Yves Herman / Reuters
Yves Herman / Reuters

Estudo com corticoide reduziu mortes por covid-19 em 1/3, dizem cientistas ingleses

Estudo randômico, que ainda não foi publicado em revista científica, avaliou eficácia da dexametasona, um forte anti-inflamatório usado em doenças reumatológicas, em pacientes graves internados com a covid-19

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2020 | 10h37
Atualizado 18 de junho de 2020 | 10h28

Pesquisadores ingleses anunciaram nesta terça-feira, 16, que a aplicação de um corticoide barato conhecido como dexametasona em pacientes internados com covid-19 foi capaz de reduzir as taxas de mortalidade dos pacientes mais graves, submetidos à ventilação, em cerca de um terço. É o primeiro medicamento testado até agora contra a doença causada pelo novo coronavírus com resultados na sobrevida. Não houve ganho, porém, em pacientes que não precisam de ajuda para respirar.

A droga, um potente anti-inflamatório e imunossupressor usado desde a década de 1960 em doenças reumatológicas (como artrite) e alérgicas (como asma), foi aplicada dentro de um amplo estudo clínico randômico chamado Recovery, que investiga seis potenciais terapias contra a covid em mais de 11 mil pacientes.

No teste com a dexametasona, 2.104 pacientes receberam doses de 6 mg da droga uma vez ao dia por dez dias. Após 28 dias, a situação deles foi comparada à situação de 4.321 pacientes que receberam apenas os cuidados habituais.

Ao apresentar os resultados à imprensa nesta terça, os pesquisadores da Universidade de Oxford afirmaram se tratar de um "grande avanço". Os dados, porém, ainda não foram submetidos a avaliação dos pares e não foram publicados em revista científica. Os cientistas disseram que, dada a importância desses resultados para a saúde pública, estão trabalhando para publicar todos os detalhes o mais rápido possível.

O medicamento também está sendo avaliado no Brasil pela Coalização Covid Brasil, esforço coordenado pelos hospitais Sírio Libanês, Albert Einstein, HCor, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz e Beneficência Portuguesa (BP) para testar diversas drogas candidatas. A expectativa é ter resultados em agosto. No País, a marca mais conhecida do remédio é o Decadron, mas há também versões genéricas. 

O grupo de Oxford informou que, entre os pacientes que receberam a medicação, houve redução de um terço das mortes entre os pacientes submetidos à ventilação mecânica e de um quinto em outros pacientes que recebiam apenas oxigênio. Não houve benefício para os pacientes que não necessitaram de suporte respiratório.

Já entre os pacientes que receberam os cuidados usuais, a mortalidade em 28 dias foi de 41% naqueles que necessitaram de ventilação, de 25% nos pacientes que precisaram apenas de oxigênio e de 13% entre aqueles que não necessitaram de intervenção respiratória.

No comunicado à imprensa, Peter Horby, professor de doenças infecciosas emergentes do Departamento de Medicina de Nuffield da universidade, e um dos principais autores do trabalho, disse que a dexametasona é a primeira droga que mostrou ser capaz de melhorar a sobrevida de pacientes com covid-19.

"Este é um resultado extremamente bem-vindo. O benefício de sobrevivência é claro e grande nos pacientes que estão doentes o suficiente para necessitarem de tratamento com oxigênio. Portanto, a dexametasona deverua agora se tornar padrão de atendimento nesses pacientes. A dexametasona é barata na prateleira e pode ser usada imediatamente para salvar vidas em todo o mundo", disse. 

Outro autor do trabalho, Martin Landray, professor de medicina e epidemiologia do Departamento de Saúde da População de Nuffield, afirmou na nota que os resultados preliminares do estudo são claros: "A dexametasona reduz o risco de morte em pacientes com complicações respiratórias grave". Ele disse também considerar "fantástico" que um tratamento capaz de reduzir a mortalidade "seja instantaneamente disponível e disponível em todo o mundo".

