Volume na mira dos médicos

Tramita no Congresso lei que limita a 90 decibéis a potência dos aparelhos com fones de ouvido

Fernanda Aranda, Jornal da Tarde

28 Fevereiro 2009 | 11h22

Atestar que esta geração não escuta os pais é uma verdade que se repete, cada vez mais, nos consultórios médicos. As lesões auditivas provocadas por iPods, tocadores de MP3 e celulares ainda não chegaram às estatísticas oficiais do País, porém já mobilizaram os especialistas. No Congresso Nacional tramita um projeto de lei para proibir que sejam vendidos aparelhos que alcancem volume tão prejudicial - acima de 90 decibéis .   Veja também: Projeto quer proibir venda de MP3 que toque acima de 90 db   Elaborado pelo deputado Jefferson Campos (PTB), o projeto de lei foi embasado em uma pesquisa da Grã-Bretanha, com 300 mil jovens entre 15 e 18 anos, que encontrou a porcentagem de 10% deles com perda auditiva provocada, especialmente, por esses aparelhos aparentemente tão inofensivos. No Brasil, ainda não há um estudo conclusivo sobre os prejuízos auditivos provocados pelas novas tecnologias, mas o potencial destrutivo dos mesmos, atrelado à proposta de lei, impulsionou a Sociedade Brasileira de Otologia a criar uma campanha específica sobre o tema.   Com o slogan "abaixe o volume ou diminua a sua audição para sempre", a proposta da entidade é chamar atenção para um assunto ainda negligenciado pelos adolescentes e adultos. "Ainda não temos números oficiais, porque é um fenômeno recente, mas já está comprovado que os jovens estão ficando surdos cada vez mais cedo", afirma Ektor Onishi, coordenador da campanha. Segundo ele, os problemas encontrados nos mais novos que usam e abusam dos iPods e similares são parecidos com os diagnosticados em trabalhadores de fábrica e construção civil. "O mecanismo de lesão é o mesmo. Seja provocado pelo ruído de uma máquina ou o som de uma banda de rock."   Para o ouvido, a trilha sonora digital emanada pelos fones pequeninos é de fato próxima a de uma britadeira, que chega aos 120 decibéis. "Cada vez mais cedo, as crianças estão tendo acesso a essas tecnologias e o uso não é de forma racional", afirma Manoel de Nóbrega, responsável pelo laboratório de deficiência auditiva da Unifesp, onde foi iniciada a primeira pesquisa nacional sobre os impactos negativos do uso exagerado dos fones de ouvido.   "Se não houver um controle, esses meninos e meninas vão ficar surdos primeiro do que os pais", alerta em referência à perda progressiva da audição, provocada pelo envelhecimento, iniciada em média aos 40 anos.   Arthur Menino Castilho, otorrinolaringologista da Unicamp, lembra que a perda auditiva acontece de maneira lenta e progressiva. Outro alerta é que não são apenas os iPods e MP3 únicos vilões dos ouvidos desta geração. Nas baladas, onde o volume chega a 120 decibéis e a orientação para não provocar danos é ficar no máximo 15 minutos nesses ambientes, as lesões também são recorrentes. "Sem contar que as drogas e bebidas potencializam o risco."

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