Lee Jin-man/AP Photo
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'Robôs do proselitismo': por dentro da igreja sul-coreana no centro do surto

Desde que a igreja foi identificada como o epicentro de infecções no país, no mês passado, ela se tornou alvo de críticas, desprezo e ódio declarado

Choe Sang-Hun, The New York Times

13 de março de 2020 | 11h43

SEUL, CORÉIA DO SUL - Mais de 1,2 milhão de cidadãos exigiram a dissolução da igreja secreta. Uma província pediu que o público denunciasse os membros da igreja em uma linha direta para testes de coronavírus. Aplicativos para smartphones ajudam a identificar as 1.100 instalações da igreja até então ocultas na Coreia do Sul, a maioria já sinalizadas como "zona proibida" pelas autoridades de controle de doenças.

Mesmo antes do flagelo do coronavírus, a Igreja de Jesus Shincheonji da Coreia do Sul vinha enfrentando uma crescente suspeita sobre suas táticas para atrair dezenas de milhares de novos fiéis. Mas, desde que a igreja foi identificada como o epicentro de infecções no país, no mês passado, ela se tornou alvo de críticas, desprezo e ódio declarado.

O fundador, Lee Man-hee, de 88 anos, que prometeu a seus 240 mil fiéis entrar no "novo céu e nova terra", agora é objeto da investigação de um promotor sobre possíveis assassinatos.

Pais de fiéis o acusam de "escravidão com lavagem cerebral". Ex-membros o descrevem como mais um charlatão espiritual da Coreia do Sul, país que é terreno fértil para seitas religiosas não tradicionais.

A grande maioria dos mais de 7.500 pacientes com coronavírus da Coreia do Sul faz parte da Shincheonji de Daegu, cidade do sudeste do país, ou são pessoas que entraram em contato com esses fiéis. Um outro conjunto de casos surgiu em Cheongdo, condado perto de Daegu terra natal de Lee e destino de peregrinação para seus seguidores.

A igreja protestou contra o que chamou de "escolha de um bode expiatório" pelos sul-coreanos, ansiosos por desacreditar esta que vem sendo a seita religiosa que mais cresce no país, enquanto outras grandes igrejas sofrem com o declínio dos fiéis.

"Toda a sociedade se enfureceu contra nossa igreja desde o surto do vírus", disse Lee Young-Soo, de 54 anos, membro da Shincheonji cuja irmã, também fiel da igreja, morreu depois de ter caído de seu apartamento no sétimo andar de um prédio na cidade de Ulsan, no mês passado. Ela disse que sua irmã lhe confidenciara que os abusos que desde longa data sofria nas mãos de seu marido por causa da igreja se intensificaram após o surto do vírus.

Outra fiel da Shincheonji que, segundo as autoridades da igreja, também sofria abuso conjugal, uma mãe de 42 anos e dois filhos, morreu depois de ter caído de seu apartamento no décimo primeiro andar, na noite de segunda-feira. A polícia está investigando os dois casos.

"A sociedade está muito errada e eu estou muito triste", disse Lee Young-Soo. Ainda assim, a igreja está inextricavelmente ligada à disseminação da doença na Coréia do Sul, um dos maiores surtos fora da China.

A natureza clandestina da igreja constitui um dos motivos pelos quais ela se tornou foco da raiva e do medo no país. As autoridades que enfrentam o surto de coronavírus vêm encontrando dificuldades para localizar e examinar os membros da igreja.

Kwon Jun-Wook, alto funcionário do Departamento de Controle de Doenças, disse no mês passado que, quando seus agentes tentaram contatar os membros da igreja, eles descobriram que muitos estavam incomunicáveis. O prefeito de Daegu disse na terça-feira que dezenas de fiéis da Shincheonji devem se submeter a exames imediatamente, ou enfrentar multas. A cidade de Seul acusou Lee e seus discípulos de não fornecerem listas de membros completas.

"Lee Man-hee é um psicopata que mentiu e continuou mentindo até acreditar na própria mentira de que era o verdadeiro messias", disse Jeong Ji-su, ex-discípulo que deixou a igreja em julho passado.

A era dos Messias

Lee está longe de ser a primeira pessoa que afirma ser um messias na Coreia do Sul. O xamanismo – a adoração de várias divindades, entre elas pais mortos, guerreiros antigos e espíritos das montanhas – infundiu a sociedade por milênios, interagindo com religiões recém-chegadas, como o cristianismo, e tornando alguns coreanos propensos a adotar novos sistemas de crenças, disse Koo Se-woong, estudioso que pesquisa religiões coreanas.

"Prometer um novo mundo e uma 'Nova Jerusalém' não é novidade entre as igrejas cristãs da Coreia do Sul", disse Koo. À medida que o país sofria com guerra e privações no século passado, surgiram 120 autoproclamados messias prometendo um novo mundo de paz, 70 deles arregimentando multidões consideráveis. O mais conhecido é o Rev. Sun Myung Moon, fundador da Igreja da Unificação, que morreu em 2012.

Alguns foram presos por fraude ou estupro, outros caíram em desgraça quando o arrebatamento que prometeram nunca se realizou. Mas seus apóstolos se dividiram e se espalharam, reinventando-se sob novas seitas. Lee era um deles.

Na primeira vez em que soube da igreja, em setembro de 2016, Jeong, de 25 anos, estava correndo por uma estação de metrô de Seul. Duas mulheres de aparência amigável e um jovem de sua idade perguntaram se ela poderia dedicar alguns minutos para dar sua opinião sobre o roteiro de um filme.

Eles entraram em um restaurante fast-food, onde começou sua iniciação. Ela se tornou membro de pleno direito em julho de 2017. Jeong disse que sofreu lavagem cerebral e passou os dois anos seguintes recrutando jovens como ela.

