WERTHER SANTANA/ESTADÃO 08/02/ 2021
Aula é realizada em escola estadual na cidade de São Paulo WERTHER SANTANA/ESTADÃO 08/02/ 2021

Variante Delta e crianças: o que sabemos sobre os riscos no Brasil

Alta de casos nessa faixa etária nos Estados Unidos chamou a atenção de autoridades. Especialistas apontam que não há evidências de que a Delta esteja associada à maior gravidade da doença ou que tenha 'predileção' pelos mais novos

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 15h09

O aumento de internações de crianças com a covid-19 fez soar o alerta nos Estados Unidos. Público ainda não vacinado, os menores de 12 anos agora representam uma fatia maior de novos casos da doença registrados no país e as preocupações de médicos e especialistas se voltam para entender se a variante Delta, disseminada por lá, é capaz de causar quadros mais graves nas crianças.

Embora seja mais transmissível, ainda não há evidências científicas de que a Delta esteja associada à maior gravidade da doença. No Brasil, infectologistas afirmam que as crianças continuam sendo um público menos afetado pela covid-19. Para os especialistas brasileiros, não está claro se a Delta ganhará tanto espaço por aqui. E, mesmo que ganhe, não há indícios de que as crianças ficarão doentes com maior gravidade por causa da nova cepa, segundo afirmam.  

“A Delta não tem nenhuma predileção por crianças”, diz Renato Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Ele afirma ser natural que, em um cenário de aumento de casos da covid-19, como ocorre nos EUA, as pessoas não imunizadas representem uma fatia maior do total de internados. Nos Estados Unidos, entre 22 e 29 de julho, 19% dos novos casos de covid registrados eram de crianças doentes, de acordo com a Academia Americana de Pediatria (AAP).

Uma reportagem do jornal The New York Times desta semana mostrou que, de 31 de julho a 6 de agosto, 216 crianças com covid foram internadas diariamente, em média - praticamente o mesmo número do início de janeiro, no pico da pandemia, quando 217 crianças infectadas pelo coronavírus eram hospitalizadas todos os dias no país.

No Brasil, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) também demonstrou tendência de aumento de hospitalizações de crianças de 0 a 9 anos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) com teste positivo para a covid-19 nos Estados do Rio e em São Paulo, nas últimas semanas. Para o pesquisador Leonardo Bastos, do Programa de Computação Científica da Fiocruz, porém, esse crescimento não tem relação com a Delta.

“A hipótese é que parte dessas hospitalizações é de crianças que estão sendo hospitalizadas por outras causas, mas também estão com covid”, diz Bastos. Por essa linha de interpretação, as crianças chegam ao hospital com doenças respiratórias relacionadas a outros vírus que circulam no inverno, mas, quando são testadas para a covid-19, os exames detectam uma co-infecção pelo coronavírus. Os dados são uma projeção com base no Sistema de Informações de Vigilância Epidemiológica da Fiocruz (Sivep-Gripe), do Ministério da Saúde.

O fato de que não houve aumento de internações na faixa etária de 10 a 19 anos - que também não está vacinada - reforça a tese de que a causa das internações são os vírus típicos da infância, que acometem mais as crianças mais novas. O inverno deste ano tem características diferentes: além das temperaturas mais baixas, também caiu o isolamento social, o que contribui para a disseminação de doenças virais, de um modo geral.

“O grau de exposição neste inverno é maior”, diz Bastos. “As crianças agora estão circulando, vendo o avô, o tio. E algumas estão em aula presencial.” A pesquisa da Fiocruz identificou que o número de óbitos de crianças por covid-19 continua baixo. No Brasil, crianças e adolescentes representam 0,3% do total de mortes pela covid-19. O Brasil é o segundo país com mais óbitos de crianças pela doença.

Dados da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo indicam que não houve aumento de internações de crianças de 0 a 9 anos na capital. Segundo a pasta, em maio foram 108 internadas com a covid-19 na capital paulista. Em junho, o número caiu para 61 e em julho, ficou em 55. Os números se referem tanto à rede privada quanto à pública na cidade de São Paulo.

Enquanto médicos na linha de frente veem aumento de internações de crianças nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) faz campanhas para que os pais levem os filhos com mais de 12 anos para se vacinar antes do início das aulas, em setembro. Vacinas como a da Pfizer já estão disponíveis para adolescentes e os EUA já começaram a aplicá-las nessa faixa etária. Ainda não há imunizantes aprovados para crianças com menos de 12 anos.

O Brasil tem poucos adolescentes vacinados - já que a maior parte dos Estados ainda não chamou todos os adultos para tomar a primeira dose. No Estado de São Paulo, a previsão é de começar a vacinar adolescentes ainda este mês. O Instituto Butantan pediu em julho à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para incluir crianças e adolescentes de 3 a 17 anos na bula da Coronavac, desenvolvida em parceria com o laboratório chinês Sinovac.

