Jason Henry / The New York Times
Jason Henry / The New York Times

Zika é oportunidade de negócio para empresa de biotecnologia

Randal J. Kirk, dono de uma 'fábrica' de mosquitos geneticamente modificados, está na linha de frente para controlar o vírus

Andrew Pollack, New York Times

17 Março 2016 | 07h00

No reino crescente governado por Randal J. Kirk, maçãs cortadas não escurecem. O salmão cresce duas vezes mais rapidamente sem nadar rio acima para desovar. Gatos adorados renascem.

E mosquitos machos são liberados com a única missão de acasalar, passar um gene que mata sua prole e morrer.

Décadas atrás, os alimentos e as criaturas criados por Kirk somente seriam encontrados em fantasias distópicas como as escritas por Margaret Atwood. A empresa de biotecnologia de Kirk, no entanto, a Intrexon, está se tornando rapidamente uma das mais diversificadas do mundo, com empreendimentos variando de bichos desprezados criados por engenharia genética a curas potenciais para o câncer e terapias genéticas, substitutos da gasolina, gatinhos clonados e até mesmo brinquedos Dino Pet, feitos com micróbios que brilham no escuro.

Até recentemente, Kirk, de 62 anos, era um bilionário relativamente desconhecido que se fez sozinho, comprando ou investindo no mundo da biotecnologia. Então, quando a Intrexon adquiriu a britânica Oxitec no ano passado, ela atraiu pouca atenção enquanto o dono ampliava seu alcance a insetos modificados geneticamente.

Todavia, essa ação colocou Kirk na linha de frente da luta para controlar o vírus zika, suspeito de fazer bebês nascerem com cabeças pequenas e cérebros atrofiados. O vírus age de forma desenfreada na América Latina e ameaça os Estados Unidos.

Embora o zika não fosse conhecido quando o acordo foi anunciado, Kirk agora parece ser o proprietário visionário de uma arma biológica em potencial - os mosquitos modificados geneticamente pela Oxitec que, segundo ele, poderiam salvar milhões de pessoas da zika fazendo a população de mosquitos transmissores de doenças silvestres se autodestruir.

"Acho que nós temos a única solução segura, eficaz, comprovada na linha de frente e pronta para ser utilizada", disse Kirk, que é normalmente chamado de R.J., durante entrevista em sua sala, com vista para o Canal Intracosteiro do Atlântico. Em Piracicaba, São Paulo, a população de mosquitos silvestres caiu 82 % no bairro em que os mosquitos estão sendo testados, declarou ele.

Se seus planos para vender os mosquitos modificados geneticamente derem certo, Kirk vai fortalecer seu status de quase culto entre alguns investidores e colegas que se maravilham com sua astúcia (e alguma sorte) nos investimentos.

Talvez mais importante, uma vitória contra a epidemia em rápida disseminação poderia enfraquecer a oposição a organismos modificados por engenharia genética de todos os tipos, incentivando muitos outros a saírem do laboratório, para a mesa de jantar ou o ambiente.

Agora, Kirk precisa convencer agências norte-americanas, governos estrangeiros e organizações de saúde sem fins lucrativos a fazerem pedidos. Ele deve reduzir a cautela da Organização Mundial da Saúde e de autoridades dos EUA, que questionam se a técnica será eficiente em larga escala. E deve derrotar apreensões sobre engenharia genética que levaram à oposição aos mosquitos no arquipélago Florida Keys e outros lugares.

"Não temos experiência com mosquitos transgênicos vivos no ar. Quais serão as consequências em médio e longo prazo?", disse o Dr. Artur Timerman, especialista em doenças infecciosas no Brasil.

Vender mosquitos para combater uma epidemia internacional poderia ajudar a aliviar a pressão que Kirk está sentindo para provar que a Intrexon é mais do que uma coleção de projetos de ciência estranhos, que ela pode dar lucro e realizar seu sonho de uma nova era dourada da biotecnologia.

Ele considera este um momento seminal na História, no qual a capacidade de ler e escrever - e reescrever - o código da vida do DNA tornará possível modificar todos os tipos de organismos para realizar tarefas específicas.

"Acho que esse é o vetor industrial mais importante ocorrendo na História", ele disse, comparando-o à tecnologia do semicondutor que levou à criação dos smartphones e da internet.

E as mesmas ferramentas de DNA podem ser aplicadas a áreas numerosas. Segundo ele, cientistas da Intrexon "não se importam se estão trabalhando em uma célula humana primária T ou em um abacate". Refletindo essa visão, a Intrexon tem como domínio na internet o nome dna.com.