Os recrutadores da Shincheonji procuram converter pessoas que possam estar vulneráveis. Por isso, tentam descobrir problemas pessoais, como a baixa autoestima, no caso de Jeong. Eles oferecem aconselhamento, constroem uma relação de amizade e convencem os recrutas de que os estudos bíblicos podem ajudar, disseram ex-membros.

"A igreja inteira era uma fraude", disse Jeong. "Quando os missionários miram em você, todas as pessoas que se aproximam de você supostamente por acaso são membros da Shincheonji, só que você não sabe disso".

Outros ex-membros relatam que missionários os abordaram com leituras gratuitas de cartas de tarô, testes de personalidade ou aulas de língua estrangeira.

"Os jovens são atraídos pela Shincheonji em momentos como este, quando as oportunidades diminuem. A igreja aumenta as esperanças de emprego como pastores e pregadores e promete uma vida espiritualmente satisfatória, prometendo até mesmo vida eterna e alto sacerdócio quando o mundo novo chegar", disse Kim Seong-Ja, de 58 anos, ex-membro.

Os jovens convertidos costumavam morar juntos em quartos baratos e lotados, disseram ex-membros. Namoros e quaisquer outras distrações do objetivo de conquistar novos fieis eram desencorajados.

"Não éramos nada além de robôs do proselitismo", disse Lee Ho-yeon, de 24 anos, ex-membro. "Gastava o mínimo possível com comida e usava o pouco dinheiro que tinha no bolso para comprar café no Starbucks para as pessoas que eu queria converter".

Por causa da imagem suspeita da Shincheonji, os missionários adiavam a revelação de sua afiliação até o momento em que consideravam que seus recrutas estavam prontos, disseram antigos membros.

Depois de passarem em provas escritas após meses de estudos bíblicos, os convertidos participavam de uma cerimônia de iniciação espetacular. A vida como membro da igreja incluía reuniões, missões de proselitismo nas ruas e relatórios diários sobre quantas pessoas eles tentaram recrutar e como estavam seus recrutas nos estudos bíblicos, disseram ex-membros.

"Eles diziam que não tinha problema mentir para os pais, porque as mães também chamavam xarope amargo de chocolate quando precisavam cuidar de um bebê doente", disse Stella Seo, de 29 anos, que esteve na Shincheonji por sete anos, até o final de 2018.

'Nos ensinaram a não ter medo da doença'

A prática de negar a filiação passou a ser a maneira como alguns membros da igreja reagiram ao surto de coronavírus. Os sul-coreanos ficaram indignados quando se revelou, no mês passado, que os membros da igreja haviam recebido uma mensagem pedindo que negassem sua afiliação à Shincheonji e continuassem fazendo proselitismo mesmo depois que o surto foi registrado na congregação.

A Shincheonji disse que a instrução não era uma política da igreja e que havia punido o funcionário que a publicara.

Embora os métodos de recrutamento da Shincheonji tenham sido condenados por ajudarem a espalhar o vírus, sua abordagem há muito vem irritando as igrejas mais tradicionais, que a acusam de enviar missionários disfarçados, conhecidos como "colhedores", a suas congregações para roubar seus fiéis.

Algumas vezes, os colhedores foram acusados de semear a discórdia dentro de uma igreja para assumir seu controle, um feito muito comemorado entre os membros da Shincheonji.

A Shincheonji disse que ex-membros descontentes e igrejas tradicionais alarmadas com o fato de suas congregações terem encolhido espalharam rumores falsos para desacreditar a igreja.

Mas, em vídeos de palestras internas assistidos pelo New York Times, uma instrutora de proselitismo disse que a velha maneira de fundar uma igreja e depois construir uma congregação "é muito cara, exige muita mão de obra e consome muito tempo".

"É mais fácil engolir as igrejas existentes", disse ela a um coro de amém. "Mas você tem que manter essa estratégia em segredo".

Lee Man-hee defendeu a resposta da igreja ao surto e a Shincheonji emitiu declarações através de um porta-voz, repetindo que a igreja estava cooperando com o governo e exigindo o fim do "bode expiatório".

Eo Kwang-il, de 38 anos, membro da Shincheonji, disse que, por causa do preconceito esmagador contra sua igreja, os fiéis esconderam a afiliação e usaram artifícios para conquistar novos conversos. Mas ele disse que a igreja nunca forçou os membros a abandonar a escola ou o emprego por causa do proselitismo.

A maneira como a igreja conduz seus encontros, porém, chamou a atenção como fator de propagação da doença. Os fiéis se sentam aos montes no chão e vão aos cultos mesmo quando estão doentes, dizem ex-membros.

"Nos ensinaram a não ter medo de doenças", disse Lee Ho-yeon, que deixou a igreja em 2015. Em 9 de fevereiro, um líder da igreja se gabou com seguidores que, embora centenas de pessoas tenham morrido em Wuhan, na China, onde o surto começou, nenhum fiel da Shincheonji ficara doente, de acordo com o arquivo de áudio do sermão, divulgado por Yoon Jae-Deok, especialista em grupos religiosos como a Shincheonji.

O governo alertou repetidas vezes que a batalha contra o coronavírus depende da rapidez com que os membros da igreja infectados podem ser isolados. Lee pediu que eles "sigam as instruções do governo", evitem reuniões e façam trabalho missionário apenas online.

Alguns pais, como Choi Mi-sook, de 56 anos, mãe de Kim Yoo-jeong, 25, membro da Shincheonji, continuam preocupados. "Eu não sei nem onde ela mora, se está com coronavírus, se está bem ou até mesmo viva", disse a mãe. / Tradução de Renato Prelorentzou

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