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Vamos parar de discutir com negacionistas: chegou a hora de tomar a vacina para salvarmos vidas

Já estão imunizadas no mundo mais de 23 milhões de pessoas. Acorda, Brasil!

Sergio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2021 | 05h00

Entrando em 2021 com boas notícias, assim esperamos. Novidades sobre as vacinas que serão colocadas à disposição para os brasileiros vêm tomando destaque em todas as mídias e, a cada dia, um capítulo de novela aguardando desfecho favorável ou não. Claro que os negacionistas tentam jogar um balde de água fria a cada dado referente às vacinas da Fiocruz (Oxford/Astra Zeneca) e, em especial, a do Butantã (Sinovac).

Divulgam informações inverídicas e exploram a eficácia de outras vacinas que jamais teremos disponíveis em solo brasileiro: as vacinas de RNA mensageiro de Pfizer e Moderna. Por qual motivo fazer isto? Colocar a população em dúvida, criar pânico? São vacinas com eficácia acima do que prevíamos, seguras, mas com dificuldade de logística e já vimos perdas de doses nos Estados Unidos por causa dessa questão. Outro detalhe que a maioria se esquece: venderam toda a produção às grandes economias. 

Então, o que temos para hoje: nossas duas vacinas nacionais produzidas por instituições centenárias e que gozam da maior seriedade no campo da pesquisa cientifica. Vacina do Butantã já com estoque de doses para início e da Fiocruz, que segundo relatos, em 3 meses eles teriam capacidade de distribuição. Muito se questionou, na semana que passou, na coletiva de imprensa do Governo do Estado de São Paulo, sobre os dados de eficácia e segurança da vacina do Butantã. Foram apresentados os dados brutos do estudo da fase 3 que mostram excelente taxa de eficácia em relação aos casos leves de 78% e para casos moderados/graves com 100%. Atentem que são números expressivos no combate a covid-19. Expressam a não internação hospitalar e uma diminuição de custos e risco de morte. E assim a vacina mostra sua alta efetividade, comemorada por boa parte da comunidade médica e apedrejada por tantos negacionistas que exploram a não divulgação do relatório completo.

Tentando esmiuçar tal fato, temos de considerar que as mesmas vacinas de Pfizer e Moderna tiveram seus dados completos divulgados após análise do órgão regulatório, no caso o FDA, que é comparado à Anvisa. Queremos sim, que os dados venham a publico para transparência e, consequentemente, gerar confiabilidade para indicar uma vacinação em massa. Neste momento, com o pedido para uso emergencial dos dois imunizantes, deveremos ter a resposta muito provável até 18 de janeiro e, assim, finalmente iniciar o processo e organização dos grupos prioritários.

A Anvisa tem um rito e devemos fazer com que sigam estes procedimentos para que não pairem dúvidas. Mas precisamos afastar questões políticas nesta análise das duas vacinas e agilizar toda esta questão. Caminhamos neste momento sem união entre o governo federal e os Estados. O Ministério da Saúde tem de montar um plano nacional sólido e que gere confiança em todos. Até este momento, não se vislumbra esta ação. Apenas promessa de compra das vacinas de nossas Instituições, mas sem levar o problema mais a sério, tratando como uma “gripezinha” ainda.

Passamos os 200 mil mortos no Brasil, mil mortes diárias, inúmeros casos sem diagnóstico, ainda caracterizando subnotificação. Precisamos – urgentemente - das vacinas para poder sonhar com um novo normal e que a população realmente faça uso da imunização. Caso não consigamos ter ao menos 70% de uma imunidade coletiva (rebanho), não iremos poder diminuir as medidas protetivas clássicas: uso adequado de máscaras, distanciamento social e lavagem de mãos com água e sabão e uso de álcool em gel a 70%.

Mesmo que nossas vacinas não atinjam eficácia comparável às americanas, terão o seu efeito na população sim! Comparando com a vacina para gripe (influenza), há anos não alcançamos 50% de eficácia e em outros casos de melhores resultados, chegamos ao máximo de 70%. Mas vacinas contra influenza, é evidente, são as que melhoram a gravidade e taxa de mortalidade de quem faz uso anual. Estamos aprendendo dia a dia com a pandemia e novas informações são incorporadas e acompanhadas pela ciência.

Está chegando a hora.

Vamos nos vacinar. Lembrando que tem de ser em duas doses. Há a possibilidade de se espaçar em até 28 dias a fim de aumentar o número de vacinados na primeira fase. Perfeitamente viável e dentro das normatizes que as pesquisas mostraram. Lembrar que apenas após entre o 7º e o 10º dia, após a segunda dose, o individuo está realmente imunizado. Temos de orientar e trabalhar esta informação de modo diário para que a população tenha consciência em retornar para a 2ª dose da imunização.  Vale comentar que todas as vacinas disponíveis estão neste mesmo esquema, com exceção da vacina da Janssen que é em dose única, porém sem data para aprovação no mercado mundial. Temos de ser realistas. Já estão imunizados mais de 23 milhões de pessoas com pelo menos uma dose no mundo e, por aqui, ainda nada. Acorda, Brasil!!!   

Vamos fazer esforços e combater inverdades. Orientar e informar devem ser as palavras-chave neste momento. Tomar a vacina significa salvar vidas.

*Coordenador Científico da Sociedade Brasileira de Infectologia e médico do Instituto de Infectologia Emilio Ribas

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