Luis Robayo/AFP
Luis Robayo/AFP

Grávidas com zika enfrentam dilema do aborto na Colômbia

Com 25 mil casos registrados, o país sul-americano registra apenas um caso de microcefalia, o que desafia os pesquisadores

Nicholas Casey, The New York Times

02 Março 2016 | 08h00

CÚCUTA (COLÔMBIA) - Margarita Rosa Barrios estava grávida de seis semanas quando começou a sentir sintomas que deixam toda futura mãe apreensiva: olhos inchados, dor nas articulações, três dias de febre. Como temia, estava com o vírus zika.

Margarita, de 24 anos, sabe que há relatos de milhares de bebês nascidos com a cabeça anormalmente pequena durante a epidemia no Brasil e que os pesquisadores de lá dizem que o vírus é o culpado. E ela não está esperando só um filho. Está grávida de gêmeos.

Quase 3 mil grávidas na Colômbia estão na mesma situação torturante de Margarita, recuperando-se do zika e passando por um dilema terrível. Diferentemente do Brasil, na Colômbia algumas grávidas têm a chance de interromper a gravidez, pois as leis permitem o aborto em certos casos.

O país é agora a segunda frente na batalha contra o zika nas Américas. Pelo menos 25 mil colombianos contraíram o vírus e as autoridades dizem que esse número pode chegar a 600 mil.

Porém, ao contrário do Brasil - onde se estima que as infecções chegaram a 1,5 milhão desde 2014 -, na Colômbia, os primeiros casos foram detectados apenas em outubro. A maioria das mulheres grávidas que contraiu a doença neste país não deu à luz e há apenas um caso confirmado de bebês nascidos com cabeça anormalmente pequena, condição conhecida como microcefalia.

Isso colocou as mulheres daqui na difícil posição de considerar - e, em alguns casos, fazer - o aborto, mesmo antes que casos de microcefalia tenham sido registrados.

"Há muita coisa que ainda não sabemos sobre essa doença. O que sabemos é que há cada vez mais disparidades entre o que vemos com o zika na Colômbia e a experiência no Brasil", disse Fernando Ruiz Gómez, vice-ministro da Saúde da Colômbia.

A Colômbia é um dos poucos países da América Latina com leis de aborto que permitem que as mulheres interrompam a gravidez sob várias circunstâncias, incluindo estupro, defeitos de nascimento que tornam um feto incapaz de sobreviver fora do útero ou a presença de riscos para a saúde física ou psíquica da mãe.

Os abortos legais continuam a ser raros, mas há sinais de que a lei esteja passando por um grande teste. Algumas autoridades médicas dizem que a microcefalia é motivo para aborto e que vão oferecer o procedimento para as grávidas se o feto mostra sinais do quadro.

Outros foram mais longe.

Margarita disse que seus médicos se ofereceram para realizar um aborto, mesmo não havendo provas de que os bebês que ela carrega tenham microcefalia. "O médico me perguntou se eu estava pronta para ter dois filhos deformados. Como você diz isso para uma mãe?"

Vanesa, de 28 anos, que vive na cidade costeira de Barranquilla, disse que decidiu interromper a gravidez depois que contraiu o vírus zika. Um ultrassom mostrou o que os médicos disseram poder ser uma deformidade, possivelmente microcefalia. "Eu chorei muito. Somos católicos, acreditamos em Deus, mas decidimos não ter o bebê", disse Vanesa, que pediu que seu nome completo fosse omitido porque não queria que outras pessoas soubessem que ela fez um aborto.

A questão é mais complexa porque não há provas científicas ligando o zika à microcefalia em recém-nascidos. Autoridades internacionais de saúde dizem que existe uma "forte suspeita", mas advertem que pode levar meses para que haja certeza.

Mesmo que o zika cause microcefalia, muitas vezes não dá para prever como um bebê será afetado. Crianças microcefálicas podem sofrer de uma ampla gama de deficiências mentais e físicas, mas algumas, cerca de 10%, não apresentam limitações.

O vírus zika se espalhou por 250 cidades e vilarejos na Colômbia e está em Cúcuta, cidade de 650 mil habitantes na fronteira com a Venezuela que fica em uma área onde atuam os mosquitos que transmitem o vírus, além de duas outras doenças, a dengue e a chikungunya.

Nas ruas da cidade é difícil encontrar uma pessoa que não tenha tido zika ou que não conheça alguém que teve. Famílias inteiras apresentaram os sintomas.

No centro, há um grande acampamento onde dezenas de colombianos sem-teto dormem depois de terem sido expulsos da Venezuela, no ano passado, por falta de visto apropriado. Do outro lado da rua há um bueiro cheio de mosquitos.

Duas mulheres grávidas vivem no acampamento. Nenhuma delas contraiu o zika, de acordo com os moradores, mas acredita-se que todos vão ser infectados em algum momento.

Marlenia Ortíz, de 37 anos, mãe de cinco filhos, disse que um deles havia pegado a doença. No ano passado, toda a família foi infectada com chikungunya. "Ninguém escapou. A mesma coisa vai acontecer com o zika."

Para reagir à doença, autoridades colombianas pediram que as mulheres adiassem a gravidez por alguns meses, até que se saiba mais sobre o vírus e seus efeitos para os bebês. Mas, nos últimos meses, o país vem desenvolvendo o que poderia ser uma forma inovadora de controlar a doença. Iván Darío Vélez, especialista em doenças tropicais da Universidade de Antioquia, na Colômbia, disse que os cientistas de lá haviam criado com sucesso um mosquito resistente a zika, chikungunya, dengue e febre amarela.

Para criar a cepa, Vélez infectou mosquitos com bactérias que evitam que os insetos transportem o vírus. Quando esses mosquitos se reproduzem com aqueles suscetíveis à doença, seus descendentes estarão protegidos. "Os resultados são animadores", disse Vélez, citando um recente projeto-piloto perto de Medellín, no qual 80% dos mosquitos foram impossibilitados de transmitir o vírus zika.

"No principal hospital daqui, mais de 80 gestantes foram infectadas desde outubro", disse o diretor Juan Agustín Ramírez. "Quase 35% delas estavam no primeiro trimestre, quando há maior propensão de desenvolver a microcefalia", afirmou.

Ramírez disse que o hospital não havia realizado nenhum aborto relacionado ao zika, mas garantiu que todas as grávidas cujos fetos mostrem sinais de problemas terão a opção do procedimento. Segundo ele, "nenhuma mulher deve ser forçada a carregar uma criança que, em poucas palavras, é inútil para a sociedade".

Margarita Barrios não se viu nessa situação. Após se recuperar do vírus, ela conversou com o marido sobre a gravidez e a possibilidade de aborto oferecida pelos médicos. Um ultrassom mostrou que seus gêmeos estavam se desenvolvendo normalmente e o casal descartou o procedimento.

Mas Margarita continua insegura. Ela faz exames regulares para verificar se há defeitos de formação. Disse que, como católica, vai aceitar tudo o que for descoberto quando os bebês nascerem. "Se é o desejo de Deus, que assim seja", disse ela.

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