Bruno Kelly/ Reuters
Bruno Kelly/ Reuters

'Quando vemos que não tem mais jeito, iniciamos a morfina', diz médica sobre doentes sem oxigênio

Residente de hospital de Manaus se voluntariou para ventilar manualmente pacientes, mas um deles não resistiu; sedativos e analgésicos são usados para diminuir sofrimento e dar conforto ao doente nos últimos momentos de vida

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 21h16

SÃO PAULO - Com o cenário caótico de falta de oxigênio nos hospitais de Manaus, médicos de outras alas e unidades foram chamados por colegas para atuar como voluntários na assistência a doentes que estavam entubados - a maioria com covid - e ficaram sem o insumo.

A mão de obra extra foi convocada informalmente por grupos de whatsapp para ajudar a ventilar manualmente pacientes por meio de uma bomba, procedimento conhecido como ambuzar.

Leia abaixo o relato de uma médica de 30 anos, residente do Hospital Universitário Getúlio Vargas, que se apresentou como voluntária na UTI covid na manhã desta quinta-feira, 14, e teve que ajudar a ambuzar três pacientes. Um deles morreu. Por medo de retaliações, ela preferiu não se identificar.

"O estoque de oxigênio acabou no Hospital Getúlio Vargas por volta das 6h30. Sou médica residente e não costumo trabalhar diretamente no atendimento a pacientes com covid, mas, quando soube do que estava acontecendo, fui para a ala covid como voluntária porque os colegas precisavam de ajuda para ambuzar  (ventilar manualmente) os pacientes. Nesse procedimento, a gente fica apertando uma bolsa ininterruptamente para bombear manualmente o oxigênio para o paciente.

Aquilo cansa. Quando uma pessoa da equipe chega ao limite da exaustão, ela reveza com outra. Durante o tempo que fiquei na UTI, ajudei a ambuzar três pacientes. Um deles, de 50 anos, morreu na minha frente. Quando a gente vê que não tem mais jeito, iniciamos a morfina, para dar algum conforto. Tivemos que fazer isso com ele. Demos morfina e midazolam (sedativo). A gente já chorou e não sabe mais o que fazer. Só no Getúlio Vargas, foram pelo menos cinco óbitos pela falta de oxigênio.

Perto das 11 horas, começaram a chegar alguns cilindros vindos de doações. Os médicos fizeram campanha na internet pedindo que pessoas que tivessem algum estoque em casa levassem para o hospital. Foi isso que ajudou a controlar um pouco a situação. Mas como o número de cilindros não era grande, a gente estimou que aquilo ia dar para algumas horas só.

Saí de lá à tarde, nem passei em casa e vim direto para o pronto-socorro 28 de Agosto, outro hospital que está prestes a ficar sem oxigênio. Eles também chamaram médicos voluntários para ajudar a ambuzar pacientes. Estou aqui agora. São 17 horas e a previsão é que o oxigênio acabe daqui a uma hora. Já bebi água, já fui ao banheiro e agora, infelizmente, estou só esperando acontecer."

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