Aijaz Rahi/AP
Aijaz Rahi/AP

Brasil teve alta de 21% de infecções por HIV em 8 anos

A alta destoa da tendência mundial. No continente, o desempenho brasileiro no combate ao HIV só não foi pior que o da Chile (alta de 34%) e da Bolívia (26%)

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2019 | 22h44

SÃO PAULO - O Brasil teve um aumento de 21% no número de infecções pelo vírus HIV, que causa a aids, desde 2010. A alta destoa da tendência mundial: apesar de haver uma estagnação dos esforços mundiais para erradicar a doença, a maior parte dos países conseguiu diminuir o número de novos casos nos últimos anos.

Os dados são do Unaids, programa conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids, em seu relatório anual. Segundo o documento número de infecções no mundo permaneceu estável na comparação com os anos anteriores, com uma taxa de 1,7 milhão de novos casos por ano.

A alta de infecções no Brasil piorou os índices da América Latina, que teve aumento de 7% no número de novas infecções entre 2010 e 2018. Se o País ficasse de fora da conta, a região teria queda de 5%.

No continente, o desempenho brasileiro no combate ao HIV só não foi pior que o da Chile (alta de 34%) e da Bolívia (26%). "Na maior parte dos casos, países com território maior têm performance pior do que vizinhos regionais menores", registra o relatório da ONU.

Para especialistas, o desempenho ruim do Brasil se deve à demora em se adaptar à tecnologia dos testes rápidos e à pesquisa científica mais recente sobre a doença. Há também quem aponte falta de políticas públicas para grupos mais vulneráveis à doença, como os jovens.

"Em 10 anos, os casos de HIV mais do que dobraram na faixa entre 20 e 24 anos no Brasil. As campanhas e ações não alcançam as mudanças geracionais, os novos comportamentos", critica o professor Mário Scheffer, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Ele classifica como "inaceitável" o desempenho do País. "O Brasil tem sustentado uma tese meio ilusória de que a epidemia está controlada."

O presidente do Fórum de ONGs/Aids de São Paulo, Rodrigo Pinheiro, concorda. Ele lembra que a falta de políticas adequadas às populações mais vulneráveis à doença também foi um problema em governos federais anteriores. "A aids não é um só um problema de saude, é um grande problema social também. Precisávamos ter um programa dentro do Ministério da Saúde para trabalhar aids e pobreza", diz Pinheiro.

Já a médica Zarifa Khoury,infectologista do Hospital Emílio Ribas, diz que o aumento na notificação do HIV pode ser consequência do maior número de testes. Ela diz que a política de prevenção do país atualmente é adequada, mas acredita que os jovens dão menos atenção às doenças sexualmente transmissíveis.

"O que eu sinto é que essa população mais jovem não presenciou os agravos que existiam antes. As pessoas não adoecem como adoeciam, e eles perderam o medo e não se previnem tanto", diz Zarifa.

Avanços

Questionado, o Ministério da Saúde ressaltou avanços no cumprimento de metas do Unaids. "Sobre a primeira meta de diagnóstico, 85% do número estimado de pessoas vivendo com HIV no País haviam sido diagnosticadas até dezembro de 2018", disse o ministério, em nota.

"Já a proporção de pessoas diagnosticadas que estavam em tratamento antirretroviral foi de 78%. Em relação à meta de pessoas em tratamento antirretroviral que atingiram a carga viral indetectável em 2018, o Brasil ultrapassou a meta do Unaids, registrando 93% pessoas em tratamento com supressão viral."

O ministério diz, também, que houve redução no número de mortes por aids "de 5,7 por 100 mil habitantes em 2014 para 4,8 óbitos em 2017". "O Ministério da Saúde reafirma seu compromisso com o enfrentamento da epidemia de HIV/aids e com a sustentabilidade da resposta brasileira  a essa epidemia", diz.

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