Você fica mais estressado(a) em casa do que no trabalho?

Dados de uma pesquisa recente mostram que tanto homens como mulheres ficam significativamente menos estressados no trabalho do que em casa

Brigid Schulte, The Washington Post

30 Maio 2014 | 16h08

Em seu livro de 1997, The Time Bind, a socióloga americana Arlie Hochschild abalou as noções convencionais de vida familiar quando defendeu que o trabalho está se tornando mais parecido com o lar para muitos pais, um lugar de ordem e pertencimento onde eles passa voluntariamente longas horas. "Vou para o trabalho para relaxar", disse-lhe uma pessoa. O lar, disse Hochschild, está se tornando mais parecido com o trabalho, com filhos emburrados, esposas ressentidas, a interminável faina doméstica, estresse e caos.

Hochschild mexeu com muitas cabeças ao defender que o lar, que já foi o abrigo sagrado de repouso e renovação, era na verdade mais estressante do que o trabalho para as pessoas.

E agora, pesquisadores têm os dados para provar que ela estava com a razão.

Num estudo recém-divulgado no Journal of Science and Medicine, pesquisadores examinaram cuidadosamente os níveis do hormônio do estresse, cortisol, numa variedade de trabalhadores ao longo do dia. Os dados mostraram claramente que tanto homens como mulheres ficam significativamente menos estressados no trabalho do que em casa.

E as mulheres que eles estudaram disseram que ficavam mais felizes no trabalho, ao passo que os homens disseram que se sentiam mais felizes em casa.

"Encontramos uma grande diferença de gênero", disse Sarah Damaske, uma socióloga e professora de estudos sobre mulheres na Universidade Estadual da Pensilvânia e uma das autoras do relatório. "As mulheres ficaram muito mais felizes no trabalho do que em casa. E os homens ficaram apenas moderadamente mais felizes em casa do que no trabalho."

Os resultados, disse Damaske, são chocantes. A maioria das pessoas culpa o trabalho como a fonte de estresse em suas vidas.

Mas suas descobertas - os objetos do estudo se submeteram a coletas de saliva cinco vezes por dia para medir os níveis de cortisol e usaram pagers para reportar seus estados de espírito quando contatados por pesquisadores - respaldam pesquisas anteriores de que pessoas que trabalham têm uma saúde física e mental melhor do que as que não trabalham. E mães que trabalham continuamente em tempo integral na sua terceira e quarta décadas de vida reportam uma melhor saúde física e mental aos 45 anos do que mães que trabalham em tempo parcial, ficam em casa com os filhos, ou estavam desempregadas.

"No trabalho, as pessoas estão potencialmente realizando tarefas. Elas conseguem concentrar sua atenção e realizar coisas, tanto as pessoas de alta como de baixa renda. Elas não estão fazendo duas ou mais coisa simultaneamente", disse ela. "Nós tendemos a pensar que empregos são gratificantes quando são profissionais, mas a verdade é que as pessoas com rendas mais baixas têm maior redução de estresse no trabalho."

As pessoas de alta renda, disse ela, foram as únicas discrepantes. Tanto homens como mulheres tiveram níveis mais altos de cortisol no trabalho, e ficaram mais felizes em casa.

Mas por que a maioria das pessoas se sente mais estressada em casa?

"Bem, a gente simplesmente tem muito mais coisa acontecendo", disse Damaske. "Conseguir que as coisas sejam feitas é um desafio."

Malabarismo. As revelações são particularmente perturbadoras. Estresse e níveis elevados de hormônios como o cortisol têm sido associados a hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade, inflamações e câncer, para citar algumas doenças. Pesquisas anteriores indicaram que o cortisol pode agir como um contágio e se espalha como um vírus por toda uma família. Ele pode até alterar o DNA em crianças.

Mas antes de pensar que os pais, e as mães em particular, são workaholics sem coração que preferem horas intermináveis no escritório ou no emprego às alegrias da casa e do lar, considerem esta questão chave: tanto homens como mulheres ficaram muito menos estressados no fim de semana - quando estavam em casa - do que nos dias úteis.

O que isso nos diz? Não é tanto que as pessoas preferem estar no trabalho do que em casa ou com os filhos. É que tentar fazer as duas coisas no mesmo dia é estressante. É o malabarismo que está nos matando.

"Não acho que a casa seja estressante. Quando você está em casa no sábado, não está trabalhando. Vai ao parque, vai pegar a roupa lavada. O dia transcorre num ritmo mais lento", disse Damaske. "Acho que é a combinação dos dois, trabalho e casa, que faz a casa parecer tão estressante para pessoas durante os chamados dias úteis."

