Zika ganhou força em uma ilha remota do Oceano Pacífico

Na pequena Yap, médicos viram aumento alarmante no número de pacientes com manchas no corpo, olhos vermelhos e dores

Austin Ramzy, The New York Times

19 Fevereiro 2016 | 15h37

Hong Kong - A Ilha de Yap, uma ilhazinha do Pacífico Ocidental mais conhecida por usar discos de pedra enormes como moeda, enfrentava uma grave situação médica.

Em 2007, os médicos viram um aumento alarmante no número de pacientes com manchas no corpo, olhos vermelhos e dores nas articulações. Testes iniciais não conseguiam mostrar o que estava deixando as pessoas doentes.

“Não tínhamos ideia do que poderia ser. As pessoas achavam que poderia se tratar de um surto de dengue”, afirmou o Tenente Coronel Mark Duffy, oficial de saúde pública da Força Aérea dos EUA enviado para trabalhar com a doença desconhecida junto com o serviço de inteligência epidêmica do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC na sigla em inglês).

A dengue é uma doença transmitida por mosquitos que pode ser fatal e afeta 100 milhões de pessoas todos os anos. Outra possibilidade era que fosse um surto de chikungunya, outro vírus transmitido por mosquitos.

Mas as amostras de sangue dos pacientes testadas pelo laboratório do CDC em Fort Collins, Colorado, confirmaram que os médicos estavam vendo algo novo: aquele foi o primeiro surto significativo de zika.

Durante boa parte de sua existência, o vírus zika não passava de uma curiosidade científica. Depois que foi descoberto em 1947 na floresta de Uganda que deu nome à doença, o vírus se espalhou lentamente pela África e Ásia. Exames de sangue revelaram a presença de anticorpos do zika em pessoas na Índia, no Paquistão, na Malásia, no Vietnã, nas Filipinas, na Tailândia e na Indonésia - uma evidência de que essas pessoas haviam sido expostas ao vírus. Mesmo assim, poucos casos da doença haviam sido reportados.

Por mais de meio século não houve surtos de zika registrados, e apenas 14 casos confirmados.

Então, em 2007, o vírus apareceu em Yap e nas ilhas da Micronésia, cerca de 1.200 quilômetros a leste das Filipinas, onde quase 50 pessoas foram infectadas. Seis anos depois, apareceu na Polinésia Francesa, cerca de 8.000 quilômetros a sudeste de Yap, onde milhares de pessoas contraíram a doença.

Agora, o zika já infectou cerca de 1,5 milhão de pessoas no Brasil e está se espalhando rapidamente por outras partes das Américas. O novo surto fez os pesquisadores examinarem a trilha deixada pelo vírus na Ásia e no Pacífico, tentando aprender mais sobre os primeiros surtos da doença e porque ela parece ter piorado tanto.

“Alguma coisa muito diferente está acontecendo aqui, mas no momento não sabemos o que é”, afirmou Duncan Smith, pesquisador de doenças infecciosas da Universidade Mahidol, na Tailândia.

Durante boa parte de sua história, o zika foi objeto de poucas pesquisas. Apenas uma em cada cinco pessoas infectadas desenvolvia sintomas, que geralmente eram leves e facilmente confundidos com os de outras doenças.

“De tempos em tempos surgia um caso estranho. Existe tanta dengue nessa região e os sintomas das duas são muito parecidos - manchas na pele, febre, dores musculares. Eu me pergunto se o zika não está na região há mais tempo, embora sempre tenha sido classificado de forma errada”, afirmou Smith.

Em Yap os médicos logo souberam que estavam lidando com algo diferente. Não houve mortes e ninguém foi hospitalizado, mas 49 casos foram confirmados e outros 59 casos prováveis foram identificados, muito mais do que em qualquer outro surto.

Ainda não se sabe exatamente como o vírus chegou a esse arquipélago remoto, embora uma pessoa ou um mosquito infectado são os prováveis culpados. Duffy destacou em um artigo para a revista científica The New England Journal of Medicine em 2009 que um exame de sangue feito em um voluntário médico em Yap que voltou aos EUA em julho de 2007 detectou a presença de anticorpos do zika, indicando uma provável infecção.

Quando o zika apareceu na Polinésia Francesa em 2013, o surto de Yap ajudou as autoridades de saúde a se preparar. Os laboratórios de áreas isoladas desenvolveram métodos para identificar a presença do vírus e ajudar outros países do Pacífico, afirmou Van-Mai Cao-Lormeau, pesquisadora de doenças infecciosas do Instituto Louis Malardé do Taiti, a maior ilha da Polinésia Francesa.

“O país é pequeno. Todo mundo que trabalhava no laboratório tinha parentes ou amigos que haviam visto algo que parecia dengue. O número de casos não parava de crescer”, afirmou ela.

O surto na Polinésia Francesa foi explosivo: estima-se que 28 mil pessoas, mais de 10% da população do território, buscou tratamento. E os efeitos colaterais da doença se mostraram mais graves do que em qualquer outro surto anterior.

A incidência da síndrome de Guillain-Barré, uma doença que leva o sistema imunológico a atacar o sistema nervoso, muitas vezes causando paralisia no paciente, foi 20 vezes maior que a geralmente esperada, afirmaram Van-Mai e seus colegas na edição de 2014 da revista científica Clinical Microbiology and Infection.

Depois que casos de microcefalia, quando as crianças nascem com cabeças anormalmente pequenas, foram registrados no Brasil, os pesquisadores da Polinésia Francesa fizeram uma investigação retrospectiva das mulheres que estiveram grávidas durante o surto. Eles encontraram 17 casos de crianças com problemas neurológicos, incluindo microcefalia, afirmou Van-Mai.

A conexão entre o vírus zika, a microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré ainda não foi confirmada e continua a ser estudada.

Pequenos surtos na Nova Caledônia, nas Ilhas Cook e na Ilha de Páscoa foram registrados após o surto na Polinésia Francesa, e o zika provavelmente se espalhou por todo o pacífico sem ser detectado, afirmou a pesquisadora.

Os pesquisadores não sabem ao certo porque o vírus parece ser mais agressivo nas Américas do que em Yap ou na Polinésia Francesa. Um fator potencial é a população relativamente pequena das ilhas, sugeriu Van-Mai.

“Somos apenas 270 mil pessoas. Como somos pequenos, talvez não tenhamos visto tantos efeitos colaterais.”

A outra possibilidade considerada pelos pesquisadores: o vírus passou por uma mutação que o deixou ainda pior.

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