REUTERS/Ricardo Moraes
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Variante Delta: o que o Brasil deve fazer para conter essa nova ameaça?

Especialistas destacam necessidade de reforçar medidas preventivas e acelerar a vacinação contra a covid-19; nova cepa do coronavírus já circula em São Paulo

Leon Ferrari, Especial para o Estadão

08 de julho de 2021 | 10h00

Registrada pela primeira vez na cidade de São Paulo na segunda-feira, 5, a variante Delta (B.1.617), detectada originalmente na Índia, tem renovado as preocupações sobre o futuro da pandemia no País. Isso ocorre diante do avanço da cepa observado em países da Europa, ainda que no Brasil sua disseminação seja incipiente - pelo menos conforme os dados oficiais. A estratégia para combater essa ameaça, dizem especialistas, envolve medidas já conhecidas, como distanciamento e máscaras, além de aceleração da vacinação e vigilância genômica. 

“Na medida em que essa transmissibilidade aumenta por essa cepa, a pandemia é reaquecida”, diz o infectologista Martoni Moura e Silva. Para conter o avanço da variante, na opinião dele, é preciso reforçar medidas preventivas e acelerar a vacinação contra a covid-19. Responsável pelo agravamento da pandemia na Índia, a Delta é considerada como “variante de preocupação” pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e, conforme a entidade, já circula em 98 países. 

Estudos apontam que a variante é mais transmissível do que a Alfa, descoberta pela 1ª vez no Reino Unido. Nos Estados Unidos, onde a vacinação ocorre a passos largos, a Delta já representa mais de 25% dos novos casos. Segundo o Financial Times, a cepa era responsável por mais de 90% das infecções no Reino Unido e em Portugal no fim de junho, além de avançar na Alemanha, França e Espanha. Esse cenário já freia os planos de reabertura das atividades econômicas em vários pontos da Europa. 

Sandra Coccuzzo Sampaio Vessoni, diretora do Centro de Desenvolvimento Científico do Instituto Butantan, porém, acredita que a Delta deve encontrar dificuldades para se estabelecer no Brasil. “Os municípios estão com 70% a 100% de casos da variante P.1. (a Gama, originalmente identificada em Manaus). Mesmo achando uma variante importante, o fato de ter uma muito disseminada faz com que não seja fácil alcançar o mesmo 'hub'”, explicou em entrevista ao Estadão.

“Nos outros países onde a Delta se estabeleceu, não havia uma prevalência da variante Gama como no Brasil”, declara Eduardo Macário, superintendente de vigilância em Saúde de Santa Catarina. Ele também acredita que o avanço da cepa indiana no País é uma incógnita.

Veja algumas das medidas apontadas por especialistas:

Rastreio de casos 

Em um primeiro momento, o infectologista Martoni Moura e Silva acredita ser preciso rastrear as possíveis infecções pela variante no País. “Precisamos isolar os diagnósticos e todos seus contatos." Para ele, um isolamento de dez dias é suficiente para evitar que o paciente contaminado transmita a cepa a outros.

Nesse sentido, também aponta que as barreiras sanitárias precisam ser ainda mais rigorosas. “Precisamos de agilidade das vigilâncias sanitárias dos aeroportos e das cidades onde casos de variantes foram detectadas”, afirma. O Estadão mostrou nesta quarta-feira que apenas um entre 18 dos maiores aeroportos do País possui uma barreira sanitária operante. O único com essa estrutura em funcionamento é o terminal de Congonhas, na zona sul de São Paulo. 

Testagem 

Outro ponto essencial para o controle da variante Delta, na visão de Silva, é detectar precocemente os infectados. “As pessoas precisam estar vigilantes e buscar espontaneamente pelos testes, para evitar contaminar as pessoas que amamos ou as com quem convivemos no trabalho, por exemplo", sugere. 

No caso de aparecimento de sintomas, Eduardo Macário orienta o indivíduo a buscar imediatamente uma unidade de saúde, onde deve ser examinado e testado. Feito isso, é necessário manter-se isolado e comunicar as pessoas com quem teve contato nas últimas 48h sobre a possibilidade de estar contaminado.

A adoção de estratégias de testagem pelo poder público e por empresas é outra frente importante para monitorar o espalhamento do vírus. Países bem-sucedidos na contenção da pandemia, como a Nova Zelândia, apostaram nesse tipo de ação. No Brasil, entretanto, o governo federal falhou na implementação de programas de testagem e chegou a deixar cerca de 6,8 milhões de exames encalhados no estoque, como revelou o Estadão

Vigilância genômica 

Diante da quantidade significativa de casos assintomáticos da covid-19, Macário acredita que conter uma variante só por meio de barreiras sanitárias pode encontrar dificuldades. “No momento em que estamos, de alta transmissibilidade, a melhor medida é investir em vigilância genômica”, aponta o epidemiologista. 

Como explica Silva, a vigilância genômica é o “sequenciamento genético de cepas infectantes”. Ao sequenciar o coronavírus, ambos os especialistas acreditam ser possível prever e conter o avanço de novas variantes no País. O Brasil, no entanto, não tem estrutura robusta de laboratórios que consiga fazer o sequenciamento em várias regiões e com a velocidade necessária. 

Vacinação 

Como explica Eduardo Macário, conter o avanço de uma variante não é uma tarefa fácil. Nesse sentido, destaca que aumentar a cobertura vacinal do País contra a covid-19 pode ser crucial. “Acelerar a vacinação significa evitar a necessidade de hospitalização de um paciente”, diz.

Silva concorda com ele e acrescenta a necessidade de discutir mais sobre a possibilidade de encurtamento do intervalo de aplicação entre as duas doses do imunizante contra a covid-19. 

No Brasil, as vacinas da AstraZeneca e da Pfizer têm intervalo entre doses de até três meses; a Coronavac, por sua vez, respeita período máximo de 28 dias. Em São Paulo, o governo estadual já cogita reduzir o período entre doses, conforme declarou o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, na quarta-feira,, 7.  Pelo menos cinco Estados já resolveram adotar essa estratégia. 

Medidas de prevenção 

Diante da dificuldade de decretar um lockdown nacional para frear o vírus, Silva e Macário reforçam a necessidade do uso adequado de máscaras, da manutenção do distanciamento social, da higienização frequente das mãos com álcool em gel 70º e de evitar deslocamentos não essenciais. As medidas devem ser adotadas mesmo entre aqueles que já estão com a imunização completa. 

Tendo em vista a alta transmissibilidade da Delta, o superintendente em vigilância sanitária de Santa Catarina afirma ser perigosa toda atividade que exija retirar a proteção facial, como ingerir alimentos em locais públicos, por exemplo. A máscara utilizada, no entanto, não pode ser qualquer uma. “É preciso usar uma proteção facial com filtragem adequada, não as de pano”, recomenda Silva. Na opinião dele, a peça ideal é a PFF2, também conhecida como N95. 

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