Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Vacinas contra a covid-19: resultados de eficácia já apresentados

Índices variam entre 50,38% e 95%; OMS estipula taxa mínima de 50% para que o imunizante contra a doença seja aprovado

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 12h36

Pelo menos cinco laboratórios que produzem a vacina contra a covid-19 já divulgaram dados de eficácia do imunizante em desenvolvimento. Duas das vacinas, Coronavac e Oxford/AstraZeneca, que também receberam da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no domingo, 17, aprovação para uso emergencial no País, apresentam eficácia de 50,38% e média de 70,32%, respectivamente. 

Na última terça-feira, 12, o governo de São Paulo e o Instituto Butantã anunciaram que a taxa de eficácia geral da Coronavac é de 50,38%, um pouco acima do índice mínimo de 50% estipulado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e defendido pela Anvisa para que uma vacina contra a doença seja aprovada. Conforme o Estadão já havia revelado, o porcentual é inferior ao apresentado na semana anterior pelo governo paulista, de 78%, pois a taxa mais alta referia-se somente a um recorte do estudo. 

"A eficácia é muito importante, mas a segurança também é extremamente importante. Apesar do índice de eficácia mais baixo, não podemos deixar de levar em consideração que a Coronavac é uma vacina feita com tecnologia tradicional. Pouco provável, que a gente venha a descobrir, utilizando a longo tempo, qualquer tipo de efeito colateral inusitado, pela proposta de tecnologia dela", afirma Ekaterini Simões Goudouris, diretora da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI).

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"A vacina da BCG para tuberculose dada em recém-nascidos, por exemplo, é a que tem uma eficácia menor entre as vacinas que já utilizamos. Protege de manifestações graves. É uma vacina que temos em uso, não tem eficácia elevadíssima, nem por isso deixa de ser importante", acrescenta Ekaterini.  

Segundo ela, o que preocupa não é o aspecto individual, mas o aspecto coletivo, ou seja, o número de pessoas que devem ser imunizadas contra a covid-19 para se atingir a imunidade coletiva. "Se tenho vacina com níveis de 50% de eficácia, tenho que vacinar quase 100% da população, ao contrário de uma vacina que tenha eficácia maior."

Os dados de eficácia dentro de estudos controlados servem para mostrar os impactos que as vacinas terão uma vez introduzidas no programa de vacinação. "O principal desfecho que gostaríamos de ter é a prevenção de formas graves, com redução de óbitos, casos graves e internações", afirma Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Na opinião de Kfouri, o programa de vacinação é dependente de eficácia, número de doses e capacidade de imunização. "Vacinar 15% da população terá diminuição de 15%, se vacinar 90% da população, a redução de óbitos e internação será muito maior. É preciso ainda monitorar para que a população tome adequadamente a vacina, dentro dos intervalos recomendados entre primeira e segunda dose."

Ainda sobre a variação das taxas de eficácia, o diretor da SBIm avalia que as vacinas estão "apresentando taxas diferentes de eficácia também porque são de tecnologias diferentes", ressalta Kfouri.

Em novembro do ano passado, a Pfizer e a BioNTech anunciaram que a vacina contra a covid-19 apresentou eficácia de 95%, após a conclusão da fase 3 dos testes clínicos.

A diretora da ASBAI lembra que no primeiro dia de aplicação da vacina no Reino Unido em dezembro, duas pessoas que receberam a vacina da Pfizer desenvolveram uma reação alérgica grave ao imunizante, de acordo com informações divulgadas na época pelas autoridades britânicas. "Dois casos de reações anafiláticas foram reportados", disse.

Feita com tecnologia de RNA mensageiro, a vacina traz as informações genéticas específicas da proteína do vírus que pode desencadear a resposta imune no corpo. "São as primeiras vacinas desta tecnologia que estão sendo lançadas. Ainda não conhecemos todos os efeitos colaterais que podem ser provocados", afirma Ekaterini.

No mesmo mês, a empresa de biotecnologia Moderna, que utiliza o mesmo princípio que a Pfizer, anunciou que os resultados preliminares da análise da vacina contra o novo coronavírus desenvolvida pela companhia apontaram eficácia de 94,5% na prevenção da doença, incluindo casos graves. De acordo com a farmacêutica, não foi relatada nenhuma preocupação significativa com a segurança. E as reações adversas observadas foram leves a moderadas, como dor no local de injeção, fadiga, mialgia e cefaleia, geralmente de curta duração.

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Depois que a vacina é injetada, adenovírus colidem com células e se fixam em proteínas na superfície delas; a célula envolve o vírus em uma bolha e o puxa para dentro; uma vez lá dentro, o adenovírus escapa da bolha e viaja para o núcleo

Já a vacina contra a covid-19 desenvolvida pelo consórcio da farmacêutica britânica AstraZeneca e da Universidade de Oxford apresentou eficácia que varia de 62% a 90%, eficácia média de 70,32%. A eficácia é de 90% para voluntários que receberam primeiramente metade de uma dose, depois uma dose completa um mês depois. O índice, porém, cai para 62% no grupo vacinado com duas doses completas. Os resultados foram criticados em razão do erro na injeção de meia dose. 

Sobre a vacina  Sputnik V, no fim do ano passado, o governo da Rússia e o Centro de Epidemiologia e Microbiologia Nikolai Gamaleya anunciaram que a imunização apresentou eficácia acima de 95% após a segunda dose. Com apenas uma dose, a eficiência foi de 91,4%

Para Kfouri, são dados que precisam ser avaliados com cuidado. "Precisamos ainda ver com cautela, porque o governo russo fez apenas um anúncio. Não foi feita apresentação de dados para a comunidade científica", afirma.

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