TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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'Verba para pesquisa continua difícil', diz cientista que sequenciou 1º genoma do coronavírus

Professora do Instituto de Medicina Tropical da USP, Ester Sabino faz parte do grupo que fez o primeiro sequenciamento do País, há quase um ano, mas relata dificuldades financeiras, logísticas e burocráticas para seguir estudos

Entrevista com

Ester Sabino, professora do Instituto de Medicina Tropical da USP

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2021 | 20h26

SÃO PAULO - Apenas 48 horas depois da confirmação do primeiro caso de covid-19 no País, o grupo de pesquisa liderado por Ester Sabino no Instituto de Medicina Tropical da USP divulgava ao mundo o genoma sequenciado do vírus identificado no Brasil. A celeridade recorde gerou comoção e apoio de famosos e anônimos nas redes sociais. Os pesquisadores do grupo, em sua maioria mulheres, foram destaque em várias reportagens. Com a repercussão, o grupo chegou a receber um financiamento do grupo Todos pela Saúde para uma pesquisa sobre prevalência da infecção por covid na população brasileira.

Mas passado um ano do primeiro diagnóstico nacional e do feito dos cientistas brasileiros, a dificuldade para conseguir mais recursos para pesquisa e limitações logísticas e burocráticas continuam, conta Ester.

Em entrevista ao Estadão sobre balanço de um ano da pandemia, a pesquisadora diz que o País ainda não trata a ciência como prioridade e ressalta que, para termos respostas rápidas sobre vacinas e novas variantes é preciso um investimento alto e contínuo em pesquisa. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Você trabalha há anos com doenças emergentes. Esperava que o novo coronavírus causaria uma pandemia dessa dimensão?

O que estava acontecendo na China parecia muito grave. Quando chegou aqui, a gente já tinha experiência na Itália e tudo indicava que seria uma grande epidemia. Mas minha expectativa era de que a gente teria algum controle, que a gente tinha um plano. E, aparentemente, no começo, enquanto estava o ministro Mandetta, ele estava conseguindo deixar as coisas claras, tomar algumas atitudes, ter uma liderança a nível nacional. De alguma forma, ele tinha uma resposta. Tinha uma liderança que explicava para a população o que tinha que fazer. Algumas coisas saíram muito fora do controle e a gente não entende até hoje. A cidade de Manaus, por exemplo, a gente não entende por que a situação foi tão dramática, mas o fato é que algumas cidades do País conseguiram ter uma curva mais achatada. Na medida que o ministro do governo federal, que orquestrava as respostas, caiu, a gente ficou totalmente sem um maestro, desafinou a orquestra. É quase inviável você responder a uma pandemia dessa forma, sem nenhuma articulação, colocando recurso em coisas que não funcionam, mentindo para a população. E a esperança de que talvez a primeira infecção desse uma imunidade para uma segunda infecção não se concretizou.

Essa maior possibilidade de reinfecção está associada à disseminação de novas cepas?

É uma mistura de tudo: as novas cepas com a perda ou não existência da imunidade da primeira infecção.

E mesmo com esse cenário de novas cepas, possibilidade de reinfecção e aumento de casos, parte da população segue sem cumprir as medidas básicas. O que explica isso?

Meu trabalho é virologia, não tenho essa visão de sociologia, mas vou falar como cidadã e não como pesquisadora da área. Acho que as pessoas cansam de uma determinada postura quando ela atrapalha a vida. Quando você tem lideranças que falam: ‘não, não é bem assim’, ‘olha, agora temos esse remédio maravilhoso’, é uma fala negacionista que acaba facilitando que as pessoas deixem de aderir a medidas que elas consideram que estão atrapalhando a vida delas. É algo tentador seguir esse discurso, e ele não é de pouca gente, é de muita gente: de lideranças, de presidente, de prefeitos.

Quando seu grupo sequenciou o primeiro genoma do coronavírus no Brasil em tempo recorde, vocês foram reconhecidos e aclamados. Isso trouxe mais recursos e reconhecimento ao trabalho de vocês?

No trabalho de sequenciamento genético, nós ainda estamos trabalhando com o projeto Fapesp e recebemos recursos do grupo Todos pela Saúde, num trabalho que a gente fez com o banco de sangue. As fontes de financiamento foram essas. Foi um ano bem intenso. Teve uma comoção, mas cientificamente é um trabalho simples, é uma sequência genética. Depois fizemos um grande número de sequências, publicamos um trabalho na Science, que é uma das revistas-chave para a nossa área, mostramos como a epidemia entrou, detectamos a B.1.1.7 (variante britânica) junto com o Dasa, também tivemos a descrição da P.1 em Manaus. Os japoneses encontraram antes, mas a gente delineou e descreveu. A gente teve um trabalho maior de sequenciamento, com algumas limitações no segundo semestre. A gente ficou sem reagente, teve que parar por dois meses. Treinamos gente do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Manaus para fazer sequenciamento. Foi um ano bem ativo.

Como foi essa dificuldade de exportação de reagentes que paralisou o trabalho de vocês por dois meses no segundo semestre do ano passado?

O processo de importação no Brasil é complexo para a pesquisa. Então, por exemplo, se você está sequenciando a P.1 e pede um primer (iniciador da reação) nos Estados Unidos, em três ou quatro dias ele está no seu laboratório. Aqui, são 30 dias. Você não consegue chegar no momento que precisa em uma epidemia. O que aconteceu no ano passado foi que a gente pediu, demorou e, quando chegou, o reagente não estava em boas condições. Daí a gente pediu de novo e demorou mais 30 dias. 

Nesse caso não foi um problema de verba, então?

