Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Mesmo com nova regra há quem prefira manter uso da máscara contra a covid-19 em locais abertos

Enquanto uns ainda não se sentem 100% seguros, outros receberam com alívio flexibilização da proteção facial em São Paulo

João Ker, Paulo Favero e Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2022 | 05h01

O decreto do governo paulista que retirou a obrigatoriedade do uso de máscaras faciais para lugares abertos dividiu opiniões. Apesar da liberação, há quem não pretenda abrir mão do equipamento neste momento no qual o Brasil tem média móvel diária superior a 500 mortes por covid-19.

Nas ruas da capital paulista, muitos abriram mão das máscaras e já adotaram a nova determinação, que exige ainda a utilização da proteção facial em ambientes fechados como transporte coletivo, escritórios e salas de aula. Já em áreas externas das escolas, em parques, trilhas, na praia ou em áreas externas não existe mais a obrigatoriedade.

Andréia de Moura, de 34 anos, pretende continuar usando máscara nas ruas. "Eu vou manter por enquanto. Eu ainda não me sinto 100% segura e tenho imunidade baixa. É um cuidado meu e também acho que é um cuidado com as outras pessoas. É um item que já faz parte da minha rotina", conta a artista visual.

Ela explica que até tomar a segunda dose da vacina ainda utilizava o face shield, aquela proteção plástica que é presa na testa e fica por cima da máscara, como um visor transparente. "No meu bairro, o povo me olhava estranho mesmo. Por causa disso, até coloquei uma ilustração minha assim nos meus perfis nas redes sociais."

Quem também não vai abrir mão da máscara tão cedo é a geógrafa Karen Heberle, de 36 anos. "Durante a pandemia, a gente ouviu os profissionais da saúde e os políticos falando que a máscara era um instrumento de proteção coletiva. Agora, liberam e isso se torna um artigo de proteção individual. Isso para mim não faz sentido. Só dá para minimizar os impactos dessa doença pensando em ações coletivas, como o uso de máscara e a vacinação. Tem muita gente que não está imunizada e ainda existe uma probabilidade de ter mutações no vírus. Acho arriscado abrir mão de formas de proteção e do meu lado vou continuar usando. Não deveríamos dar esse passo ainda", diz.

Mas a nova determinação do governo estadual trouxe alívio para algumas pessoas, como o fotógrafo Pedro Henrique Vite, de 23 anos. Ele confessa que já não utilizava muito o equipamento antes, quando estava ao ar livre. "Para mim a máscara quase nunca existiu. Até peguei covid e mesmo assim não consigo usar nas ruas. Em ambiente fechado sempre coloco, como no trabalho, mas na rua não consigo", afirma.

Debate nas escolas

O decreto 66.554 publicado nesta quarta-feira, 9, no Diário Oficial modifica um outro decreto de 2021, que também complementava as regras da quarentena, do início da pandemia. Ele dizia que "nos espaços de acesso ao público localizados no território estadual" deveria haver o uso de máscaras. Agora, o texto informa que é necessário "o uso de máscaras de proteção facial, em ambientes fechados".

Nas escolas, a determinação é que as crianças e adolescentes permaneçam utilizando as máscaras nos espaços fechados, como as salas de aula, mas poderão retirar para as atividades ao ar livre. O Colégio Equipe, em Higienópolis, região central da capital, informou que não vai cumprir a medida e continuará exigindo máscaras em toda a escola.

“Nossa estrutura física tem poucos espaços abertos. Nossa assessoria médica não considera prudente abandonar o uso de máscara”, disse a diretora Luciana Fevorini. Segundo ela, nem todos os alunos estão vacinados ainda porque tiveram covid recentemente e não puderam ser imunizados. “Não tem sido um problema o uso para nossa comunidade.” O colégio também foi um dos últimos a voltar ao ensino presencial e enfrenta resistência de grupos de pais que discordam das posições da direção.

Muitas escolas ainda estavam decidindo o que fazer após o anúncio do governo paulista e consultando assessorias de saúde para saber em que ambientes as máscaras podem ser liberadas.

O Colégio Bandeirantes, que fica no Paraíso, enviou nesta quarta-feira comunicado aos pais retirando a obrigatoriedade do uso de máscaras nas áreas externas. “Os alunos já souberam e começaram a tirar no intervalo”, conta o gerente de desenvolvimento humano e operações do Bandeirantes, Guilherme Aguiar.

O colégio consultou o Hospital Sírio Libanês, que faz assessoria à escola nos protocolos de covid, e mapeou as áreas onde a máscara não será mais exigida. As aulas no ginásio de esportes, mesmo sendo ventilado, continuarão com a proteção facial. No pátio, cantina e na quadra externa, está liberada. Os inspetores, segundo ele, também já foram treinados para pedir para os adolescentes recolocarem as máscaras ao voltarem do recreio e entrarem no prédio.

Já o Colégio Santa Cruz, localizado no Alto de Pinheiros, vai comunicar nesta quinta-feira, 10, os estudantes sobre o novo protocolo e a partir de sexta-feira liberará as máscaras nas áreas externas da escola.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, infectologista e epidemiologista da Unesp

Há algum risco considerável em liberar, neste momento, o uso de máscaras nos locais abertos?

O risco sempre existe, mas em algum momento isso tem que ser liberado. Precisa acontecer aos poucos e é melhor que seja em locais abertos, como em São Paulo, do que em fechados, como no Rio de Janeiro. 

Podemos considerar que esse já é um passo fundamental para “sairmos” da pandemia?

Sem dúvidas, é uma medida de saída da pandemia e tem sido tomada em vários países que notaram queda abrupta dos casos. Mas ainda não saímos da covid. É possível que a medida gere novos casos, mas não significa necessariamente uma próxima onda.

Com essa nova medida, que cuidados continuam sendo necessários em relação ao coronavírus? E quem deve tomá-los?

O uso das máscaras, acredito, deve ser agora uma decisão individual. Pessoas que têm comorbidade, idosos e não-vacinados deveriam continuar usando, porque o risco ainda é grande. Ainda é preciso evitar também as aglomerações. Precisamos entender que estamos caminhando para o fim da pandemia, mas ela ainda não terminou.

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