Miguel Schincariol/AFP
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Vivemos novamente períodos de desconfiança na pandemia

Temos de enfrentar a realidade e reforçar as medidas preventivas. Teremos mais respostas ao longo do tempo

Sérgio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2021 | 05h00

Estamos vivendo novamente períodos de desconfiança em relação ao enfrentamento da covid. A variante indiana chegou, com casos no Maranhão. Será mais transmissível que nossa P.1? Dúvidas. Teremos respostas, mas ao longo da pandemia. Erramos ao não fechar portos e aeroportos? É provável. Agora não adianta reclamar. Temos de enfrentar e reforçar as medidas preventivas.

Outra desconfiança: a secretária executiva do enfrentamento à covid-19 não dura uma semana e pede afastamento. Veio com ideias claras de uma real infectologista. Indicar tratamento farmacológico do que tem evidência científica e benefício clínico ao paciente. Bateu duro no tratamento precoce. Foi repelida. Não sobreviveu ao governo federal. Nosso ministro da Saúde tem feito o trabalho de difundir o uso de máscara e de propor novas diretrizes clínicas. Temos de reconhecer que tem feito um bom desempenho. O problema vem da alta cúpula que não acredita na gravidade do coronavírus e desdenha a todo momento, tomando atitudes não compatíveis.

Mais uma desconfiança: teremos terceira onda? Na verdade, não sei se saímos da primeira. Estamos com queda do número de casos e óbitos, real, em muitos Estados. E repiques de casos após datas comemorativas. Foi assim no Natal e no ano-novo, feriados e agora no Dia das Mães. Observamos locais lotados e sem cuidados em muitos pontos. Agora vamos voltar a ter incremento de casos em hospitais públicos e privados. Na esfera privada, os médicos já estão sendo informados novamente do pico e do adiamento de cirurgias eletivas e procedimentos que não tenham caráter de urgência médica.

Um zelo? Parece que sim. Estamos longe de viver o período sombrio de março/abril deste ano. Mas não podemos baixar a guarda e vacinar cada vez mais rápido, solução com evidência forte em vários países. A população tem de acreditar e não desconfiar. Não podemos ficar em busca de determinada vacina. O que estiver disponível tomar e pronto.

Ponto alto de desconfiança: turismo vacinal. Está cada vez mais em alta buscar os Estados Unidos, mesmo que a quarentena seja exigida. Mas chegar e tomar novo esquema ou na melhor das hipóteses a vacina de dose única parece algo ímpar, sobretudo para os que irão demorar muito a ter acesso. O capitalismo mostra-se neste momento imperativo, mas fazer críticas me parece arriscado. Se tivéssemos acesso amplo e irrestrito, com contingente de imunizantes adequado à população, nada disso estaria vindo à baila.

Outro ponto: vacinar com outra plataforma vacinal de quem já fez uso por aqui de esquema de vacina. Nada sabemos. Complicado afirmar que seja benéfico ou maléfico. A desconfiança tem recaído na dosagem dos anticorpos neutralizantes. Se o individuo não apresenta, fica desesperado e cria uma insegurança, tendendo a buscar o turismo vacinal. Se tem positividade, pensa que pode não fazer distanciamento social e abolir uso da máscara. Complicado no mundo real.

Sempre enfatizo: procure opinião médica em todas as situações. Testes para avaliar a resposta imune celular estarão em breve conosco e a desconfiança tenderá a diminuir. Aprendemos todos os dias com a covid-19. Vejo que nós, médicos, nos atualizamos diariamente.

Até breve. Finalizo minha participação neste mais de um ano de coluna. Desde que fui convidado, cada dia foi diferente. A confiança e a credibilidade que obtive dos leitores e dos colegas me deu ânimo a sempre estar escrevendo e trazendo impressões fiéis e embasadas por ciência. Agradeço ao corpo editorial do jornal que jamais me impediu de escrever a realidade dos fatos. Não quero dizer um adeus e sim um até breve.

*COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E MÉDICO DO INSTITUTO EMÍLIO RIBAS

 

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