Não, é um problema estrutural de como esse tipo de reagente não tem prioridade na liberação, é sempre difícil. Se o pessoal comprar lá e mandar para a gente, às vezes para na alfândega. Tem que fazer um monte de documentação. Não existe urgência na resposta.

Essa verba da Fapesp era para um projeto de arboviroses anterior à pandemia. E esse investimento do Todos pela Saúde foi algo mais atípico, focado na emergência do coronavírus. De forma geral, continuam as dificuldades para conseguir verba para pesquisa?

Continuam e vão continuar. A gente teve sorte com esses dois projetos. Acho que a maioria dos meus colegas não tiveram tanto investimento. É um momento difícil, um momento para a sociedade como um todo acordar que se investe pouco em ciência. O fato de a ciência estar na conversa já percebo um interesse maior em mudança, mas os investimentos, em sua maioria, foram para a vacina, e acho que tinham que ser mesmo, mas as pessoas têm que perceber que esse investimento tem que ser contínuo porque não pode ser de sopetão, a ciência não faz de uma hora para outra. A gente só conseguiu sequenciar rápido porque já tinha esse projeto da Fapesp andando há quatro anos, desde o zika. Se não tivesse isso, a gente não ia sequenciar rápido. Se a gente quer ter vacina nossa, precisamos ter um programa sustentável por 20 anos para conseguir começar a fazer as nossas próprias vacinas. Não adianta começar e parar. Isso é a pior coisa porque você forma as pessoas e perde uma geração porque não consegue mantê-las. Então, tem que ter continuidade. Ciência não é uma coisa que pode parar o investimento. Se você diminui investimento, é dramático, porque tem que começar tudo de novo porque tudo muda muito rápido.

E vocês estão indo atrás de mais recursos agora?

Sim, a gente sempre está porque o projeto da Fapesp termina no começo do ano que vem.

O protagonismo que vocês tiveram na pandemia deu alguma facilidade para vocês conseguirem mais financiadores?

Deu no Todos pela Saúde, mas em outros, ainda não. A Fapesp, enquanto não termina um projeto, ela não vai dar outro. Ela deu uma ajuda nesse projeto, mas, agora, só no ano que vem. Para a Fapesp, o que importa é o que a gente produziu, então a gente vai ter uma vantagem porque a gente teve uma boa produção científica.

Você citou os estudos publicados. O da Science sofreu algumas críticas de que vocês teriam estimado uma prevalência da infecção muito alta em Manaus (o que alimentou discussões sobre imunidade de rebanho). Como você avalia esse estudo hoje, depois de Manaus ter vivido um novo pico?

Na questão da prevalência, algumas pessoas reclamam dizendo que a gente superestimou. Na verdade, nós já fizemos por vários métodos, testamos com outros grupos e sempre o resultado é muito parecido. Se fosse a minha escolha pessoal, eu preferia que eu tivesse errado porque a consequência de você ter uma epidemia grande em pessoas previamente com anticorpo significa que a imunidade natural não dá proteção a longo prazo. Então toda essa história de passaporte de imunidade e que tinha que ir atrás da imunidade de rebanho natural não vai funcionar. Para mim, é isso que (o estudo) mostra, que é muito mais difícil conter e que, mesmo quando você tem muitas pessoas que já tiveram uma infecção, isso não previne uma segunda onda. Acho que é importante porque, se nós não tivéssemos medido, as pessoas iriam concluir que tinha uma segunda onde porque muitas pessoas não tinham pegado antes. O fato de a gente mostrar o que aconteceu na presença de uma população que já se infectou significa exatamente que não vai funcionar nenhum desses formatos de imunidade de rebanho natural.

Algumas pessoas acabaram usando esses dados justamente para defender a imunidade de rebanho…

Se alguém usou dessa forma é porque não leu o estudo. Estava claro que era um valor teórico, uma sentinela para saber quanto tempo dura a imunidade. Desde o começo eu estou falando isso, que não é imunidade de rebanho, é um valor teórico, depende de ter imunidade permanente. E não é o que acontece, estamos vendo muitos casos de reinfecção em Manaus.

De que forma essa polarização e esses discursos negacionistas que usam indevidamente estudos científicos atrapalharam o trabalho de vocês?

Atrapalha bastante porque às vezes fica uma agressividade desnecessária de alguns colegas cientistas. É muito ruim. Foi muito estresse desnecessário para o grupo. 

Voltando às novas cepas, é comum termos variantes com tantas mutações importantes depois de apenas um ano do surgimento da doença?

Nós não esperávamos. O que a gente achava é que isso teria pouca chance de acontecer e que as vacinas viriam antes dessas cepas tão diferentes. Acho que o maior problema é que a gente não sabe ainda como elas apareceram. Não sabemos como ela adquiriu 20 mutações de uma vez só. Quando a gente entender, talvez a gente consiga fazer um prognóstico melhor de como elas aparecem. 

O que esperar dessas cepas no impacto sobre as vacinas?

Temos que botar muito dinheiro para fazer mais pesquisas para ter essa resposta. Não temos dados. Tem vários grupos fazendo em vários locais, mas é um esforço que precisava ter muito recurso para ser feito de forma rápida. 

E essa busca dos cientistas para mais financiamento ocorre em meio ao contingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (que teve sua liberação vetada pelo presidente Jair Bolsonaro)...

É um absurdo. As pessoas querem saber se a vacina vai funcionar para a nova cepa e não dão recurso para responder a pergunta. A conclusão é: pensem bem quando vocês votam e olhem se a pessoa que vocês estão votando é favorável à ciência.

 

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