cientistas têm certeza é de que a pressão da seleção natural causada pela vacinação em massa de adultos e idosos cria um ambiente propício para a rápida propagação de variedades capazes de infectar crianças e adolescentes, o que seria uma catástrofe.

É por esse motivo que países que acreditam na ciência e no processo de evolução estão se preparando para iniciar a vacinação dos jovens. Por aqui, onde só reagimos quando estamos com a água no pescoço, esse problema só vai ser enfrentado quando, numa terceira onda, crianças começarem a morrer nas UTIs. E óbvio, não teremos as vacinas necessárias. Não precisava ser assim.

* É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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