Segundo os especialistas, o País precisa avançar na imunização dos adultos para, posteriormente, alcançar as crianças e adolescentes. Meninos e meninas com menos de 12 anos só devem tomar a vacina no ano que vem, segundo projeção dos médicos brasileiros. A previsão de avanço da Delta por aqui coloca mais pressão para a agilidade da vacinação. Pesquisas já demonstraram que a proteção contra a Delta depende das duas doses do imunizante.

“Em uma situação em que temos ainda um contingente alto de adultos não vacinados, eu não colocaria as crianças como prioritárias para receber a vacina”, diz Francisco Ivanildo, infectologista e gerente médico do Sabará Hospital Infantil. Na unidade, não houve aumento expressivo de casos ou internações de crianças.

Embora muitas famílias ainda aguardem a vacinação das crianças para mandá-las de volta à escola, os especialistas dizem que não deve haver correlação entre a volta às aulas e a imunização das crianças. No Estado do Rio, o governo atribui à Delta a decisão de suspender as aulas presenciais da rede estadual em 36 municípios.

“Temos de vacinar os pais, avós, professores. Os casos de surtos acometem muito mais os adultos”, diz Ivanildo. Medidas de segurança, como uso adequado de máscaras para crianças acima de 2 anos e principalmente a ventilação das salas de aula, reduzem os riscos nas escolas e ajudam a proteger as crianças.

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A variante Delta está mandando mais crianças para o hospital. Eles também estão doentes?

Não está claro se a variante Delta causa quadros mais graves de covid-19 em crianças, mas a taxa de infecção da doença está causando aumento de casos pediátricos

Emily Anthes, The New York Times

11 de agosto de 2021 | 15h00

Pilar Villarraga passou grande parte do verão fazendo a contagem regressiva dos dias que faltavam para o aniversário de sua filha Sophia. Sophia completaria 12 anos no começo de agosto - e estaria qualificada oficialmente para tomar a vacina contra covid-19. “Não queria que ela voltasse para a escola sem estar vacinada”, afirmou Villarraga, em vive em Doral, Flórida.

E então, perto do fim de julho, a apenas duas semanas de seu marcante aniversário, Sophia infectou-se com o coronavírus. No início, teve apenas febre, mas em 25 de julho, após quatro dias tranquilos de convalescência em casa, as costelas começaram a doer. No dia seguinte, Villarraga levou a filha ao pronto-socorro, onde raios-x do tórax revelaram que Sophia tinha desenvolvido pneumonia. Pouco depois, ela começou a tossir sangue.

Sophia foi prontamente internada no Hospital Pediátrico Nicklaus, em Miami. Seus parentes e amigos ficaram em choque. “Não achei que crianças ficavam tão grave”, afirmou Villarraga.

Sophia foi uma das 130 crianças hospitalizadas com covid-19 nos EUA naquele dia, de acordo com os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Esse número está aumentando desde desde o início de julho. De 31 de julho a 6 de agosto, 216 crianças com covid foram internadas diariamente, em média - praticamente o mesmo número do início de janeiro, no pico da pandemia, quando 217 crianças infectadas pelo coronavírus eram hospitalizadas todos os dias no país.

Hospitais localizados em epicentros de covid têm testemunhado o maior aumento. Em um único dia, na semana passada, o Hospital Pediátrico do Arkansas, em Little Rock, internou 19 crianças com covid; o Johns Hopkins All Children’s Hospital, em St. Petersburg, Flórida, internou 15; e o Children’s Mercy, em Kansas City, Missouri, internou 12. Todas as unidades internaram várias crianças na UTI.

Esses números levantaram preocupações de que algo que já foi considerado um lado bom da covid - de que a doença poupava, em grande parte, as crianças - pode estar mudando.  Alguns médicos nas linhas de frente afirmam estar vendo mais crianças adoecendo com mais gravidade do que em qualquer outro momento da pandemia e desconfiam que a culpa pode ser da altamente contagiosa variedade Delta.

A maioria das crianças com covid-19 desenvolve sintomas leves, e ainda não existe evidência suficiente para concluir que a variante Delta cause doença mais grave em crianças do que as outras cepas do vírus, afirmaram cientistas.

O que está claro é que a confluência de fatores - incluindo a taxa de contágio da variante Delta e o fato de que pessoas com menos de 12 anos não são qualificáveis para se vacinar - está mandando mais crianças para o hospital, especialmente em regiões do país em que a pandemia está aumentando.

“Se há mais casos num determinado momento, é claro que crianças sofrerão as consequências”, afirmou Malley.

Aumento de casos

Muitos hospitais pediátricos tinham expectativa de um verão tranquilo. Vários vírus que infectam habitualmente as crianças são menos comuns durante os meses mais quentes, e taxas nacionais relativas a covid caíam ao longo da primavera.

No mês passado, porém, com a disseminação da variante Delta, isso começou a mudar.

“O número de testes positivos para covid começou a aumentar no início de julho”, afirmou Marcy Doderer, presidente e diretora executiva do Hospital Pediátrico do Arkansas. “E foi aí que começamos a ver realmente as crianças adoecerem.”

