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App do Ministério da Saúde que recomendava cloroquina até para bebês é retirado do ar

Governo federal diz que aplicativo havia sido ‘ativado indevidamente’, mas que retirada é ‘momentânea’; CFM e deputado federal contestaram funcionamento de plataforma

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 15h27

Após receber críticas por recomendar medicamentos sem eficácia comprovada e que podem até agravar o quadro clínico de pacientes com suspeita de covid-19, a plataforma TrateCOV foi retirada do ar. O sistema foi lançado pelo Ministério da Saúde na semana passada, em Manaus, e era destinado à orientação de profissionais de saúde sobre possíveis tratamentos do novo coronavírus.

Em nota, o ministério alegou que o aplicativo havia sido “invadido e ativado indevidamente” e disse que a retirada foi “momentânea”. “Informamos que a plataforma TrateCOV foi lançada como um projeto-piloto e não estava funcionando oficialmente, apenas como um simulador”, reiterou.

O app foi criticado nos últimos dias por insistir em recomendar medicamentos cuja ineficácia para o tratamento do novo coronavírus já foi comprovada em estudos, caso da cloroquina e a hidroxicloroquina, por exemplo. Isso motivou uma recomendação e um pedido de retirada da plataforma do ar, abertos pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pelo deputado federal Marcelo Freixo (PSOL).

Como mostrou o Estadão, o aplicativo recomendava o uso de antibióticos, cloroquina, ivermectina e outros fármacos para náusea e diarreia ou para sintomas de uma ressaca, como fadiga e dor de cabeça, inclusive para bebês. O uso de remédios sem comprovação científica preocupa especialistas, que veem risco de reações adversas, resistência bacteriana (com o surgimento de doenças como "supergonorreia") e efeitos desconhecidos em longo prazo.

Segundo o governo federal, o diagnóstico ocorria por meio de um sistema de pontos que obedecia "rigorosos critérios clínicos". O teste com o produto foi feito em Manaus, onde mais de 340 profissionais de saúde foram cadastrados no sistema. 

Segundo o CFM, uma análise técnica e jurídica identificou “inconsistências” na plataforma, tais como permitir o acesso por não médicos, dar validação “a drogas que não contam com esse reconhecimento internacional”, induzir à automedicação e à interferência na autonomia dos médicos e, por fim, não deixar claro  “em nenhum momento, a finalidade do uso dos dados preenchidos pelos médicos assistentes”. “Diante do exposto, o CFM pediu ao Ministério da Saúde a retirada imediata do ar do aplicativo TrateCov”, manifestou-se em nota divulgada nesta quinta-feira.

Além disso, na quarta-feira, 20, o deputado Freixo anunciou ter acionado a Justiça Federal para retirar o aplicativo do ar. Ele alegou que o TrateCOV estava sendo “usado ilegalmente para estimular o uso de cloroquina, inclusive em casos cujos sintomas descritos são de ressaca”.

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