"Este é um resultado que mostra que, se pacientes que têm covid-19 e estão em ventiladores ou em oxigênio receberem dexametasona, isso salvará vidas e a um custo notavelmente baixo", complementou Landray em coletiva à imprensa online. "Vai ser muito difícil para qualquer medicamento realmente para substituir isso, já que por menos de 50 libras (cerca de R$ 326), você pode tratar oito pacientes e salvar uma vida", disse.

Repercussão

Após a divulgação dos dados, o secretário de Estado da Saúde e Assistência Social do Reino Unido, Matt Hancock, divulgou um vídeo em sua conta no twitter afirmando que vai adotar o remédio na rede pública do País.

"Este é o primeiro ensaio clínico bem-sucedido para um tratamento contra o novo coronavírus que salva vidas, reduzindo a mortalidade em até um terço e protegendo ainda mais nosso Serviço Nacional de Saúde", disse. "Estamos trabalhando com o Serviço Nacional de Saúde para que o tratamento padrão contra a covid-19 inclua a dexametasona a partir da tarde desta terça-feira. Agradeço aos brilhantes pesquisadores da Universidade de Oxford", complementou.

Ele disse ainda que o governo começou a armazenar a dexametasona há vários meses porque estava esperançoso quanto ao potencial da droga e que já tem 200 mil doses em mãos.

Os resultados também foram saudados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) por mostrarem que a droga pode salvar vidas de pacientes criticamente doentes. A OMS afirmou que vai coordenar uma “meta-análise para aumentar a compreensão geral dessa intervenção” e vai atualizar suas diretrizes sobre a covid-19 “para refletir como e quando o medicamento deve ser usado”.

Riscos e cuidados: ‘não é para correr até a farmácia’, dizem especialistas

Especialistas ouvidos pelo Estadão disseram que a notícia é animadora, mas recomendaram  atenção. Primeiro ao fato de os detalhes do estudo ainda não terem sido divulgados. Em segundo, ao perfil dos pacientes que se beneficiaram no estudo.

O pneumologista Fred Fernandes, do Hospital das Clínicas de São Paulo e presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia, alerta que os resultados do estudos, apesar de promissores, não são justificativa para corridas às farmácias. O remédio, conforme os resultados do estudo, é de uso hospitalar.

“A dexametasona mostrou redução na mortalidade de quem precisa de ventilação ou está com o oxigênio baixo, mas em quem não têm essas condições, nos quadros mais leves não houve benefício. Não é para o cara que recebe um diagnóstico e é mandado para casa passar na farmácia e comprar”, afirma o pneumologista Fred Fernandes, do Hospital das Clínicas de São Paulo e presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia.

O médico intensivista Luciano Azevedo, do Sírio Libanês, que é o principal investigador do estudo que está sendo conduzido no Brasil com a droga,  também frisa esse risco e alerta que o estudo Recovery, do Reino Unido, não é indicativo para uma corrido às farmácias. Ele teme que médicos que não sejam pesquisadores prescrevam para pacientes que não tenham as as condições demonstradas com benefício no estudo. Houve redução de 33% do risco de morte para pacientes graves, submetidos à ventilação, e de 20% para pacientes que precisavam de oxigênio. Não houve benefício para casos leves. 

“Quando o estudo for publicado, se o benefício ficar claro, será para usar o medicamento em hospital. Não é para todos, nem para prevenção”, diz Azevedo.

“Não é uma cura. Houve redução da mortalidade, mas houve pacientes que morreram mesmo com a medicação. E esse é um recurso a mais para ser usado dentro de toda a estrutura de saúde. O melhor tratamento ainda é ter terapia intensiva funcionando e adequada. Não adianta ter uma droga e não ter UTI boa. Mas o fato de ver uma medicação na qual temos já experiência de uso, com a qual sabemos manejar e contornar os efeitos colaterais, com bons resultados, é um alento”, complementa Fernandes.

Para a bióloga Natália Pasternak, do Instituto de Biociências da USP, essa talvez seja a melhor notícia da pandemia até o momento. "É de um grupo sério, que fez um estudo robusto, com muita gente, randomizado, com grupo controle, foi feito com calma. Tem as vantagens de ser um estufo feito com rigor científico. É a primeira droga que aparece que tem o potencial de salvar a vida de alguém", diz, antes de ponderar: "Mas a comunidade científica quer ver o estudo."