As vacinas são efetivas contra a variante Delta - e fornecem proteção poderosa contra casos graves de covid e mortes ocasionadas pela doença - mas crianças com menos de 12 anos não se qualificam para tomá-las. Então, à medida que cada vez mais adultos se vacinam, as crianças acabam representando uma fatia crescente dos casos de covid; entre 22 e 29 de julho, 19% dos novos casos de covid registrados eram de crianças doentes, de acordo com a Academia Americana de Pediatria (AAP).

“Elas não estão vacinadas”, afirmou Yvonne Maldonado, pediatra especializada em doenças infecciosas do Comitê para Doenças Infecciosas da AAP. “E é nesse recorte que estamos vendo todas as novas infecções.”

Entre 22 e 29 de julho, foram registrados aproximadamente 72 mil novos casos pediátricos de covid, quase duas vezes o número da semana anterior, de acordo com a associação. No Johns Hopkins All Children’s Hospital, 181 crianças testaram positivo para o coronavírus em julho, contra somente 12 em junho.

A maioria das crianças tem sintomas relativamente leves, como nariz escorrendo, congestões, tosses ou febres, afirmou Wassam Rahman, diretor médico do centro de emergência pediátrica do All Children’s. “A maioria das crianças não fica muito grave”, afirmou ele. “A maioria é mandada para casa para ser submetida a tratamento preventivo. Mas, como você deve imaginar, as famílias estão apavoradas.”

Uma pequena parte das crianças desenvolve casos graves de covid e aparece no hospital com pneumonia ou outros problemas respiratórios.

Algumas crianças hospitalizadas apresentam outras condições crônicas, como diabetes ou asma, o que pode torná-las mais vulneráveis à covid, mas médicos afirmaram que também encontram pacientes graves sem nenhum fator de risco óbvio.

Sophia, que estava nas equipes de corrida e atletismo da escola, era saudável e ativa antes de pegar covid, afirmou sua mãe. Os pais ficaram impressionados com a velocidade com que o estado dela se deteriorou.

“De um minuto para o outro, ela ficou muito mal”, afirmou Villarraga. “Pensei, 'Quer saber, pode ser que você perca sua filha’.”

Depois que Sophia foi internada, os médicos passaram a tratá-la com o antiviral remdesivir, antibióticos, esteróides e um anticoagulante.

“A partir daí, foi dia a dia”, afirmou Villaraga. “Devagarzinho ela foi melhorando.”

Sophia, como a maioria das crianças que pegam covid-19, deverá se recuperar plenamente, afirmou a mãe. (Uma pequena parte das crianças pode experimentar sintomas persistentes a longo prazo, conhecidos como covid longa). Ela teve alta em 31 de julho e celebrou o aniversário alguns dias depois - em casa, com um bolo de sorvete.

Diferenças da Delta

Villaraga não foi informada se foi a variante Delta que infectou Sophia; mais de 80% dos novos casos de covid nos EUA, porém, são provocados por essa cepa, segundo o CDC; e médicos afirmaram ser evidente que a delta está por trás do aumento das infecções entre crianças.

O que permanece desconhecido é se as crianças infectadas com a variante Delta estão realmente ficando mais graves do que se tivessem pegado uma cepa diferente - ou se a Delta, que é aproximadamente duas vezes mais transmissível que o vírus original, é simplesmente tão infecciosa que muito mais crianças estão adoecendo.

Há alguma evidência surgindo - principalmente em dados relativos a adultos - dando conta de que a variante Delta é capaz de provocar casos mais graves de covid. Estudos realizados no Canadá, na Escócia e em Cingapura, por exemplo, sugeriram, de modo variado, que a Delta pode causar mais hospitalizações, internações em UTI ou mortes.

Mas a pesquisa é preliminar, afirmam especialistas, e ainda não há dados de boa qualidade suficientes a respeito da gravidade dos casos de covid causada pela variedade Delta entre crianças.

“Não há evidência concreta de que a doença seja mais grave”, afirmou Jim Versalovic, diretor de patologia e diretor interino de pediatria do Hospital Pediátrico do Texas, em Houston, onde cerca de 10% das crianças testam positivo, atualmente, para o vírus, contra menos de 3% em junho. “Certamente estamos vendo casos graves, mas vimos casos graves ao longo de toda a pandemia.”

Apesar de nem todos os Estados divulgarem números de hospitalizações pediátricas, a informação disponível sugere que a taxa ficou essencialmente constante por meses. Nacionalmente, cerca de 1% das crianças infectadas com o coronavírus é hospitalizada, e 0,01% morre, de acordo com dados da AAP. Índices de hospitalizações e mortes estão em declínio desde o último verão.

Ainda é possível, claro, que a variante Delta possa vir a causar mais casos graves de covid entre crianças. Taxas de hospitalização, um indicador defasado, poderiam aumentar nas próximas semanas e meses. E a rara, mas grave, síndrome inflamatória que algumas crianças desenvolvem com a covid-19 pode demorar semanas para aparecer. /Tradução de Augusto Calil

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