Dida Sampaio/Estadão - 10/3/2021
Dida Sampaio/Estadão - 10/3/2021

'Vamos destruir o vírus, e não atacar o governo', diz Bolsonaro

Em tom irônico, presidente afirma que se lockdown por 30 dias acabasse com o problema, toparia adotar a medida. 'Mas não vai acabar', prevê

Emilly Behnke, Daniel Weterman e Matheus de Souza, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2021 | 19h28

BRASÍLIA - Diante da pressão para o combate à pandemia da covid-19, o presidente Jair Bolsonaro pediu nesta segunda-feira, 22, que o foco dos ataques seja direcionado ao novo coronavírus, e não a seu governo. Ele repetiu que é contra a política de lockdown e apelou para que o vírus não seja alvo de "politização". O discurso ocorre no momento em que pesquisas de opinião mostram queda na avaliação do governo sobre a condução da crise sanitária.

"Vamos destruir o vírus, e não atacar o governo. Não pode essa questão continuar sendo politizada em nosso Brasil", disse o presidente, em cerimônia no Palácio do Planalto. Em tom de ironia, Bolsonaro chegou a afirmar que poderia até adotar a política de lockdown por 30 dias. "Se ficar em lockdown 30 dias e acabar com o vírus eu topo, mas sabemos que não vai acabar", declarou.

Bolsonaro afirmou não saber se a doença vai acabar um dia. "Pesquisas sérias dos Estados Unidos mostram que a maior parte da população contraiu o vírus em casa", completou ele, sem citar fontes. Bolsonaro disse que só mudaria o seu discurso contra políticas de isolamento se fosse convencido da eficácia dessas ações.

"Eu devo mudar meu discurso? Eu devo me tornar mais maleável? Eu devo ceder? Fazer igual a grande maioria está fazendo? Se me convencerem do contrário, faço, mas não me convenceram ainda. Devemos lutar é contra o vírus, e não contra o presidente", insistiu. "Parece que, no mundo todo, só no Brasil está morrendo gente".

A política de isolamento é uma recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que avalia a medida como a melhor alternativa para conter a propagação do vírus. No discurso, porém, Bolsonaro usou a instituição para embasar sua defesa pessoal contra o isolamento. Mais uma vez, o presidente distorceu manifestação de David Nabarro, enviado especial da OMS, durante entrevista para a revista britânica The Spectator

Na entrevista original, Nabarro disse que era preciso encontrar uma forma de retomar a vida social e a atividade econômica sem que isso significasse aumento no número de casos e mortes pela covid-19. Observou que uma consequência dos fechamentos era "tornar pobres mais pobres", mas em nenhum momento disse para governantes não confiarem na quarentena. 

"Alguns no Brasil querem que eu decrete lockdown. Me chamam de negacionista ou de ter um discurso agressivo. Respeite a ciência! (O lockdown) não deu certo. Não estou afrontando ninguém. Estou seguindo a OMS", afirmou Bolsonaro, após citar a entrevista.

Apesar de o País passar pelo momento mais grave da pandemia e avançar de forma lenta na vacinação, Bolsonaro elogiou o trabalho desempenhado pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. "Orgulho em ter o ministro Pazuello, o trabalho que fez no tocante a vacina", disse. Depois, afirmou que Marcelo Queiroga, indicado para suceder Pazuello, é um "médico experiente" e dará continuidade ao trabalho desempenhado até então na pasta. Bolsonaro admitiu que o ministério será agora "muito mais voltado para a questão da medicina".

Sob  fortes críticas na condução da pandemia, o presidente disse que outros países no mundo também enfrentam problemas quanto à vacinação. "Está faltando vacina? Queríamos mais, mas, dentro da disponibilidade do mundo, somos realmente algo excepcional. Qual país do mundo não tem problema com vacina? Contratamos até o final do corrente ano 500 milhões de doses de vacina", afirmou. Prometeu, ainda, que "daqui a poucos meses" o País irá fabricar e exportar imunizantes.

Na tarde desta segunda-feira, 22, Bolsonaro assinou decreto que regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Também sancionou projeto de lei em prol de portadores de visão monocular (cegueira de um dos olhos). A cerimônia para a assinatura de projetos considerados positivos à imagem do governo foi fechada à imprensa -- fato que desagradou a Bolsonaro --, mas teve transmissão ao vivo. 

Com a popularidade abalada, o presidente passou uma descompostura em sua assessoria. "Num momento como esse, não pode minha assessoria deixar a imprensa lá fora. É inadmissível isso daí. É uma bronca, uma bronca pública. Isso é inadmissível", disse.

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