Clovis Arns da Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, também se empolgou. "Finalmente temos uma boa nova", disse em nota à imprensa. Ele destacou que a medicação é barata e de acesso universal e o fato de o estudo clínico inglês ser randomizado e com grupo controle, o que aumenta a segurança sobre os resultados.

A infectologista Rosana Richtmann, da Sociedade Brasileira de Infectologia, alertou para os riscos para a saúde provocados pelo corticoide. “Exatamente por ter uma potente ação antiinflamatória, ele pode também diminuir a nossa defesa. Paradoxalmente, quem toma corticoide em dose alta ou por muito tempo, pode inclusive ter complicações infecciosas, como problemas de osteoporose, diabetes, reduzir a resposta imune, retenção de líquido, engorda”, afirmou. “É muito importante falar dos efeitos adversos, para as pessoas não irem às farmácias comprar e se entupir de corticoides por conta própria."

Comparação com outras drogas

Atualmente, não existem tratamentos ou vacinas aprovados para a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus que matou mais de 440.000 pessoas em todo o mundo. No Brasil já são mais de 45 mil vítimas.

Em todo mundo, segundo levantamento feito no início de junho, mais de 150 drogas e vacinas estão sendo testadas em mais de 1.700 estudos com pacientes que contraíram covid-19. A maioria dos remédios, porém, ainda está em fase muito inicial dos estudos pi apresentou resultados somente em testes com poucas pessoas.

Alguns dos trabalhos que mais avançaram foram com os antimaláricos cloroquina e a hidroxicloroquina, mas os resultados são pouco animadores. As drogas têm se mostrado pouco eficazes para tratar a doença.

"Diferentemente da cloroquina, a dexametasona é um medicamento com plausibilidade biológica para que seja adjuvante no tratamento da covid-19. Os resultados anunciados mostram diferença expressiva de mortalidade. No entanto, para que essa medicação seja realmente tão efetiva na vida real quanto foi no estudo científico, os cuidados intensivos oferecidos em nossas UTIs precisam ser de alta qualidade. O básico precisa ser bem feito para que a dexametasona possa realmente salvar um terço dos tratados", afirma o médico e pesquisador Ricardo Schnekenberg, que tem acompanhado de perto os estudos clínicos contra a doença.

Outro medicamento com alguns resultados promissores é o antiviral remdesivir, usado originalmente contra o ebola. Estudo preliminar, mas também com grupo controle e randomizado, publicado em 22 de maio no New England Journal, mostrou que o tempo de recuperação em pacientes hospitalizados por coronavírus foi um pouco menor para aqueles que tomaram o medicamento em comparação com os pacientes que receberam placebo.

Quem recebeu o remdesivir se recuperou, em média, após 11 dias, contra os 15 dias daqueles que tomaram placebo. A mortalidade ficou um pouco menor entre os pacientes que tomaram, mas a redução não é considerada significativa.

Também se destaca o tocilizumabe, que impede a chamada tempestade inflamatória, mas o estudo feito com o remédio até agora teve poucos pacientes. O Brasil também está testando o medicamento.  / COM PABLO PEREIRA

Resumidamente:

  • O que é a dexametasona: É um corticoide usado contra doenças reumatológicas, como artrites, e alérgicas, como asma. Ele atua como um potente anti-inflamatório. No Brasil, o produto de referência é o Decadron, mas também há versões genéricas. 
  • Efeitos colaterais: O uso indiscriminado do medicamento, de forma crônica, pode causar vários problemas como retenção de líquidos, levando à hipertensão; hiperglicemia e descompensação de diabetes. O remédio também é um imunossupressor, diminuindo as defesas próprias do organismo.
  • Limitações do estudo: O ensaio clínico  no Reino Unido mostrou que a dexametasona só reduziu  a taxa de mortalidade de pacientes graves de covid-19, que dependam de ventilação ou estejam com oxigenação baixa. A aplicação recomendada é  hospitalar. Não há indicação para casos leves nem para prevenção. 

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