REUTERS/Jason Lee
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Coronavírus é teste para China; autoridades enfrentam críticas por falta de transparência

Número de mortes pela doença já chega a 17 no país; infectados já são mais de 400. Há receio da propagação ainda maior por causa dos deslocamentos provocados pela feriado do Ano Novo chinês

Javier C. Hernández, The New York Times

22 de janeiro de 2020 | 13h01

WUHAN, CHINA - Sob pressão crescente para tentar conter o avanço do coronavírus, o Partido Comunista da China estabeleceu restrições severas na cidade onde teve início o surto e alertou que qualquer pessoa que ocultar infecções será "marcada para sempre no pilar da vergonha da história".

A resposta da liderança chinesa, muito criticada por ter demorado a reconhecer a gravidade do problema, veio depois que as mortes em decorrência da doença chegaram a 17 no país. A quantidade de infectados pela doença subiu para 440 e os mercados financeiros globais ficaram agitados com a possibilidade de uma epidemia durante o Ano Novo Chinês, a época mais intensa em termos de viagens na Ásia.

Casos de pneumonia causados pelo vírus também já foram confirmados nos Estados Unidos, em Taiwan, Japão, Tailândia e Coreia do Sul. Aeroportos em todo o mundo, incluindo Estados Unidos e Austrália, monitoram passageiros vindos de Wuham. A Coreia do Norte fechou temporariamente suas fronteiras para turistas estrangeiros, a grande maioria chineses. A Organização Mundial de Saúde (OMS) convocou uma reunião para quarta-feira, 22, para decidir se declara estado de emergência de saúde pública internacional.

Em Wuhan, cidade que fica na região central da China, com 11 milhões de habitantes, onde teve início o problema, as autoridades proibiram viagens de turismo e ordenaram que os veículos sejam inspecionados para saber se transportam animais vivos. Moradores estão comprando máscaras faciais e lotando os hospitais para reportar febres e tosse. Algumas escolas cancelaram aulas e até templos budistas estão recusando a entrada de fiéis.

As autoridades chinesas enfrentam demandas, de dentro e fora do país, para serem mais transparentes nos seus informes sobre a doença, à medida que novos casos surgiram em outras grandes cidades do país. Já foi confirmado que o vírus se propaga por meio do contato humano.

O avanço do coronavírus é um teste para o líder Xi Jinping e a propensão do Partido Comunista em manter segredo em momentos de crise. O surgimento da doença ocorre dezessete anos depois de o país ter sido muito criticado por reter informações e agir com lentidão no enfrentamento do surto de SARS (síndrome respiratória aguda grave) que matou mais de 800 pessoas e infectou mais de oito mil em todo o mundo.

Xi, que ambiciona expandir a influência global da China, parece ansioso para afastar a sombra da SARS e mostrar que o país consegue enfrentar uma crise de saúde pública como uma potência mundial responsável. Uma comissão de alto nível do partido informou categoricamente que não vai tolerar qualquer tentativa de ocultar as infecções.

“Qualquer pessoa que deliberadamente demorar ou ocultar informações tendo em vista seus próprios interesses 'será pregada na coluna da infâmia da história”, foi a mensagem da comissão em uma postagem em uma rede social.

Na segunda-feira, 20, a comissão esclareceu que adotará medidas para enfrentar a doença, incluindo o informe obrigatório de casos. Classificou o vírus como epidemia infecciosa classe B - uma categoria que inclui doenças como a SARS.

Mas o governo, receoso de que o medo se espalhe e fique fora de controle, também trabalha para conter as informações sobre o vírus, censurando as notícias na imprensa e postagens em redes sociais a respeito. A polícia em Wuhan investigou seis cidadãos acusados de propagarem o que foi descrito como "rumores na internet".

Agora, mesmo com o governo trabalhando para isolar pacientes doentes em meio a viagens de milhões de pessoas no feriado do Ano Novo Chinês - e infecções sendo reportadas em Pequim, Xangai, Chongqing e outras grandes cidades - permanece a preocupação de que a relutância do partido em divulgar notícias possa prejudicar os esforços para controlar o vírus.

Durante semanas, o governo tratou o surto como um problema isolado restrito à cidade de Wuhan. Foi somente depois de a mídia de Hong Kong informar que casos de coronavírus tinham sido detectados em outros lugares que o governo chinês passou a admitir que a doença se propagou para outras localidades.

Muitos se perguntaram qual o motivo de o governo chinês ter esperado até segunda-feira para permitir que um especialista em saúde pública falasse publicamente sobre a epidemia. E ele não só corroborou a informação veiculada na mídia de Hong Kong, mas confirmou nova informação: a de que o vírus se propaga entre pessoas e de que um paciente havia infectado mais de uma dezena de funcionários da saúde.

“A resposta não é rápida e nem vigorosa o bastante”, declarou Shen Zhengjiang, 57 anos, professor, que comprava máscaras faciais em uma farmácia em Wuhan. “As autoridades locais agora começaram a prestar atenção porque Xi Jinping ordenou”.

O governo chinês, que foi elogiado pela OMS por seus esforços até agora, disse ter levado mais tempo para analisar o coronavírus que, para os especialistas, parece ser transmitido para os humanos por animais. O atraso em reportar a propagação da doença foi atribuído a problemas tecnológicos e burocráticos. 

Alguns hospitais não tinham os kits para testes, de acordo com declarações de Zhong Nanshan, conhecido cientista que lidera a comissão de especialistas nomeada pelo governo para ajudar no controle da doença. O processo também teria demorado porque os hospitais locais devem submeter os casos à comissão de saúde do governo central em Pequim para serem revistos antes de se serem tornados públicos.

Durante semanas, as autoridades em Wuhan descartaram a ameaça do vírus. O departamento de saúde informou que o vírus havia sido encontrado apenas em pessoas que visitaram o mercado local que vende peixes e outros animais vivos, e que o mercado foi desinfetado e fechado.

Mas casos surgiram no exterior, primeiro envolvendo viajantes da Tailândia e do Japão que visitaram Wuhan, mas não foram ao mercado. Na terça-feira, 21, o primeiro caso confirmado nos Estados Unidos foi anunciado: um homem que residia em Washington manifestou sintomas da doença depois de voltar da região de Wuhan.

Questionamentos foram feitos em rede social chinesa perguntando se o governo estaria evitando ser aberto nas suas comunicações. Muitos artigos e postagens foram censurados. Em Wuhan, as autoridades não permitem que grupos de turistas viajem para fora da cidade e inspeções são feitas em carros em busca de animais vivos. A cidade também instalou termômetros infravermelhos nos aeroportos, ônibus e estações de trem.

Mas foi somente na segunda-feira, 20, que o governo mudou a estratégia, depois que agências de notícias em Hong Kong reportaram sete casos potenciais da doença em Xangai e Shenzen. O governo então enviou Zhong para Wuhan.

Zhong, em aparições na TV, revelou pela primeira vez que o vírus pode se propagar de uma pessoa para outra, observando que um paciente infectou 14 funcionários da área médica. Alertou que o vírus está presente em partículas de saliva e insistiu para as pessoas evitarem viagens desnecessárias a Wuhan. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO 

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