EFE/EPA/YUAN ZHENG
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Velhos hábitos de Pequim mantiveram o mundo desinformado enquanto o surto crescia

Reconstrução das sete semanas entre o aparecimento do 1º sintoma, em dezembro, e a decisão do governo de isolar a cidade epicentro do surto, aponta para decisões que retardaram ofensiva de saúde pública planejada

Chris Buckley e Steven Lee Myers, The New York Times

03 de fevereiro de 2020 | 12h25

WUHAN, China - Uma doença misteriosa acometeu sete pacientes em um hospital, e um médico tentou alertar seus colegas. “Quarentena na unidade de emergência”, o doutor Li Wenling escreveu num grupo de bate-papo online em 30 de dezembro, se referindo aos pacientes.

“Assustador”, respondeu um membro, antes de perguntar sobre a epidemia que teve início na China em 2002 e matou 800 pessoas. “A Sars está de volta?”, indagou ele.

No meio da noite, autoridades do departamento de saúde de Wuhan convocaram Li para saber por que ele havia compartilhado a informação. Três dias depois, o médico foi obrigado a assinar uma declaração de que o que fez constituiu um “comportamento ilegal”.

A doença não era a Sars, mas algo similar: um coronavírus que vem se disseminando de modo implacável para fora de Wuhan, alcançando o país inteiro e extrapolando para o globo, tendo provocado a morte, até agora, de 304 pessoas e contagiado mais de 14.380 no mundo todo.

O tratamento inicial da epidemia pelo governo permitiu ao vírus ganhar força de modo tenaz. Em momentos críticos as autoridades preferem o segredo e a ordem antes de confrontar abertamente uma crise crescente para não alarmar a população e evitar o constrangimento público.

Uma reconstrução das sete semanas cruciais entre o aparecimento do primeiro sintoma, no início de dezembro, e a decisão do governo de isolar a cidade, baseada em dezenas de entrevistas com moradores, médicos, autoridades de Wuhan, comunicados oficiais do governo e notícias na mídia chinesa, aponta para decisões que retardaram uma ofensiva de saúde pública planejada.

Naquelas semanas, as autoridades silenciaram médicos e outras pessoas. E descartaram os riscos para a população, deixando os 11 milhões de moradores da cidade sem saber que deviam se proteger. Fecharam um mercado de venda de animais onde o vírus teria se manifestação, mas informaram a população que o fechamento era por motivo de uma reforma.

A relutância em tornar pública a doença teve motivações políticas, uma vez que as autoridades locais se preparavam para seu congresso anual em janeiro. Mesmo com os casos da doença aumentando, elas declararam repetidas vezes que provavelmente não haveria mais infecções.

Mas ao não alertar o público e os profissionais de saúde, afirmam especialistas, o governo chinês perdeu uma das suas melhores chances de impedir que a doença se transformasse numa epidemia.

“Foi um problema de inação”, disse Yanzhong Huang, membro do Council on Foreign Relations, especialista em China. “Nenhuma medida foi tomada em Wuhan pelo departamento de saúde local para alertar as pessoas para a ameaça”.

O primeiro caso, cujos detalhes são limitados e a data específica desconhecida, irrompeu no início de dezembro. Na época em que as autoridades decidiram tomar medidas, em 20 de janeiro, a doença já havia se tornado uma enorme ameaça.

Agora é uma emergência de saúde global. Provocou restrições de viagens em todo o mundo, abalou os mercados financeiros e criou talvez o maior desafio até hoje para o líder chinês Xi Jinping. A crise deve mudar completamente a agenda de Xi por meses ou até mais, prejudicando sua ideia de um sistema político que propicia segurança e crescimento em troca da submissão a um autoritarismo opressor e ditatorial.

No último dia de 2019, depois de a mensagem do Dr. Li ser compartilhada fora do grupo, as autoridades se concentraram no controle da narrativa. A polícia anunciou que estava investigando oito pessoas por espalharem rumores sobre um surto.

Naquele mesmo dia, a comissão de saúde de Wuhan informou que 27 pessoas estavam com pneumonia decorrente de causa desconhecida. Mas que não havia necessidade de alarme.

“A doença é "prevenível" e controlável”

Li, que é oftalmologista, voltou ao trabalho após a reprimenda. Em 10 de janeiro tratou uma mulher com glaucoma, ele não sabia que ela já havia sido infectada com o coronavírus, provavelmente pela filha. Ambas adoeceram. Ele também.

Hu Xiaohu, que vendia porco processado no Huanan Seaffod Wholesale Market, percebeu no fim de dezembro que alguma coisa estava errada. Os empregados chegavam ao trabalho com uma febre persistente. Ninguém sabia a razão, mas vários foram mantidos em quarentena no hospital.

O mercado ocupa um edifício de uma parte nova da cidade, muito próximo de prédios de apartamentos e lojas e atende à crescente classe média da cidade. É um labirinto de estandes que vende carnes, aves e peixe, e produtos mais exóticos, incluindo répteis vivos e animais selvagens que muita gente na China aprecia. De acordo com um informe do centro de controle de doenças, os cuidados sanitários ali eram atrozes, o local não tinha ventilação e o lixo se acumulava no chão molhado.