A engenharia da vida é muitas vezes chamada de biologia sintética, um termo vagamente definido que pretende significar mais manipulação genética sistemática do que o ato de cortar e colar um gene só, que deu origem às primeiras empresas de biotecnologia, tais como Amgen e Genentech. Em seu ponto mais distante, os biólogos sintéticos ficariam trabalhando em um computador projetando formas de vidas da estaca zero, depois apertando em "imprimir" para ter o DNA necessário feito sob medida para ser inserido em uma célula.

Diversas empresas estão entrando no campo, mas a Intrexon é "o grande nome do setor de biologia sintética", disse John Cumbers, diretor executivo da SynBioBeta, um grupo nascente que representa o setor.

Seus defensores dizem que se alguém pode ser capaz desse empreendimento é Kirk, a quem chamam de visionário notável e que aprende logo as coisas, embora não tenha formação em ciências.

Mesmo assim, existem os céticos. É difícil julgar a força da tecnologia central da Intrexon, chamada UltraVector, um sistema computadorizado para montar pedaços modulares de DNA para criar circuitos genéticos complexos. Dizendo que deseja proteger seus segredos comerciais, a companhia não publicou artigos a esse respeito na literatura científica.

A maior crítica é que a Intrexon vive anunciando novas aquisições e novas colaborações, dezenas ao todo. Contudo, nenhum produto com a tecnologia foi lançado, e não está claro quando algum deles será.

"Existe uma mistura de espetáculo e especulação", disse Jim Thomas, do ETC Group, entidade sem fins lucrativos, para quem a biologia sintética precisa ser regulamentada com maior rigor. "O que é curioso nisso tudo é a forma pela qual eles estão juntando todas essas empresas polêmicas, que contam apenas com uma experiência fracassada, e tentando lhes dar uma aparência chique de biologia sintética."

Uma grande oportunidade comercial poderia ser o projeto piloto da Intrexon de usar micróbios alterados geneticamente para transformar gás natural, que é barato e abundante, em isobutanol, combustível líquido que pode ser utilizado em automóveis. Investidores querem ver se o sócio da Intrexon, o gigante da energia Dominion, se compromete a construir uma fábrica, o que Kirk acredita que pode acontecer ainda neste ano.

Já os mosquitos da Oxitec, embora não seja algo que a Intrexon em si tenha desenvolvido, oferece um bônus que Kirk não poderia ter previsto. Os mosquitos foram desenvolvidos principalmente para combater a dengue, explicou Kirk, fazendo valer a pena pagar US$ 160 milhões pela Oxitec.

Contudo, como o zika é espalhado pelo mesmo tipo de mosquito, os insetos da Oxitec, quem contêm um gene da letalidade, podem ser usados. Quando os mosquitos machos são liberados para se acasalar com fêmeas silvestres, os descendentes morrem antes de chegar à maturidade.

A Intrexon está agora construindo uma fábrica em Piracicaba para produzir 60 milhões de mosquitos machos por semana, o suficiente para proteger pelo menos 300 mil pessoas, e Kirk acredita que a produção poderia ser aumentada para cobrir cidades ou países inteiros.

De acordo com Kirk, o custo pode variar, dependendo da concentração de mosquitos. Por US$ 7,50 por pessoa, que a revista "Technology Review" noticiou que seria o preço em Piracicaba, uma cidade de um milhão de pessoas pagaria US$ 7,5 milhões anuais.

Porém, especialistas dizem que vai ser preciso esperar muito tempo e investir muito dinheiro para aumentar a escala, e que não está claro se a técnica reduz a transmissão da doença.

E existem novas técnicas concorrentes para controle do mosquito que não envolvem a engenharia genética e, portanto, podem ter uma aceitação mais veloz. Uma delas, defendida pela Agência Internacional de Energia Atômica, esteriliza os mosquitos de laboratório com radiação, para que não consigam se reproduzir quando forem libertados.

Kirk rejeitou as preocupações relativas aos mosquitos da Oxitec. Eles contêm algumas modificações genéticas bem caracterizadas, enquanto a radiação produz "milhões de mutações desconhecidas". Se os órgãos reguladores derem aos mosquitos esterilizados um obstáculo menor seria o equivalente a "premiar a ignorância".

Ao avaliar que a oposição à engenharia genética era "em grande medida nascida do medo baseado na falta de conhecimento", Kirk argumentou que a biologia sintética "não é opcional", caso a sociedade queira manter seu padrão de vida.

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