Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

'Você não ficou preso em casa. Ficou a salvo em casa', diz cientista sobre quarentena

Número de casos por coronavírus no Brasil já poderia estar próximo a 1 milhão, diz pesquisador em vídeo que explica ritmo de contágio

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 05h00

RIO – O Brasil já poderia estar bem perto de alcançar a marca de um milhão de casos da covid-19 se não tivesse adotado medidas de distanciamento social. A conclusão está no vídeo “A quarentena pode estar salvando o Brasil”, publicado pelo engenheiro e cientista de dados Maurício Féo. O pesquisador faz doutorado em física de partículas no Cern – a organização europeia de pesquisa nuclear que opera o maior acelerador de partículas do mundo, em Genebra, Suíça

No vídeo, que já teve 500 mil visualizações desde que foi publicado em uma rede social no último dia 30, Féo explica que, se nenhuma medida é tomada e se não há vacina, toda epidemia cresce exponencialmente – ou seja, o valor inicial é multiplicado por um mesmo número num dado período de tempo. No caso da atual epidemia, se uma pessoa contamina duas e essas duas infectam mais duas e assim por diante, é fácil perceber que, em pouco tempo, esse crescimento alcança valores muito altos.

Até somar os primeiros 1,5 mil casos, explica Féo, a epidemia brasileira estava crescendo exponencialmente. Quando a quarentena é decretada em São Paulo, que concentra o maior número de casos, em 23 de março, mostra o cientista, a curva passa a seguir outra tendência, tornando-se menos íngreme. 

Quando a curva brasileira é comparada à americana – onde o distanciamento social foi adotado bem mais tarde – é fácil percerber como a nossa curva cresceu bem mais vagarosamente.“O número de casos ainda está crescendo, mas não está seguindo a escala exponencial que seguia antes”, diz Féo. “Em algum momento começa a desacelerar e isso, certamente, foi devido às medidas que vários Estados adotaram.” No vídeo, Féo conclui: “Você não ficou preso em casa, ficou a salvo em casa.”

  • Por que você resolveu fazer esse vídeo?

Estava decepcionado com a quantidade de desinformação sendo passada durante a pandemia. Não sou qualificado para dizer até quando deve ir a quarentena, até onde o dano econômico é aceitável, mas estou vendo pessoas apoiarem um lado ou outro baseadas em política e espalhando desinformação. Vi gente argumentando que muitas pessoas estão morrendo do mesmo jeito, então a quarentena não serviu de nada. Não sou qualificado para opinar sobre saúde e economia, mas qualificado para dizer que temos de levar em conta os dados certos. E foi isso que quis apresentar.

  • O número de casos continua aumentando, mas podemos dizer que o distanciamento social deu certo. Por quê?

O número de casos ainda esta aumentando, e bastante, mas não em proporção exponencial, graças, certamente, às medidas adotadas de distanciamento social, uso de máscara e higiene pessoal. Vemos claramente que, no início, o crescimento da curva é exponencial, e, por um bom tempo, continua a subir exponencialmente, mas depois começa a reduzir a velocidade de crescimento.

  • Podemos dizer, então, que conseguimos achatar a curva?

Exatamente, isso significa que a estratégia está sendo bem sucedida. Definir o pico da epidemia sem a adoção de nenhuma medida de prevenção é fácil, os epidemiologistas no mundo inteiro já fizeram isso. Então vemos o pico ser adiado. Se o pico não chegou na projeção esperada, significa que foi um sucesso. Não é uma má notícia.

  • E como é a comparação com os EUA, que adotaram medidas de distanciamento social bem mais tarde do que nós?

Aqui começamos a agir quando tínhamos 1,5 mil casos. Nos EUA demoraram muito mais. Provavelmente teríamos seguido a mesma trajetória deles. Veja que no mesmo dia em que o Brasil tem 79 mil casos, os EUA apresentam 735 mil, quase dez vezes mais. Mesmo que a subnotificação no Brasil seja na casa de dez, teríamos 790 mil casos. Mas os EUA também têm subnotificação. E mesmo que a deles fosse apenas de dois, já teriam mais de um milhão de casos.

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