Vítimas da hanseníase querem indenização

Quando o calor do dia diminui, Vicente Pinto Leite, 71 anos, sai com sua bicicleta pelas ruas da colônia Santa Marta, a oito quilômetros do centro de Goiânia, distribuindo a correspondência para seus vizinhos. O trabalho, voluntário, não precisa ser feito diariamente e, quase sempre, é concluído em menos de meia hora. "Os portões foram abertos há anos. Mas aqui chegam poucas cartas, e muito menos ainda, visitas", diz. Na colônia, vivem pacientes que há décadas foram internados em regime de isolamento da sociedade para tratar da hanseníase, uma doença contagiosa e, até a segunda metade do século passado, sem cura. Como compensação pelo isolamento a que foram submetidos, integrantes do grupo Morhan, ONG que luta pelos direitos de doentes e ex-doentes de hanseníase, reivindicam a criação de uma lei prevendo indenização ou pensão para ex-asilados. O caminho seria mais fácil do que a alternativa, já cogitada, de entrar com ações na Justiça. Há duas semanas, o ex-paciente Cristiano Torres foi recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para propor a idéia. Tanto em Santa Marta quanto em outras colônias do País, muitos dos pacientes ficaram isolados mais tempo do que o necessário. "Sofremos um outro tipo de exílio, o sanitário. E é chegada a hora de o governo nos reparar por isso", afirma Leite. Há cerca de 3 mil pessoas, hoje, todas idosas, que viveram em colônias no País. O Brasil levou 19 anos para cumprir totalmente uma recomendação internacional que abolia a necessidade de isolamento de pacientes com hanseníase. Só em 1976 todas as colônias brasileiras estavam com portões abertos e pacientes, livres para ir aonde bem quisessem. Antes disso, só saíam com autorização especial. O contato com a vida lá fora era praticamente inexistente. Até mesmo mantimentos eram enviados por um sistema que impedia contato com pessoas sem contaminação. "Não dá para saber quantas pessoas foram internadas sem necessidade. Ou quantas morreram longe das famílias pela inércia do governo", afirma Torres. "Para as que ainda estão aí, é preciso reparar o mal. Elas ficaram presas, trabalharam como escravas e hoje estão à míngua", completa. Mesmo com portões abertos, muitos dos pacientes continuam morando nas 33 colônias existentes no País. Vivem de pensões da Previdência e benefícios que variam de Estado para Estado. A maioria não tem para onde ir. Os com seqüelas mais leves moram em casas construídas ao redor da colônia. Outros, com menos autonomia, permanecem em galpões comunitários, que carregam o nome antigo: pavilhões. Leite, por exemplo, é um dos que não querem sair. "Aqui vivi mais de 50 anos. Trabalhei, ganhava menos da metade do que pessoas sadias ganhavam. Agora luto para que eu e meus colegas tenhamos uma vida digna. Com remédio, segurança, limpeza aqui no local." Leite sabe de cor quantas pessoas moram na colônia: 78 em casas, 96 no pavilhão e no hospital. Outras 80 numa vila contígua, Margarida Procópio, e 51 na vila São João. Quando chegou à colônia, com 20 anos, havia mais de 1.500 pessoas. Condições Precárias - As condições do local, no entanto, estão longe do que seria ideal. O esgoto é precário, muitas ruas são de terra, o que dificulta a locomoção de pacientes. Muitos usam próteses ou cadeiras de rodas. A segurança é falha. Maria Cândida, mulher de Leite, conta que já houve pacientes roubados e agredidos por ladrões. Há também centros que começaram a sofrer invasão de terras, com a construção de casas de pessoas sem nenhuma relação com a doença. "Os cemitérios não têm manutenção, há casos de prostituição infantil e alcoolismo em várias colônias espalhadas pelo País", conta Arthur Souza, do Morhan. Justamente por isso, o movimento reivindicou a visita de integrantes da comissão de direitos humanos nas colônias. Colônia virou cidade no Pará - Na colônia em que Cristiano Torres vive, Prata Iguape-Açu, no Pará, uma saída de mestre foi encontrada para evitar a deterioração. ?Logo que o hospital foi desativado, tive uma idéia. Era hora de chamar a cidade para cá?, conta. Um dos prédios virou Câmara, outro, posto de saúde e outro, escola. Sua história se confunde com a da própria colônia. Filhos de pais com hanseníase, ele nasceu na instituição e foi levado para uma creche. Seis anos depois, porém, também foi contaminado e teve de retornar. ?Quando vi minha mãe, toda deformada, perguntei se não podia escolher outra, menos feia?, conta, emocionado. Na época, a colônia tinha cinema, hospital, casas e até cadeia. Torres perdeu a conta de quantas vezes foi preso. Mas a primeira, ele faz questão de lembrar: ?Recusei-me a pedir autorização da diretoria para me casar. No primeiro dia útil depois da cerimônia, fui levado para prisão.?

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