Zika, carnaval e camisinha

Com um novo caso de zika por transmissão sexual noticiado no Estado do Texas, nos Estados Unidos, os especialistas reforçam a hipótese de mais uma, embora incomum, via de propagação do vírus. Até hoje, se considera que a epidemia se prolifera basicamente pelas picadas do mosquito Aedes aegypti.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2016 | 05h00

O Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC) e o Serviço de Saúde de Dallas (DCHHS) relataram o caso de um paciente que apresentou a doença sem ter viajado para áreas de contágio, após ter tido contato sexual com uma pessoa que havia chegado da Venezuela. Os dois tiveram testes positivos para o zika.

Além desse caso atual, há o isolamento de partículas ativas do vírus no sêmen de um homem de 44 anos na Polinésia Francesa, em 2013, e o caso já descrito nesta coluna de um pesquisador americano, Brian Foye, que teria se contaminado em 2008 no Senegal e depois, ao voltar para sua casa no Colorado, teria infectado sua mulher, que não havia saído dos Estados Unidos.

Com base nesses relatos, que ainda são poucos e isolados, alguns especialistas têm recomendado o uso de camisinha como forma adicional de prevenção contra o zika, principalmente para mulheres que estão grávidas ou que pretendem engravidar e que têm parceiros que visitaram recentemente áreas em que o vírus está circulando. Bom lembrar que em 80% dos casos o zika não provoca sintomas.

Recentemente, as autoridades britânicas do Public Health England (PHE) recomendaram que os homens que chegam de uma região que está enfrentando zika devem usar preservativo por 28 dias, principalmente se têm mulheres grávidas ou que estão tentando engravidar. Ainda por essas recomendações, quem teve sintomas da doença ou exames que confirmaram a infecção deve usar camisinha durante seis meses.

Zika e carnaval. Como lembra um artigo do jornal inglês Daily Mail, com a chegada do carnaval, há um grande potencial de piora da epidemia. Boa parte das grandes festas de rua ocorrem em Estados quentes, úmidos, com grandes populações de mosquitos e com número elevado de casos de zika como, por exemplo, Pernambuco, Bahia e Rio.

Além disso, grandes aglomerações e uso de roupa curtas (bermudas, camisetas), típicos dessa época do ano, podem facilitar a ação dos mosquitos. Como muitos turistas estrangeiros estão chegando para a festa, é possível que entrem em contato com o vírus e, de volta para casa, façam o zika circular mais rápido.

Se a comprovação de uma possível transmissão sexual se confirmar, mesmo que não haja a ocorrência dos vetores habituais (mosquitos) nos países de origem, o vírus poderia ser passado para parceiros e parceiras pelo sexo sem proteção. Daí a recomendação da camisinha.

Na última sexta-feira, a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) divulgou que seus pesquisadores isolaram o zika vírus ativo (com potencial de infecção) na saliva e urina de dois pacientes contaminados. Isso não significa que ele pode ser transmitido dessa forma (faltam informações), mas acende um alerta para que alguns especialistas já recomendem, ainda que de forma provisória, que as gestantes evitem locais com grandes aglomerações e não compartilhem copos e talheres. 

Pode ser uma recomendação precipitada e, no futuro, considerada desnecessária para o enfrentamento do zika vírus. Mas, em fase inicial de busca de informações científicas de como se dá a transmissão do vírus e como ele, de fato, atua em nosso organismo, muitas vezes, é melhor prevenir do que remediar.

Já que nós, por aqui, enfrentamos problemas como aumento da incidência de doenças transmitidas pelo sexo nos últimos anos, número elevado de casos novos de aids (principalmente entre os mais jovens) e uso irregular de preservativo, em tempos de carnaval, onde festa e sexo muitas vezes andam juntos, nunca é demais lembrar: use camisinha! Que nesse verão de 2016 ainda poderia servir, pelos menos para as gestantes, como proteção adicional contra o zika.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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