Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Surto já pressiona SUS e rede privada; hospitais têm até 1/3 dos leitos só com pacientes de covid

Há unidades no País com quase 40% dos leitos ocupados por pacientes com infecção suspeita ou confirmada pelo coronavírus

Fabiana Cambricoli e Paula Felix, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Embora o pico do surto de coronavírus ainda não tenha sido alcançado no Brasil, os sistemas de saúde público e privado já enfrentam sobrecarga por causa do aumento do número de internações e registram até 38% de seus leitos ocupados por pacientes com infecção suspeita ou confirmada da doença.

O Estado coletou dados e ouviu relatos de profissionais e pacientes de 12 hospitais da rede pública e particular do País. As informações mostram que, com o número crescente de internações por problemas respiratórios nas unidades, UTIs já estão no limite, pacientes esperam mais de 24 horas por leitos e hospitais veem sua capacidade ser tomada cada vez mais por pacientes com sintomas da covid-19. 

Só na rede Sancta Maggiore, que conta com oito unidades administradas pela operadora Prevent Senior, já são 275 pessoas hospitalizadas com suspeita ou confirmação da doença, o equivalente a 38% de um total de 727 leitos. Nos Hospitais Sírio Libanês e Albert Einstein, os pacientes com quadro provável de covid-19 já ocupam mais de 20% dos leitos existentes. No Sírio, são 120 hospitalizações de um total de 479 leitos, o equivalente a 25% da capacidade. No Einstein, são 128 internados com suspeita ou confirmação de coronavírus para 637 leitos (20% do total). Ao menos 37 deles estão na UTI.

Hospitais de fora de São Paulo e de menor porte também já observam o impacto da epidemia. No Albert Sabin, unidade com 60 leitos na Lapa (zona oeste), metade da UTI já está preenchida por pacientes com suspeita ou confirmação de coronavírus. No Moinhos de Vento, um dos hospitais mais importantes de Porto Alegre, 62 leitos estão ocupados por pessoas com sintomas de covid-19 e 25% da UTI tem pacientes com quadros graves da doença.

Leitos de terapia intensiva são os que estão sofrendo primeiro o impacto da alta demanda provocada pelo surto, conforme relatos de médicos ouvidos pelo Estado. “Hoje abrimos a terceira UTI exclusiva para pacientes com suspeita da doença. Abrimos uma, lotou. Abrimos a segunda e lotou. Se continuar assim e não forem abertos locais extras, daqui a duas semanas não teremos leitos suficientes”, relata o infectologista Munyr Ayub, do Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André, no ABC paulista.

O especialista, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, diz que cada uma das UTIs do hospital comporta 14 pacientes e está sendo ocupada rapidamente. É o que conta também a intensivista Amanda Veiga, do Hospital Geral do Grajaú.  “A gente não fica com leito vago nem na UTI respiratória nem nas outras. O que mais angustia é que estamos fechando UTIs para o coronavírus, mas as outras doenças não param. Existem mil outros pacientes também precisando de UTI”, diz. (Leia o relato completo dela: 'É muito ruim pensar que posso adoecer e não vou querer meus pais por perto')

Situação semelhante é observada na Santa Casa de São Paulo. “Da semana passada para cá começaram a chegar mais casos graves. A UTI de adulto já está no limite porque, além do aumento de casos, o tempo de permanência dos pacientes graves é alto. Então chegam novos pacientes e não conseguimos liberar o leito de quem chegou na semana passada porque não tem uma rotatividade rápida”, conta Marco Aurélio Safadi, médico da Santa Casa e professor de infectologia da Faculdade de Ciências Médicas da instituição.

No Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, uma das UTIs já foi dedicada exclusivamente aos pacientes com covid-19. Ao menos 30 pacientes estão em estado grave na unidade, segundo funcionários relataram à reportagem.

A alta demanda já faz doentes encontrarem dificuldades para internação. No último fim de semana, a aposentada N., de 74 anos, esperou 24 horas por um leito de UTI sentada em uma cadeira de plástico do pronto-socorro do Hospital Santa Marcelina, na zona leste.

Com dores no peito e febre, ela ficou confinada em uma sala pequena com outros quatro pacientes à espera da vaga. “Ela chegou às 20 horas do sábado, fez tomografia e o médico disse que já tinha lesão no pulmão e provavelmente era por covid-19. Como ela é idosa, ele já encaminhou para UTI, mas só foram liberar o leito dela às 20 horas do domingo. Isso porque ela estava na parte do convênio e não do SUS”, conta a filha de N., que não quis se identificar porque a mãe ainda está internada no local. Procurado, o Santa Marcelina não respondeu aos questionamentos da reportagem.

A velocidade com que as hospitalizações têm crescido em poucos dias chama a atenção dos profissionais e gestores dos centros médicos. No Hospital São Paulo, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o número de internados com suspeita ou confirmação de infecção por coronavírus dobrou em apenas quatro dias - passou de 24 pacientes no dia 27 de março para 46 no dia 31, segundo boletins publicados no site da instituição.

De acordo com os hospitais, só não há falta de leitos porque, com o adiamento de procedimentos eletivos, houve uma diminuição das internações por outras causas, deixando mais vagas livres para pacientes com covid-19. As redes também apostam em ampliação de leitos para pacientes graves.

“Cancelamos todos os nossos atendimentos não urgentes e estamos prontos para abrir três novos hospitais nos próximos meses por causa do surto”, afirma Pedro Batista Junior, diretor-executivo da Prevent Senior.

Einstein e Sírio estão transformando leitos comuns em UTIs. A Hapvida, maior operadora de planos de saúde do Nordeste e que já tem 68 pacientes com a doença, também anunciou que transformará 220 leitos de baixa complexidade em vagas de UTI.

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