Morteza Nikoubazl/Reuters
Morteza Nikoubazl/Reuters

Prevalência de aids entre homens que fazem sexo com homens aumenta 140% em 7 anos

Segundo pesquisa do Ministério da Saúde, uso de preservativos entre jovens em geral é o menor da série histórica

Lígia Formenti*, Enviada especial de O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2017 | 20h22

CURITIBA - A prevalência de aids entre jovens homens que fazem sexo com homens (HSH) aumentou 140% entre 2009 e 2016. Os números do avanço, considerado expressivo, foram identificados em uma pesquisa encomendada pelo Ministério da Saúde e coordenada pela professora Lígia Kerr, da Universidade Federal do Ceará (UFC). 

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Conduzido a partir de entrevistas feitas em 12 cidades brasileiras, o trabalho também identificou um aumento da prevalência entre HSH de forma geral, mas com velocidade menor do que no grupo abaixo dos 25 anos. Quando se analisam os dados gerais, a prevalência da população com HSH com HIV passou de 12,1% para 18,4% - 1,5 vez maior.

Na apresentação, Lígia atribuiu em parte o aumento ao fenômeno da "medicalização" da prevenção, em que o uso de antirretrovirais é apontado como a melhor arma para se evitar o HIV, deixando de lado outras estratégias importantes. A pesquisadora citou ainda a globalização do comportamento. O problema não estaria restrito ao Brasil, mas presente em outros países.

O estudo foi apresentado nesta quarta-feira, 27, durante o 11º Congresso de HIV/Aids e o 4º Congresso de Hepatites Virais, e faz parte e um  conjunto de três pesquisas encomendadas pelo Ministério da Saúde para nortear novas estratégias de prevenção ao HIV/aids.

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Militares

Outro trabalho, a partir de entrevistas com 37 mil jovens de 17 a 20 anos que se alistavam nas Forças Armadas, também deixa evidente a maior vulnerabilidade do grupo de HSH. A pesquisa, conduzida pela pesquisadora Rosa Sperhacke, da Universidade de Caxias do Sul (UCS), revela que no grupo de conscritos em geral, 0,12% era portador do HIV. Uma taxa semelhante a da que havia sido apresentada na versão anterior do trabalho, em 2007.

Embora não haja uma comparação com a edição anterior, os números da edição mais recente mostram que os jovens HSH têm um risco mais de 10 vezes superior ao dos jovens em geral. Para esse grupo, a taxa de prevalência de HIV foi de 1,32%.

"Há uma vulnerabilidade maior, o que indica a necessidade de realizarmos medidas direcionadas. Ver o que de fato é necessário, ir além do preservativo", afirmou a coordenadora do departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Adele Benzaken. 

Além da prevalência de HIV, a pesquisa com jovens que se alistaram no Exército avaliou sífilis e uma série de comportamentos. O estudo identificou um aumento expressivo aumento de casos de sífilis. Em 2007, 0,53% dos jovens apresentavam o vírus. Esse número agora saltou para 1,63%. Mais uma vez, os indicadores disparam com homens jovens que fazem sexo com homens. No grupo, a prevalência foi de 5,22%.

A preocupação da coordenadora com a prevenção não é à toa. Resultados do trabalho com os conscritos mostram que 73,7% dos entrevistados já haviam tido relação sexual, dos quais 32,2% antes dos 15 anos. Desse total, 20,4% relataram que já haviam tido relação sexual com mais de 10 pessoas. E, embora 60,9% relatem ter usado  preservativo na primeira relação sexual, apenas 33,9% dizem usar em todas as relações, independentemente do parceiro. Esse é o menor porcentual da série histórica da pesquisa com os conscritos, que está em sua sexta edição. Para se ter uma ideia, em 2000, o porcentual era de uso regular era de 49,7%.

"O uso do preservativo de forma geral se desgastou. A gente precisa mudar o discurso, de forma que possamos atingir essas pessoas. Trabalhar com linguagem mais moderna, ver o que de fato é necessário", afirma Adele.

Sexo pago

O Ministério da Saúde recebeu ainda dados relacionados a profissionais do sexo. O trabalho identificou um aumento de menores de 14 anos que fazem sexo pago, o aumento de casos de sífilis entre as profissionais e, ao mesmo tempo, uma melhora nos indicadores de preservativos. O trabalho revelou ainda uma redução das taxas de profissionais que fazem exames ginecológicos.

"Uma hipótese para o aumento da sífilis entre esse grupo, embora as taxas de aids estejam inalteradas, é a de que essas mulheres não usam a camisinha com seus parceiros, apenas no trabalho", observou. 

* A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO DEPARTAMENTO DE DST, AIDS E HEPATITES VIRAIS DO MINISTÉRIO DA SAÚDE 

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