Attila Balazs/MTI via AP
Attila Balazs/MTI via AP

Vacinas contra outras doenças podem ajudar na prevenção da covid? Cientistas investigam

Imunizantes BCG e Tríplice Viral, muito utilizados em todo o mundo contra outras doenças, estão sendo pesquisados como alternativas para combater o coronavírus

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2021 | 11h00

RIO - Cientistas brasileiros e estrangeiros pesquisam, como alternativas para a prevenção da covid-19, duas vacinas muito utilizadas em todo o mundo contra outras doenças: a BCG (antituberculose) e a Tríplice Viral (contra sarampo, caxumba e rubéola). Ambas induzem uma resposta imunológica específica contra os agentes para os quais foram desenvolvidas e uma reação mais genérica contra vários outros agentes infecciosos. Os pesquisadores agora tentam saber se poderiam servir no combate ao novo coronavírus.

O processo é chamado de imunidade heteróloga. Está relacionado à primeira fase de estimulação do sistema de defesa do organismo contra um agressor. Esse tipo de resposta imune é inespecífico. Age diante de qualquer microorganismo oportunista. Para alguns especialistas, um reforço na vacinação da BCG e da Tríplice Viral poderia ser recomendado na prevenção da covid. Seria aplicado sobretudo entre as pessoas mais jovens. Elas ainda estão longe de receber a vacina específica contra o Sars-CoV2.

“Pode ser uma conduta interessante diante de uma doença para a qual não temos ainda tratamento e frente a perspectiva de levarmos ainda muito tempo para conseguir vacinar todo mundo com o imunizante específico”, afirmou o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), Juarez Cunha. “Resultados preliminares indicam que as pessoas que receberam essas vacinas têm alguma proteção para casos de doença sintomática e de internações. No entanto, esses resultados não foram ainda publicados, então ainda é cedo para fazer uma recomendação.”

Os primeiros dados de um estudo desenvolvido na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com a Tríplice Viral são animadores. Indicam que, embora a vacina não proteja contra o novo coronavírus, ela reduziria em 54% os casos sintomáticos. Também diminuiria em 74% as internações. O estudo revela ainda que essa imunidade inespecífica duraria pouco. Seriam de seis a doze meses. O trabalho ainda não foi publicado em revista científica, com revisão de pares.

“Resolvemos divulgar estes dados antes mesmo de submetermos o trabalho a uma revista porque acreditamos que a informação pode beneficiar uma parte da população, oferecendo proteção contra os casos graves de covid-19”, afirmou o coordenador do estudo, chefe do Centro de Pesquisa do Hospital Universitário da UFSC, Edson Frandizzi. “Não se trata de substituir a vacina específica, mas as pessoas mais jovens, que não se enquadram nas prioridades e não serão vacinadas neste semestre, poderiam se beneficiar dessa vacina.”

Esse tipo de imunidade poderia explicar por que há sete adultos infectados para cada criança com covid-19. Explicaria ainda por que o número de casos é 65% maior entre os menores de dois anos em relação às demais crianças. Essas já receberam os imunizantes.

Um estudo de pesquisadores de diferentes instituições americanas, publicado na revista da Sociedade Americana de Microbiologia em 2020, analisou a presença de anticorpos para sarampo, caxumba e rubéola em pacientes com covid-19. Concluiu que aqueles que tinham as maiores taxas apresentaram casos menos graves de covid-19.

Outro trabalho, da Universidade de Michigan, nos EUA, e publicado na “Science” no ano passado, calculou que o número de mortes por covid-19 seria menor nos países onde a vacinação contra a tuberculose é obrigatória. Segundo o estudo, o número de óbitos pelo novo coronavírus no Brasil poderia ser até 14 vezes maior do que o registrado se não houvesse a imunização contra o Bacilo Calmette-Guérin (BCG).

No Brasil, cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também buscam determinar se a BCG poderia dar alguma proteção contra a covid. Eles não quiseram, no entanto, comentar os resultados, ainda preliminares. Outros pesquisadores também são cautelosos.

“Esses estudos são muito interessantes, mas estão todos em andamento e ainda vai demorar um pouco para que apresentem conclusões”, pondera a microbiologista Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência. “Não dá pra sair vacinando todo mundo no chute, não servir para nada e as crianças ficarem sem a Tríplice Viral. E já temos várias vacinas aprovadas contra a covid.”

Coordenador da Unidade de Diagnostico Molecular RT-PCR COVID-19 da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e especialista em BCG, Tiago Collares concorda com a colega.

“Eu acho que do ponto de vista imunológico é interessante, mas do ponto de vista estratégico não sei”, disse Collares. “Precisaria saber que grau de benefício essa vacinação traria e se não faltaria vacina de BCG para as crianças.”

O epidemiologista da UFPel Fernando Barros conclui: “Só estamos tendo essa discussão agora porque não temos vacina em larga escala e, se continuar do jeito que está, ainda vai demorar muito para os menores de 60 anos receberem o imunizante. Mas o ideal é que o governo compre vacinas específicas”.

'Turbinar' a BCG contra a covid é nova aposta de pesquisadores

O efeito da imunidade induzida pela BCG na prevenção da covid-19 não é o único caminho seguido por cientistas na luta contra o novo coronavírus nesse campo de pesquisas. Dois grupos de pesquisadores, um na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e outro na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), vão além. Tentam, a partir do imunizante antituberculose, desenvolver uma nova vacina contra o Sars-CoV2. Para isso, usam engenharia genética.

A ideia é alterar geneticamente a bactéria atenuada presente na BCG. O objetivo é que ela passe a expressar também algumas proteínas do Sars-CoV2. Assim, a vacina continuaria oferecendo proteção contra a tuberculose, mas também preveniria a covid-19. A linha de pesquisa não é nova. Já vem sendo usada com sucesso no tratamento de alguns tipos de câncer.

“Estamos iniciando os testes pré-clínicos e estamos otimistas e esperançosos de que esta abordagem vai nos proporcionar obter uma vacina eficaz, que induza uma resposta específica contra o novo coronavírus”, afirmou o professor Odir Antônio Dellagostin, coordenador da pesquisa que está sendo desenvolvida no núcleo de biotecnologia da UFPel.

A abordagem usada pelo grupo de Santa Catarina é parecida. A principal diferença são as proteínas do vírus escolhidas para serem expressadas na bactéria da BCG.

“A BCG é uma vacina centenária, que usamos há muito tempo com segurança. Já foram aplicadas mais de um bilhão de doses dessa vacina”, explica o imunologista André Báfica, da UFSC. "A ideia é que a bactéria consiga expressar certos genes do Sars-CoV2. Estamos em fase pré-clínica, desenvolvendo as bactérias recombinantes.”

Além da segurança já comprovada da vacina, outra vantagem desse imunizante seria a facilidade da produção e a longa duração da resposta imune. Seria diferente do que acontece com as atuais vacinas contra a covid, que oferecem uma imunidade temporária.

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