Daniel Teixeira/Estadão
Mulher teve linfoma cinco anos após implante mamário  Daniel Teixeira/Estadão

‘Virei paciente oncológica’, diz mulher que teve linfoma por causa de prótese

No Brasil, não há dados consolidados sobre câncer decorrente de silicone, mas especialistas calculam uma dezena de casos

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - Em meio a um aumento de relatos de linfoma associado a próteses de mama, médicos brasileiros criaram uma força-tarefa para identificar os registros e conhecer o tamanho do problema no País. Na quarta-feira, 24, a Allergan, uma das marcas mais difundidas em todo o mundo, anunciou recall após recomendação da Food and Drug Administration (FDA), agência de controle sanitário dos Estados Unidos. Especialistas ouvidos pelo Estado calculam que o País teve pelo menos uma dezena de casos de linfoma anaplásico de células grandes (ALCL) em pacientes com próteses. 

Leia abaixo o depoimento de uma mulher de São Paulo, de 53 anos, diagnosticada com ALCL: 

"Coloquei uma prótese na mama (há 7 anos) e não tive problema na época. Há dois, notei que minha mama esquerda estava um pouco maior. Apareceram feridas na perna direita e no meu braço esquerdo e um cansaço extremo. Minha mama ficou bem grande. Busquei um cirurgião para tirar essa prótese e colocar uma menor. Meu marido é médico e pediu para entrar na cirurgia. Ele falou para mandar o líquido acumulado na mama para análise. Tinha 600 ml de líquido. No retorno com o cirurgião, ele falou: 'seu caso é raro, você tem um linfoma'.

O chão se abriu. Virei paciente oncológica em 5 segundos, de um linfoma não conhecido. Tive de tirar as próteses novas e a cápsula que fica em volta. Não fiz nem químio nem radioterapia. Hoje faço acompanhamento a cada seis meses. Se fosse avisada do risco, não teria colocado. Minha meta é ajudar as mulheres, nem que seja apenas uma, a não passar por isso. "

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Força-tarefa busca casos de linfoma ligado a próteses no Brasil

Após recall mundial de implantes, ideia agora é identificar os registros e conhecer o tamanho do problema entre brasileiras

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2019 | 03h00
Atualizado 26 de julho de 2019 | 16h25

Em meio a um aumento de relatos de linfoma associado a próteses de mama, médicos brasileiros criaram uma força-tarefa para identificar os registros e conhecer o tamanho do problema no País. Na quarta-feira, 24, a Allergan, uma das marcas mais difundidas em todo o mundo, anunciou recall após recomendação da Food and Drug Administration (FDA), agência de controle sanitário dos Estados Unidos

Especialistas ouvidos pelo Estado calculam que o País teve pelo menos uma dezena de casos de linfoma anaplásico de células grandes (ALCL) em pacientes com próteses. Como os registros são informais, nem todos têm evidências científicas de que foram os implantes que desencadearam a doença.

 Esse número, porém, pode ser maior já, que o Brasil é um dos que mais colocam próteses no mundo. “Temos poucos casos catalogados e essa é uma das razões para criar uma força-tarefa. Queremos respostas adequadas, o que não temos ainda”, afirma Niveo Steffen, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica

Os Estados Unidos calculam que a incidência desse linfoma esteja entre um caso a cada 3,8 mil e uma ocorrência a cada 30 mil. Segundo o FDA, foram 573 relatos de linfoma ligados a próteses e há registro de 33 mortes. Não está claro ainda o motivo. 

“Uma das hipóteses é de que a prótese cause inflamação do tecido mamário e essa inflamação contínua desencadeia o linfoma”, diz Vanderson Rocha, professor de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular da Universidade de São Paulo (USP). “O organismo reage mandando células e essas se transformam em neoplásicas.”

Nos pacientes, a doença aparece anos após a cirurgia plástica, na forma de inchaço na mama, como foi o caso de uma mulher de São Paulo de 53 anos, diagnosticada com linfoma em 2017. Em 2012, ela havia colocado um implante da Allergan nas mamas. Em outro caso no Brasil, a paciente, de 44 anos, teve de retirar a prótese, mas optou por não passar por quimioterapia. Meses depois, foi identificada remissão da doença. 

Segundo especialistas, é possível que certos tipos de próteses causem mais problemas. “Texturizações mais agressivas têm risco maior”, afirma o cirurgião plástico Bernardo Nogueira Batista, do Hospital Sírio-Libanês. As ranhuras no produto podem estar associadas a risco maior de inflamação. Próteses texturizadas, que dão um aspecto mais natural ao seio, são as preferidas das brasileiras.

A França já havia proibido próteses da Allergan e de outras marcas por risco de ALCL. No Brasil, a Anvisa chegou a suspender a marca no ano passado, mas recuou neste ano. Em nota, a Allergan informou que aconselha pacientes a falarem com seus médicos “caso tenham alguma preocupação”. Também informou que não há recomendação para a remoção dos implantes. 

Anvisa suspende implantes de silicone

Após o anúncio do recall da Allergan, a Anvisa publicou no Diário Oficial da União uma medida cautelar nesta sexta-feira, 26, suspendendo a comercialização de próteses de silicone da marca no Brasil. Eram vendidos três produtos da empresa no País. 

Veja quais são os produtos suspensos: 

  • Natrelle Expansor Tissular Texturizado e Acessórios Allergan (lotes a partir de 25/7/2014);
  • Natrelle Implante Mamário Texturizado Allergan (todos os lotes);
  • Natrelle Implante Mamário Texturizado Duplo Lúmen e Acessórios Allergan (todos os lotes)

ENTENDA A SITUAÇÃO

Não são recomendadas remoções

Após associação de casos de linfoma com próteses, uma das marcas, a Allergan, anunciou recall, o que significa que os implantes deixarão de ser vendidos em todo o mundo. Segundo especialistas, o anúncio não é motivo de pânico - pacientes com próteses não devem removê-las, caso não haja sintomas. 

Tipo de linfoma é pouco conhecido

No Brasil, o linfoma anaplásico de células grandes, ligado a próteses, é pouco conhecido e considerado raro. Pelos casos relatados, sabe-se que os sintomas incluem inchaço na mama anos após o implante. Nem todo inchaço, porém, é linfoma. Apenas o médico pode fazer o diagnóstico. Profissionais podem relatar ocorrências à Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). O hematologista Vanderson Rocha, da USP, também coleta os dados, que podem ser enviados para o e-mail vanderson.rocha@hc.fm.usp.br. 

Tratamento inclui retirada da prótese

Caso seja detectado o linfoma, pode-se recomendar a retirada da prótese e da cápsula formada em volta. Nem sempre é indicada quimioterapia ou radioterapia. 

 

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