Heloísa Ballarini/Secom/Prefeitura de São Paulo
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Daniel Martins de Barros
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Viagens no tempo

O presente não durará o suficiente. E começa a síndrome do ano acabou

Daniel Martins de Barros, colunista

04 de novembro de 2019 | 03h00

Bem-vindo ao mês do “Agora, só ano que vem”. Assim que começa novembro entra no horizonte a chegada de dezembro, que ativa em nosso imaginário as festas, feriados e virada do ano. E quando o futuro parece assim tão próximo fica ainda mais fácil alocar nele as tarefas. Tudo o que a gente não quer fazer fica para o ano que vem. Tudo o que quer fazer, mas não tem ânimo, também. Assim como tudo o que queremos, temos ânimo, mas estamos com dificuldades. Quer dizer, praticamente tudo.

O ser humano tem uma capacidade muito ruim de viajar mentalmente no tempo. Tanto para frente como para trás, nossa imaginação nos prega tremendas peças; ela pinta um quadro, nos apresenta como real, nos faz acreditar nele, mas toma tantas liberdades que o retrato raramente corresponde à realidade.

Para ver o fenômeno em ação basta puxar papo com qualquer pessoa sobre diferenças de geração. Os mais velhos dirão que os adultos não sabem criar os filhos; os adultos dirão que os jovens não são responsáveis; jovens afirmarão que as crianças atualmente não toleram frustrações. E todos afirmarão “Eu não era assim”. Como se eles houvessem sido crianças elogiadas por seu autocontrole emocional, jovens louvados por sua maturidade, adultos reconhecidos por seus talentos paternos.

Não eram. Eram impulsivos, imaturos e inexperientes como todos são nessas fases. Mas, como todos nós, são vítimas do viés de consistência: a enganosa sensação que nossas atitudes são consistentes ao longo da vida. Trata-se de um viés de memória, já que parece impossível recordar exatamente como nos sentíamos ou no que acreditávamos sem que tal recordação seja contaminada por nossas crenças e sentimentos presentes. Se hoje o sujeito é sério e cumpridor dos deveres, no quadro mental que pinta em sua mente sobre o passado ele aparece muito mais sério do que era. Podemos dizer que essa viagem no tempo para o passado causa algumas distorções. E outras ocorrem nas viagens ao futuro.

Paradoxalmente, embora mantenhamos essa ilusória continuidade emocional entre passado e presente, quando o assunto é o futuro parece haver uma cisão entre quem somos e quem seremos. E por isso nós causamos hoje problemas para nós mesmos amanhã. Se me pedem para fazer algo muito desagradável, marcar uma data distante alivia o desconforto, como se estivesse empurrando o problema para outra pessoa. Passa a ser um problema do eu do futuro, não meu. Quando pedem um prazo para cumprir uma tarefa, estender o período é outra forma de se enganar. Independentemente de prazos nós acabamos fazendo tudo às vésperas. E mais: e se hoje a agenda do ano que vem está tranquila, quando o futuro virar presente ela estará tão atribulada como está agora. Até a dor parece mais fraca no futuro. 

Se tivéssemos que escolher entre levar um beliscão amanhã ou um murro daqui a dois anos, muitos preferiríamos a segunda opção. Afinal, a vítima seria outro eu. Viagens no tempo, mesmo imaginárias, confundem nosso cérebro.

Quando começa novembro, então, nos deparamos com as árvores de Natal pela cidade, os panetones nas lojas e nossa imaginação já parece ver a porteira da mudança de ano logo ali à frente. Sendo carregado de simbolismo, o réveillon leva a uma quebra ainda mais intensa entre presente e futuro. Ano que vem parece ser um outro planeta. Percepção que é um verdadeiro catalizador para a procrastinação.

A procrastinação é uma forma de fugirmos de emoções negativas. No primeiro parágrafo, eu citava as coisas que empurramos com a barriga: o que não queremos, não temos ânimo ou não sabemos fazer. São coisas que nos cobram um alto preço emocional por nos confrontarem com raiva, frustração, limites. Elas requerem energia. Então vamos adiando. Escondendo no escaninho do futuro, evitando encará-las.

O problema é que dezembro chega, e assim, sem mais, de repente tudo o que ano passado deixamos para este ano parece urgente e inadiável. O futuro chegou e já está acabando. O presente não durará o suficiente. E começa a síndrome do ano acabou. Mas esse assunto vou deixar mais para frente. Para outra coluna. Que um dia escreverei.  

* DANIEL MARTINS DE BARROS É PSIQUIATRA

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