Isto é algo que eu posso atestar. Certa vez, quando meu marido Tom, um repórter militar, ficou no exterior por um longo período cobrindo a guerra no Afeganistão, ele me enviou uma foto dele mesmo no meio do nada. Estava sentado do lado de fora de uma caixa de metal, seu abrigo, usando um colete à prova de bala, provavelmente não tomava banho havia muitos dias, e estava radiante. Minha reação me chocou: fiquei com inveja. Tudo que ele tinha para fazer quando acordava, eu pensei na época, era ir para o trabalho. E, no meu mundo, tentando conciliar trabalho, filhos, casa e eletrodomésticos quebrados, eu me sentia dilacerada.

Tom disse que ouve o mesmo de soldados e fuzileiros navais que entrevista o tempo todo: que de certo modo é mais fácil estar fora de prontidão para o combate fazendo uma coisa, por mais perigosa que seja, do que no turbilhão de trabalho, consultas médicas, contas a pagar e bebês imprevisíveis.

E embora Damaske tenha dito que as descobertas de seu estudo eram contra-intuitivas, de certa maneira, elas são totalmente previsíveis. Pensem nisto. Apesar dos papéis de gêneros terem mudado bastante para as mulheres irem trabalhar fora, eles não mudaram muito no que toca aos homens fazerem mais em casa. De modo que as mulheres não só arcam com o dobro dos afazeres domésticos e dos cuidados com os filhos, além do encargo mental de planejar, organizar e manter o controle de tudo. De modo que o lar é, de fato, apenas mais um lugar de trabalho exigente, E, sem uma boa ajuda, um que pode deixá-la se sentir fortemente ressentida e enjeitada após um longo dia de trabalho.

"As mulheres são mais felizes no trabalho porque no trabalho elas estão realizando apenas um papel", escreveu-me num e-mail Nannette Fondas, autora de The Custom Fit Workplace ("O lugar de trabalho sob medida", em tradução livre) que estuda a economia e sociologia do trabalho. "Em casa, as mulheres fazem malabarismo com diversos papéis como cuidar da casa, ser mãe, e o trabalho emocional da família. Estes têm sido chamados de segundo e terceiro turno por sociólogos. Os homens certamente começaram a assumir mais do segundo turno (cuidar dos filhos), mas ainda fazem muito menos do que as mulheres. De modo que faz sentido as mulheres ficarem menos estressadas no trabalho. Muitos homens podem ficar mais felizes e menos estressados em casa porque, em relação a sua carga de responsabilidades no trabalho, a carga doméstica é leve."

Liz O'Donnell, que entrevistou uma porção de mulheres para seu livro Mogul, Mom & Maid, disse que expectativas irrealistas provavelmente desempenham um papel na relativa infelicidade de mulheres em casa comparado com o trabalho.

"As mulheres se sentem pressionadas a ser o tipo de mãe retratado em imagens da mídia - em programas de TV e anúncios - ou ser como suas próprias mães foram com elas. Mas essa não é uma expectativa realista para a mãe moderna", disse ela num e-mail. "As mulheres de hoje enfrentam pressões diferentes e vivem vidas diferentes do que as que vieram antes delas. O mesmo acontece com os homens. Existe uma expectativa de que os homens desempenhem no trabalho e sejam o provedor confiável. Homens e mulheres talvez sejam mais felizes no âmbito em que enfrentam menos expectativas."

Solução. Então, o que fazer? Damaske e seus coautores argumentam que a melhor maneira de baixar os níveis de estresse é promover políticas de um lugar de trabalho criativo como Results-Only Work Environment, ou ROWE, sistema que mede empregados pelo seu desempenho, e não quando, onde e como ou as horas que eles gastam. Pesquisas financiadas pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA revelaram que o ROWE reduz significativamente os níveis de estresse, melhora a saúde, o humor, o comprometimento e lealdade do empregado e tem outros benefícios.

"Sei que pode parecer que estamos presos, como e ainda estávamos, à era do Homem da Organização dos anos 1950", disse Damaske. "Mas quanto mais aprendemos, quanto mais ouvimos pessoas, como a geração do milênio (ou geração Y), que querem encontrar um trabalho significativo, que não querem ser tão dedicadas ao trabalho que não tenham tempo para suas vidas fora dele, mais podemos mudar."

Para o bem de nossos filhos se não para o nosso próprio, esperemos que sim.

* Tradução de Celso Paciorni

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