Paula Acosta e Fernanda Massarotto
Paula Acosta e Fernanda Massarotto

'Vou acabar é morrendo de fome e não de coronavírus.' A vida dos sem-teto em Milão

Capital da Lombardia, área mais atingida pela doença, tem cerca de 3 mil pessoas em situação de rua. A rotina precária incorporou as dificuldades de uma pandemia

Paula Acosta e Fernanda Massarotto, especiais para o Estado

18 de março de 2020 | 09h00

MILÃO - Profissionais que perderam o emprego. Indivíduos com algum tipo de dependência química que abandonaram suas famílias. As histórias podem ser as mais diversas, mas os protagonistas, espalhados por toda a Itália, vivem em um endereço comum: as calçadas das cidades.

Com a epidemia de coronavírus, com razão, a expressão “iorestoacasa” (eu fico em casa) se transformou em um mantra no país. Porém, no território de 60 milhões de habitantes, nem todo mundo pode se fechar em uma residência: estima-se que 50 mil pessoas usem o asfalto como leito.

Em Milão, capital da Lombardia, a região mais atingida pela doença, o número de pessoas em condição de rua gira em torno dos 3 mil, variando de acordo com as estações do ano. Do sul para o norte. Um percurso feito por milhares de italianos. Do pós-guerra às crises econômicas, jovens e pais de família migraram principalmente para a região da Lombardia em busca de melhores condições. O sonho, para muitos, virou pesadelo.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

O ex-pintor e tapeceiro Pasquale Murano, 53 anos, de Reggio Calábria, no extremo sul do país, vive nas ruas de capital do design e da moda. "Cheguei aqui em 1995. Lá na minha cidade não encontrava mais trabalho. Por seis anos fui pintor e tapeceiro. Mas aí tive de amputar parte da perna direita por diabete, perdi o emprego, casa e até a namorada. O jeito foi perambular mesmo e de cadeira de rodas", relata o italiano, usando uma máscara doada por uma farmácia, no bairro de Porta Nuova, o novo centro de Milão.

"Fico nas imediações do supermercado da praça Gae Aulenti e acabo pedindo algo para comer. Ontem, a minha única refeição foi uma laranja que ganhei de uma senhora. Hoje, não sei o que será de mim. O refeitório de Sant'Antonio, onde eu ia regularmente, fechou."

A tristeza nos olhos de Pasquale é a mesma que se vê no rosto dos milaneses e italianos. A liberdade tolhida, o direito de ir e vir restrito. E para os moradores de rua como Pasquale o cotidiano tem sido ainda mais duro. "A minha casa é a rua. Ninguém mais conversa comigo. As pessoas têm medo de se aproximar. Fogem da gente", relata ele que diz não ter o vírus e se oferece para mostrar um atestado.

O momento mais difícil para Pasquale é a noite. Ele afirma que nem sempre consegue um lugar nos dormitórios da cidade. A solução é mesmo embaixo dos viadutos da estação de trem de Porta Garibaldi. Banhos, desinfetantes e gel antisséptico não fazem parte do seu dia-a-dia. "Vou acabar é morrendo de fome e não de coronavírus", se lamenta o italiano que se informa sobre a crise nos breves bate-papos com policiais e funcionários do supermercado diante dos quais passa grande parte do seu dia.

A rotina dos sem-teto em Milão é quase sempre a mesma. Durante o dia, vagam pelas ruas e à noite buscam abrigo nos dormitórios. Mas, muitos deles preferem ficar ao relento. Nos arcos da Porta Garibaldi, que dá acesso às badaladas ruas do design como Corso Como e Corso Garibaldi, no bairro de Brera, há um revezamento constante de moradores de ruas.

A polícia, em suas rondas, os leva para os abrigos, mas há sempre os que retornam. "Não sabemos mais o que fazer. Se multá-los, se retirá-los ou se deixá-los", conta um policial que pede para não ser identificado.

A falta de higiene é visível e o estado de embriaguez de alguns impede a comunicação. Marcos é filipino. Chegou à Itália há 3 anos. Fala pouco o idioma e ao ser questionado sobre a sua situação, balbucia. Os colegas ao lado dormem enquanto ele fuma. Para quem vive nas ruas, o coronavírus é uma adversidade a mais em um cotidiano já tão difícil.

Cidade tenta ampliar atendimento

Como informa o Departamento de Políticas Sociais e Habitacionais do município, desde a segunda-feira, 16, e até o dia 3 de abril, do total de dormitórios administrados pela prefeitura, 17 passaram a abrir também de dia. Apenas um, localizado no mezanino da Centrale, a principal dos estação de trens local, continua com o atendimento exclusivamente noturno porque não é possível mantê-lo em funcionamento durante as horas de maior movimento. Em cada unidade, é garantida a refeição e distribuído gel higienizante.

A extensão do horário de abertura dos dormitórios foi estabelecida para amparar, durante toda a jornada, os que já ocupavam os leitos à noite que, assim, não infringem o toque de recolher. 

Na semana passada, após a instituição do decreto nacional, os meios de comunicação noticiaram o caso de um morador de rua, originário da Ucrânia e com visto regular no país, que foi denunciado pelas autoridades por violar as medidas restritivas. Com o fechamento, por causa da emergência, do centro diurno que costumava frequentar, administrado por uma associação beneficente, ele não sabia para onde ir e foi abordado pela polícia em uma via da periferia. 

Segundo o Departamento de Políticas Sociais e Habitacionais da prefeitura, a população que vive nas ruas de Milão é composta em sua maioria por homens (90%). O maior centro municipal para acolhimento dos sem-teto de Milão é também o maior da Europa. Com um nome que homenageia o compositor milanês Enzo Jannacci, que em suas canções falavam das pessoas marginalizadas, Casa Jannacci é localizada em Viale Ortles, na zona sul da cidade, e pode receber mais de 500 pessoas. Na outra ponta do sistema, há também estruturas pequenas, para pouco mais de 10 pessoas.

Administrar grandes grupos de pessoas que vivem condição precária exige um grande cuidado. Nos dias atuais, é preciso ainda mais zelo. O Projeto Arca gerencia um centro municipal para pessoas sem moradia com 200 vagas, em Quarto Oggiaro, bairro no noroeste da cidade, além de outras estruturas, que acolhem mais de 1 mil pessoas em situação de fragilidade, considerando só as atividades desenvolvidas Milão. 

Para enfrentar a epidemia do novo coronavírus, a entidade comprou em caráter de urgência 10 mil recipientes com gel desinfetante, 15,2 mil máscaras, 22 mil luvas, 300 aventais e 285 macacões descartáveis, 236 litros de desinfetante, que são utilizados nos serviços que presta às pessoas carentes (sem-teto, famílias em risco de pobreza, idosos solitários, migrantes), em Milão, Roma e Nápoles.

O presidente do Progetto Arca, Alberto Sinigallia faz questão de recordar o grande empenho, nas últimas semanas, daqueles que estão se dedicando junto às pessoas mais frágeis. “Agradeço a todos os operadores e voluntários, que demonstram uma enorme capacidade de resiliência. E, em especial, agradeço sempre aos nossos profissionais de saúde da linha de frente: médicos, enfermeiros e todos que trabalham no setor da saúde. Continuamos a não perder de vista o objetivo comum: proteger todos nós e, juntos, ajudar os cidadãos que, em meio a essa nova emergência, já vivem em uma situação diária de emergência".

Tudo o que sabemos sobre:
Itália [Europa]Lombardiacoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.