Reprodução/YouTube
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Xavantes contabilizam 32 mortos e se unem para enfrentar covid-19

Por meio das redes sociais, etnia quer obter recursos para compra de equipamentos de saúde, remédios e cestas básicas

Dida Sampaio, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2020 | 10h38

BRASÍLIA  -  Na noite da quarta-feira, 24, o estudante de comunicação Cristian Wariu, de 22 anos, em Brasília, reuniu numa live os amigos Clarêncio, Indiana e Lúcio, moradores de aldeias xavantes do Norte de Mato Grosso. Era o início da SOS Xavante, uma campanha de arrecadação de recursos para comunidades indígenas impactadas pela pandemia da covid-19.

A doença tinha atingido a própria família de Cristian, que, por conta da doença, está afastado desde março dos parentes. Dois dias depois da live, a avó paterna do estudante, Angela Xavante, entrou na lista dos mortos. O avô, Eduardo Tseremey´wá, um dos responsáveis pelos contatos com não-índios nos anos 1940, morreu nesta terça-feira, 30. Quem também contraiu o vírus foi o pai de Cristian, Crisanto Rudzö Tseremey'wá, presidente da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso. Em 15 dias, 32 xavantes morreram, segundo estimativa das lideranças indígenas. O Ministério da Saúde contabiliza, até agora, 16 casos.

Por meio das redes sociais, os xavantes querem obter recursos para compra de equipamentos de saúde, remédios e cestas básicas. Os organizadores da campanha pretendem também reduzir a força do preconceito. A doença passou das cidades do interior de Mato Grosso às aldeias, mas os índios estão sendo vistos como propagadores da covid-19, o que é o contrário. “Há um descaso dos órgãos de saúde indígena, que não fez as primeiras compras de medicamentos e agora temos de enfrentar ainda o problema do preconceito”, afirma Cristian.

Há tempo, a nova geração de ativistas do movimento indígena desenvolve um trabalho de uso da tecnologia digital em suas ações. A pandemia foi o batismo de fogo do capítulo mais recente da história da população tradicional. “Hoje, a gente vê a importância do trabalho dos comunicadores indígenas, de formar uma mídia índia”, ressalta Cristian. “Com a pandemia, a internet é onde a gente pode fazer denúncias e buscar minimizar os efeitos da covid-19.”

A live de abertura da campanha SOS Xavante começou com 54 pessoas assistindo. Terminaria com 72, sem desistências. Em poucos dias, artistas renomados e representantes da cadeia de entidades do setor ambiental aderiram.

Nos primeiros minutos da live, a conexão ruim e os chiados impediam entender o que os participantes falavam. Quando o sinal ficou bom, Clarêncio, presidente do conselho de saúde das comunidades, dava informações duras. “Estamos à mercê da saúde pública. Ontem tivemos dois óbitos. Hoje, tivemos mais um. Não sabemos quem vai ser o próximo, qual família será atingida nos próximos minutos”, disse. “Muitos xavantes não acreditaram que esse vírus chegaria ao nosso povo, mas no Brasil inteiro tem gente que não acredita”, ponderou.

Com semblante sério, Clarêncio pediu ajuda aos internautas, algo impactante em se tratando de xavante, povo orgulhoso, que combate com bravura suas terras e rios desde o ciclo da mineração, no século XVII. O pedido veio com uma demonstração de respeito aos mais velhos. “A gente não quer perder principalmente nossos idosos. Quando a gente perde um deles, a gente perde um mundo. A gente considera eles a vida da gente.”

No começo desta semana, a Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e partidos políticos entraram com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para que o governo instale barreiras sanitárias em 31 reservas onde há presença de índios isolados ou de recente contato. Um parecer do Instituto Socioambiental que dá base à ação mostra que a pandemia trouxe ainda uma tendência de aumento de invasões de madeireiros, garimpeiros e caçadores nas reservas. O Conselho Indígena Missionário já contabiliza 380 mortes de índios no País.

Empatia

Mais de 23 mil xavantes vivem hoje em mais de uma centena de aldeias em Mato Grosso. É a maior etnia do Estado. Agente da Funai em Nova Xavantina, Indiana explicou que, pela dinâmica das comunidades xavantes, é praticamente impossível garantir o isolamento social. Ela observou, ao mesmo tempo, que as famílias de boa parte das aldeias não dispõem de caça e peixes e os adultos têm emprego de buscar trabalhos informais nas cidades para manter suas casas. Com a pandemia, as relações com as cidades foram impactadas e os xavantes perderam a renda.

Cristian a interrompeu para pedir que desligasse o ventilador do pequeno cômodo onde ela estava, pois o aparelho prejudicava que fosse ouvida. “Gente, faz muito calor, por isso que o ventilador estava ligado”, explicou Indiana, no único momento de descontração. Com o rosto já suando, ela relatou que os profissionais da Funai e da saúde não estavam preparados para evitar o avanço da doença. “Agora, a gente tenta sobreviver como pode. Já perdemos três servidores”, disse. “O que a gente pede a todos vocês é empatia, se colocar no lugar do outro. Obrigado antecipado por nos ajudar a salvar vidas.”

Lúcio observou que os xavantes estão diante de seu maior desafio das últimas décadas. “É três vezes o sofrimento do nosso povo nos anos 1970, 1980 e 1990”, disse Lúcio na live. Ele fazia referências a uma sequência de batalhas sangrentas com grileiros e exploradores e a surtos de sarampo e meningite. “Limitou a nossa convivência cotidiana.”

Ana Paula Sabino, uma das coordenadoras da campanha, explicou que 40% dos recursos arrecadados vão ser usados na compra de alimentos para ser distribuídos a todas as etnias de Mato Grosso. Da meta de R$ 250 mil, eles já conseguiram R$ 102 mil. “Estes primeiros recursos estão sendo usados na compra de concentradores de oxigênio e remédios”, informou Ana Paula. O site da campanha é o captar.info/campanha/sosxavante.

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