Nos hospitais, médicos e enfermeiros ficaram perplexos ao ver todos os pacientes com sintomas de uma pneumonia viral que não respondia aos tratamentos usuais. E observaram que muitos tinham algo em comum: trabalhavam no mercado de Huanan.

Em 1º de janeiro, policiais apareceram no mercado junto com funcionários da saúde e o fecharam. A agência de notícias Xinhua News informou que o mercado passaria por reformas, mas, naquela manhã, funcionários usando roupas de proteção entraram no local para lavar e desinfetar os estandes.

Esta foi, para a população, a primeira resposta visível do governo para conter a doença. Em 31 dezembro, um dia antes, as autoridades nacionais alertaram a OMS - Organização Mundial da Saúde - em Pequim, sobre um surto.

As autoridades locais emitiram comunicados em tom otimista, sugerindo que o vírus havia sido freado na sua fonte. O número de doentes era limitado e não havia evidências de que o vírus se propagava entre humanos.

“Projetar otimismo e confiança quando você não tem os dados é uma estratégia muito perigosa”, disse Alexandra Phlena, instrutora de pesquisa no departamento de microbiologia e imunologia na universidade Georgetown. “Isto corrói a legitimidade do governo na sua mensagem e a saúde pública depende da confiança pública”, acrescentou ela.

Nove dias depois de o mercado ser fechado, um homem que fazia compras regularmente ali foi a primeira vítima fatal da doença, segundo informação da Wuhan Health Commission. O homem de 61 anos, identificado pelo sobrenome Zen, já tinha uma doença crônica de fígado e um tumor no abdome e chegou ao hospital com febre altíssima e dificuldades para respirar.

A morte dele foi revelada dois dias depois. Mas não foi mencionado um detalhe crucial para se compreender o curso da epidemia. A mulher de Zen apresentou os mesmos sintomas cinco dias depois. E ela nunca frequentou o mercado.

A corrida para identificar um vírus mortal

A pouco mais de 30 quilômetros do mercado, cientistas do Instituto de Virulogia de Wuhan estudavam amostras de pacientes em observação nos hospitais da cidade. Zheng Li-Shi, médica do instituto, fez parte da equipe que monitorou as origens do vírus da SARS, que surgiu na província de Guangdong em 2002.

Enquanto a população permanecia sem nenhuma informação sobre o vírus, ela e seus colegas rapidamente concluíram que o novo surto tinha relação com a SARS. A composição genética sugeria um hospedeiro inicial comum: morcegos. A epidemia de SARS irrompeu quando um coronavírus saltou de morcegos para as civetas de palmeira asiáticas, um animal semelhante a um gato que é legalmente criado e consumido. A probabilidade era de que este novo coronavírus estaria seguindo um caminho similar - possivelmente de algum lugar ou do mercado de Huanan ou outro mercado semelhante.

Na mesma época, Li e outros profissionais médicos em Wuhan começaram a enviar alertas para colegas e outras pessoas, já que governo não emitia avisos. Lu Xiaohong, diretora da unidade de gastroenterologia do City Hospital Nº 5, disse ao China Youth Daily que em 25 de dezembro ouvira falar que a doença havia se propagado para funcionários da saúde - três semanas antes de as autoridades admitirem o fato.

Na primeira semana de janeiro a ala de emergência do hospital estava repleta: os casos incluíam membros da mesma família, deixando claro que a doença estava se propagando por contato humano, algo que o governo havia dito não ser provável.

Ninguém imaginou, disse a médica, que a situação ficaria tão grave como ficou, antes que fosse tarde demais para controlá-la.

“Percebi que subestimamos o inimigo”, disse ela.

À medida que o vírus se propagava, no início de janeiro o prefeito de Wuhan, Zhao Xianwang, promovia os futurísticos planos de saúde para a cidade.

Era uma temporada política, com as autoridades prestes a se reunirem para os encontros anuais dos Congressos do Povo - legislativos controlados pelo Partido Comunista que discutem e aplaudem as políticas adotadas. Não era ocasião para más notícias.

Quando ele ofereceu seu relatório anual no Congresso da cidade, em sete de janeiro, prometeu criar escolas de medicina de primeira classe na cidade, uma Exposição Mundial de Saúde e um parque industrial futurístico para empresas do setor médico. Em nenhum momento ele, ou algum outro líder provincial, fizeram menção ao surto viral.

“A ênfase na política é sempre prioridade número um”, disse o governador de Hubei, Wang Xiaodong, às autoridades no dia 17 de janeiro, citando os preceitos de Xi de obediência hierárquica. “As questões políticas em qualquer tempo são as mais fundamentais”.

Logo depois Wuhan ofereceu um banquete anual para 40.000 famílias de um distrito eleitoral, que os críticos citaram como prova de que os líderes locais trataram muito levianamente o vírus.

Os esforços do governo para minimizar os comunicados públicos convenceram mais do que apenas cidadãos não especializados no assunto.

“Se não ocorrer nenhum caso nos próximos dias, o surto acabou”, disse Guan Yi, respeitado professor de doenças contagiosas na universidade de Hong Kong no dia 15 de janeiro.

Os comunicados da Organização Mundial da Saúde nesse período repetiram as palavras tranquilizadoras das autoridades chinesas.

Mas a epidemia já tinha se propagado. A Tailândia confirmou o primeiro caso fora da China em 13 de janeiro. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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