Eduardo Munoz/Reuters
Eduardo Munoz/Reuters

Varíola dos macacos: OMS acerta ao pedir que gays reduzam o número de parceiros sexuais?

Parte dos especialistas avalia que a orientação foi correta, uma vez que homens que fazem sexo com homens representam a maioria dos casos; outros temem leituras equivocadas

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2022 | 10h00

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou na terça-feira, 27, que "homens que fazem sexo com homens" diminuam o número de parceiros, de relações sexuais e de exposição ao vírus. Parte dos especialistas avalia que a orientação foi correta, uma vez que esse grupo representa a maioria dos casos - 98% deles, conforme dados da OMS -, além de servir como pontapé para que recomendações mais específicas sejam dadas. Outros, porém, temem leituras equivocadas do alerta.

"Esse é um surto que pode ser parado se os países e regiões se informarem, levarem o risco a sério e derem os passos necessários para impedir a transmissão e proteger os grupos vulneráveis", disse Tedros Adhanom, diretor da OMS. "A melhor forma de fazer isso é diminuir o risco de exposições. Para homens que fazem sexo com homens, isso inclui, no momento, diminuir o número de parceiros sexuais, reconsiderar o sexo com novos parceiros e trocar detalhes de contato com os parceiros para possibilitar o acompanhamento, se necessário."

Adhanom alertou, porém, que qualquer pessoa exposta pode contrair a varíola dos macacos. "Por isso, a OMS recomenda aos países que também cuidem de outros grupos vulneráveis, como crianças, gestantes e imunodeprimidos",

A infectologista Raquel Stucchi, da Sociedade Brasileira de Infectologia, pondera que a recomendação feita pela OMS foi um “acerto”, pois mais de “90% dos casos confirmados acontecem na população de homens que fazem sexo com homens, através do contato íntimo, de pele com pele”. “Não falar sobre isso, com medo de estigmatizar, é ser leviano. Compartilhar ou não uma orientação adequada pode mudar o curso deste surto, no sentido de bloquear a transmissão.”

Raquel, inclusive, avalia que a orientação chegou tardiamente. Fábio Araújo, infectologista que atende no Instituto Emílio Ribas e no Centro de Referência e Treinamento para DST/Aids de Santa Cruz, concorda. “Essa fala já era necessária há dois, três meses atrás”, avalia. “Chegou atrasada, mas antes tarde do que nunca.”

A infectologista Rosana Richtmann, da SBI, também classifica a recomendação como “necessária”, com base em sua experiência de consultório. “Até uma semana atrás, os meus pacientes, homens que fazem sexo com homens, não estavam a par do que estava acontecendo, porque ninguém estava falando claramente”, conta. “Neste momento, que a gente infelizmente ainda não tem vacina disponível no nosso País, não tem um tratamento disponível no País, temos sim de falar sobre a prevenção em termos de contato.”

Rosana atenta que o problema não está necessariamente na relação sexual, mas sim na atividade sexual. “Durante a atividade sexual, você vai ter necessariamente o contato pele e a pele, mais íntimo e mais prolongado, que é exatamente a forma de transmissão desse vírus, pelo menos a mais importante”, explica.  

Flávio Guimarães da Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV) e professor do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que a orientação tem “cabimento”, mas que “tomada fora de contexto”, pode “causar confusão”. Ele frisa que é preciso compreender que essa doença não é “exclusiva” de homens que fazem sexo com homens.

“Não é uma questão fisiológica, é comportamental”, explica. “É natural que, quando ela começa dentro de um grupo que se interrelaciona, afete mais esse grupo, mas depois se dissemina.”

Quanto a isso, Marcelo Otsuka, infectologista e vice-presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), cita os três casos confirmados em crianças na capital paulista. “Ainda não sabemos como foi a forma de transmissão”, pondera.

Otsuka teme que a mensagem da OMS leve a conclusões equivocadas. Principalmente, ao relacionar a transmissão unicamente a relações sexuais. “Jamais poderemos esquecer que existem outras formas de transmissão”, fala.

O sanitarista Gonzalo Vecina, porém, enquanto especialista em saúde pública, pondera que ser “muito difícil” fazer uma “comunicação mundial completa”. Ele destaca que o comunicado da OMS foi um “disparador”. “Nós, do setor de saúde, temos que fazer a complementação", diz ele, que presidiu a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e foi secretário municipal de Saúde de São Paulo. 

Vacinação

O diretor-geral da OMS também reforçou que a OMS continua a não recomendar a vacinação em massa contra a varíola dos macacos. As poucas doses disponíveis, disse, devem ser direcionadas a quem teve contato com pacientes da doença ou com grande risco de exposição, como profissionais da saúde, funcionários laboratoriais e pessoas com múltiplos parceiros sexuais.

Nos últimos dias, a vacina MVA-BN, desenvolvida para tratar a varíola humana (smallpox), teve seu uso aprovado no Canadá, na União Europeia e nos Estados Unidos para ser usada contra a varíola dos macacos. Dois outros imunizantes, LC 16 e ACAM 2000, também estão sendo considerados para o uso. "Entretanto, ainda nos falta o conhecimento científico sobre a eficácia contra a varíola dos macacos ou quantas doses seriam necessárias", frisou Adhanom.

Nesse ponto, o infectologista Fábio Araújo discorda. “Foi essa mesma organização, que 50 anos atrás, baniu da Terra uma doença unicamente com vacinação com a vacina da varíola smallpox”, fala. “Agora vivemos uma pandemia de uma doença da mesma exata família. Como é que essa organização, agora, tem dúvidas sobre a eficácia da vacina na contenção dessa doença?”

Por outro lado, Flávio Guimarães da Fonseca, da UFMG, não acha que seja hora de vacinar a população em massa, principalmente por vivermos “um momento sensível”, onde ainda há grupos que resistem à vacinação contra a covid-19. “Qualquer vacina traz efeitos adversos. Uma vacina tem de ser calculada com base no risco-benefício. Hoje, o benefício é muito pequeno, porque o número baixo.”

Nesse sentido, teme, inclusive, um impacto negativo caso se adote uma medida do tipo neste momento. “Pode criar um sentimento antivacina ainda mais forte”, pondera. “Hoje, a principal forma de controle é a identificação dos casos positivos e o isolamento desses casos.”/COLABOROU JOÃO KER

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