Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Queiroga diz que partiu de Bolsonaro orientação para rever vacina de adolescentes

Em transmissão nas redes sociais, ministro da Saúde contou sobre apelo do presidente; governo federal orientou suspender imunização de jovens sem comorbidades, o que contrariou especialistas e gestores locais

Eduardo Gayer, Daniel Galvão e Rafael Beppu, O Estado de S. Paulo

16 de setembro de 2021 | 20h20

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou nesta quinta-feira, 16, que partiu do presidente Jair Bolsonaro a orientação para rever a vacinação de adolescentes. Mais cedo, a pasta recomendou a interrupção da aplicação de doses em pessoas de 12 a 17 anos sem comorbidades, como diabete, problema cardíaco ou deficiência física. A Anvisa, porém, manteve a autorização do imunizante da Pfizer para essa faixa etária.

A nova determinação pegou gestores de surpresa e foi alvo de críticas de especialistas. Segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações, "não há evidências científicas que embasem a decisão". Os conselhos de secretários estaduais e municipais de Saúde  afirmaram que a decisão de Queiroga não tem "respaldo técnico e científico". 

"O que o Ministério da Saúde fez? Na nota técnica 40 da Secovid (Secretaria de Enfrentamento à Covid-19), retirou os adolescentes sem comorbidades. O senhor tem conversado comigo sobre esse tema e nós fizemos uma revisão detalhada no banco de dados do dataSUS", afirmou Queiroga, em transmissão nas redes sociais ao lado de Bolsonaro. 

"Minha conversa com o Queiroga não é uma imposição. Eu levo para ele o meu sentimento, o que eu leio, o que vejo, o que chega ao meu conhecimento. Você pode ver como está a situação: a OMS é contra a vacinação entre 12 e 17 anos. A Anvisa, aqui no Brasil, é favorável à vacinação de todos adolescentes com a Pfizer. É uma recomendação. Você é obrigado a cumprir a recomendação?', questionou o presidente. Queiroga respondeu: "Não. Eu não sou obrigado". 

O presidente destacou que a Anvisa recomenda a vacinação de adolescentes com Pfizer, mas que isso não seria uma obrigação. Ainda afirmou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) é contrária à vacinação de adolescentes, quando, na verdade, a entidade apenas recomenda a priorização dos grupos mais vulneráveis. Nas redes sociais, apoiadores do presidente vinham criticando duramente a vacinação de adolescentes.

"Tenho visto alguns governadores e prefeitos obrigando a vacinar essa garotada. Deixo claro: a OMS é contra qualquer vacina. Em 12 a 17 anos. A lei federal, que está aqui, diz que você pode vacinar de 12 a 17 com comorbidades. A Anvisa diz que é apenas Pfizer. E tem governadores e prefeitos impondo qualquer tipo de vacina, não interessa quem seja o menor", afirmou Bolsonaro na transmissão ao vivo ao lado de Queiroga. "Se tivermos efeitos colaterais graves, quero saber quem vai se responsabilizar. Nós aqui estamos fazendo a coisa certa. Tem a lei que estamos seguindo. Ele aqui pôs a Pfizer."

Durante a live, Queiroga voltou a criticar  governadores e prefeitos, que estariam descumprindo o Plano Nacional de Imunização (PNI) ao antecipar a vacinação de adolescentes - e, segundo o ministro, utilizando, inclusive, marcas de vacinas não autorizadas pela Anvisa para a faixa etária. "Estou surpreso com mais de 3,5 milhões adolescentes vacinados desde agosto", disse o ministro. "Alguns governadores e prefeitos estão obrigando a vacinar a molecada. Se tiver efeitos colaterais graves, eu quero saber quem vai se responsabilizar", acrescentou Bolsonaro.

A Anvisa, contudo, emitiu nota na noite desta quinta-feira mantendo a liberação de uso da vacina da Pfizer em adolescentes e reforçou a existência de dados de segurança e eficácia.

Questionado durante a transmissão se iria se vacinar para participar do evento da Organização das Nações Unidas (ONU), que exigiu de diplomatas comprovante de imunização, Bolsonaro respondeu: "Para quê que vou tomar? Agora, todo mundo já tomou a vacina no Brasil? Depois que todo mundo tomar, vou decidir meu futuro aí", afirmou, mostrando teste que aponta a presença de anticorpos para a covid. O ministro da Saúde, no entanto, não se convenceu. "991 (de nível de imunoglobulina G, o IgG, um marcador de anticorpos). Tem que fazer o dos anticorpos neutralizantes, viu, presidente? Está bem, o senhor está bem. Mas o senhor precisa se vacinar."

Ministro promete desobrigar uso de máscaras

O ministro ainda disse que prevê, em breve, publicar nova normativa para desobrigar o uso de proteção oficial - item cujos estudos científicos mostram ser fundamental para conter o espalhamento do novo coronavírus. Segundo Bolsonaro, a portaria deve ser editada "brevemente". 

"Em breve, nós teremos essa desobrigação de usar máscaras. Quem quer usar máscaras, usa. Mas essa mania de querer criar lei para tudo... Daqui a pouco tem uma lei para obrigar as crianças irem para a escola vacinadas. Não precisa de vacina para ir para a escola", disse Queiroga em transmissão ao vivo nas redes sociais ao lado do presidente Jair Bolsonaro. "À medida que o cenário epidemiológico melhore", acrescentou o ministro.

Em um novo ataque às vacinas, Bolsonaro declarou ainda que ele, sem se vacinar, está com mais imunidade do que aqueles que tomaram Coronavac. "Não tem comprovação científica", atestou Bolsonaro, disparando críticas ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), que resolveu obrigar servidores públicos a se vacinarem. "Quem tomou Coronavac, complicou". A Anvisa, contudo, concedeu autorização de uso emergencial para a Coronavac.

Queiroga ainda garantiu que não faltarão doses de vacinas para a população brasileira. No entanto, foi registrado nos últimos dias um "apagão" de vacinas da AstraZeneca, o que levou estados como São Paulo a utilizar Pfizer em cidadãos com a segunda dose de Oxford atrasada.

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