Tiago Queiroz/ Estadão
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Sergio Cimerman
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Vacinas contra a covid-19 e novas cepas do vírus serão desafios para 2021

O ano que passou, em que todos aprendemos muito, já foi. Felizmente

Sergio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2021 | 05h00

Em breve vamos chegar a um ano do primeiro caso do novo coronavírus no Brasil, ocorrido em São Paulo. Neste tempo todo aprendemos muito, sim, e tivemos de lutar também contra informações falsas e contra os negacionistas de plantão. Quem pensava que por aqui não haveria a mesma gravidade experimentada por outros países, só porque “Deus é brasileiro”, se enganou fortemente. 

Somos uma das maiores casuísticas de casos diagnosticados e óbitos mundiais. Se formos levar ao pé da letra, fazemos ainda poucos diagnóstico e os dados são subnotificados. Houve, nesse período, muita politização em relação à covid-19. Pessoas querendo se valer de tratamento precoce sem embasamento científico adequado, terapias alternativas com fins lucrativos. Queda de dois ministros da Saúde que não tiveram apoio do governo para levar à frente as ideias no real combate à pandemia. Se listarmos, veremos mais fatos ruins que bons.

Temos também de fazer uma avaliação crítica de que o atendimento melhorou e os índices de mortalidade caíram em muitos serviços médicos. Nossos profissionais de saúde, guerreiros, dominam hoje com maior tranquilidade os casos. Dos moderados aos graves, tendo opções farmacológicas adjuvantes com boa repercussão clínica graças a estudos bem conduzidos - como, por exemplo, o uso de corticoides em momento certo e posologia adequada. Ainda não dispomos de tratamento específico para os casos graves.

Nos restam, neste momento, as vacinas. O mundo todo focado nesse ponto: vacinar, e com maior urgência possível. É a única arma de que dispomos. A falta de insumos mundial tem atrasado a imunização mesmo nos países ricos. A experiência que aponta a vacina como fator preponderante nesse combate é vista claramente em Israel. Boa parte da população já recebeu a primeira dose e os dados revelam menor número de internações, menor gravidade da doença e menos óbitos. 

Estamos vivendo agora a questão das variantes do Sars-Cov-2, que mostram nuances distintas em cada localidade. Reino Unido, África do Sul e no Brasil, em Manaus, a linhagem P1, com mutação nas posições 484 e 501 do gene que codifica a proteína do Sars-cov-2. O que isso pode afetar? Casos mais graves e de maior transmissão, maior número de jovens acometidos. Essa parece ser a tônica vista pelos médicos neste momento. 

E as vacinas podem sofrer com as variantes? Não sabemos ainda. Dados apontam que na África do Sul a vacina de Oxford/Astra Zeneca teria uma resposta mais desfavorável, mas estudos ainda não podem comprovar. 

Com a vacina do Butantã, nenhum dado acerca disto até o momento. As outras vacinas que dispõem de RNA mensageiro, como as da Pfizer e da Moderna, teriam um impacto negativo porém podem ser modificadas. 

Outro ponto destacado na mídia é o da privatização da vacina. Ponto nevrálgico e de muita discussão. No momento de escassez das vacinas não devemos ter o mercado privado competindo pelo produto e especulando o preço. Temos de prover a população como um todo e não as pessoas mais abastadas. Devemos ter equidade e transparência, como nos moldes dos transplantes de órgãos. 

Foi um ano de muita aprendizagem. O que sabemos ainda e é fato: uso de máscaras adequado, higienização das mãos, distanciamento social e a não aglomeração, fundamentais para a resposta frente à pandemia. Vamos vacinar as pessoas rapidamente. Temos expertise para isto. Criar grupos prioritários mais rápidos e incorporar a população como um todo. Não podemos demorar um ano para imunizar. Este ano será de certezas e sucesso. O ano que passou já foi. Felizmente. 

*COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E MÉDICO DO INSTITUTO EMÍLIO RIBAS

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