REUTERS/Bruno Kelly (31/1/2021)
REUTERS/Bruno Kelly (31/1/2021)

‘Capacidades são finitas’, diz diretor de fabricante sobre escassez de oxigênio medicinal

Indústria Brasileira de Gases (IBG) aponta que produção está praticamente no limite para atender demanda crescente; importação de cilindros, que demorava menos de um mês, agora leva cerca de um semestre

Priscila Mengue e Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 05h00

Em meio ao agravamento da pandemia da covid-19, fabricantes de oxigênio medicinal têm relatado limitações para dar conta do aumento da demanda. Em entrevista ao Estadão, o presidente e diretor da Indústria Brasileira de Gases (IBG), Newton de Oliveira, afirmou que a produção está praticamente no limite. A White Martins, multinacional que atua em diferentes partes do Paí, aponta aumento de 56% na demanda.

“O consumo vinha subindo paulatinamente, mas, nas últimas semanas, ficou meio exponencial. Aí começa a haver problemas”, afirma Oliveira. “Tanto nas fábricas quanto na logística, as capacidades são finitas. Chega um momento que a sua capacidade é aquela (no limite).”

Em todo o País, multiplicam-se relatos de dificuldades de conseguir o insumo hospitalar. Como o Estadão mostrou, 54 cidades paulistas estão com o estoque crítico e, na capital, também houve transferências de pacientes às pressas. No interior gaúcho, seis pacientes morreram semana passada após falha na distribuição de oxigênio. O Ministério da Saúde afirma que o estoque em 13 Estados preocupa. 

Segundo Oliveira, os relatos de escassez hoje se devem mais à logística do que à produção, mas isso pode mudar. “Estamos correndo para tentar apagar uma fogueira. Hospitais que tinham (abastecimento) uma vez por semana, precisam agora uma, duas vezes por dia. É um crescimento vertiginoso”, comenta.

Ele estima estar atuando com 95% da capacidade total máxima. “Envolve tudo: motoristas especializados, que têm treinamento. Se dobra o consumo dos hospitais, você não consegue dobrar o número de funcionários a curto prazo”, comenta. Por isso, sugere que o poder público faça cartilhas de orientação para evitar o desperdício nas unidades. Outra reivindicação é a vacinação dos motoristas das carretas contra a covid-19, já que costumam entrar em hospitais.

O diretor cita que o aumento da demanda também tem gerado problemas nos sistemas já em funcionamento de hospitais e unidades de atendimento que utilizam tanques. Nesses mecanismos, quando a demanda é maior do que a calibrada, o oxigênio líquido nem sempre é totalmente vaporizado, gerando o congelamento da estrutura e, consequentemente, panes no sistema. “Tem hospital que está consumindo 4, 5, 6 vezes mais do que consumia”, destaca.

A IBG tem quatro fábricas, três em Jundiaí (SP) e uma em Santa Catarina, das quais partem produtos para Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. São cerca de 400 hospitais atendidos, privados e públicos, além de prefeituras e outros contratantes. Entre as medidas para aumentar a produção, está a maximização da extração do oxigênio e minimização do nitrogênio, a partir do ar. Com o aumento da demanda na Saúde, a IBG também passou a ser mais procurada por indústrias que necessitam de oxigênio industrial. 

Em paralelo, a importação de cilindros para o abastecimento de oxigênio gasoso também foi afetada. Uma compra, da Áustria, que levaria de três a quatro semanas, agora pode demorar até seis meses para chegar, segundo Oliveira. 

White Martins teve crescimento de 56% na demanda brasileira por oxigênio

A multinacional White Martins relata ter identificado alta de 56% na demanda por oxigênio medicinal na 1ª quinzena de março em relação ao mesmo período de dezembro. “Os clientes da White Martins nos estados do Ceará, Minas, Mato Grosso, Pará, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Distrito Federal, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina têm apresentado um consumo de oxigênio expressivo no momento”, apontou, em nota.

No comunicado, a empresa diz ter  “alertado exaustivamente todos os seus clientes medicinais dos setores público e privado” que o abastecimento de oxigênio não depende apenas da produção. “Muitos hospitais têm apresentado um aumento de consumo de oxigênio que vai além da sua capacidade de estoque instalada e da sua própria infraestrutura hospitalar de redes e central reserva de cilindros.”

A White Martins ainda criticou a transformação de unidades de pronto-atendimento em espaços para leitos de internação. “Algumas unidades não contam com infraestrutura apropriada, como tanques de estocagem de oxigênio e redes centralizadas para o gás, ou não têm a dimensão adequada para a expansão do consumo.”

Preocupação é com hospitais municipais de pequeno porte e no interior, diz secretário

Secretário de Saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas diz que a preocupação é com hospitais municipais de pequeno porte, no interior, abastecidos com cilindros de oxigênio. “Usavam um cilindro por mês, se transformaram em PA (pronto-atendimento) para covid e, de uma hora para outra, o consumo explodiu.”

Ele disse ter requisitado ao ministério a devolução de 300 cilindros emprestados durante a crise de oxigênio no Amazonas. Ainda conforme o secretário, em alguns municípios foi preciso remover pacientes para outras unidades ou fechar leitos diante da incapacidade de atender pacientes da covid em unidades sem oxigênio.

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