DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
Passageira é vista com máscara no metrô de São Paulo DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Brasil já monitora 132 suspeitas de coronavírus, mas governo estima cerca de 300 possíveis casos

Pasta diz que número deve continuar subindo e projeta cerca de 300 possíveis pacientes. Até agora, um caso foi confirmado. Lista de monitoramento passou a incluir passageiros de 15 países

Giovana Girardi e Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 17h40
Atualizado 27 de fevereiro de 2020 | 19h54

SÃO PAULO E BRASÍLIA - O Ministério da Saúde informou nesta quinta-feira, 27, que o Brasil monitora 132 casos suspeitos de infecção pelo coronavírus. Até agora, um caso da doença foi confirmado, em São Paulo. A quantidade de suspeitas deve continuar crescendo, segundo a pasta, em razão do aumento da "sensibilidade de vigilância" com a inclusão de 15 países no monitoramento.  Conforme o secretário executivo do ministério, João Gabbardo dos Reis, "dá para avaliar que estamos próximos de 300 casos suspeitos de coronavírus". 

Os casos suspeitos estão em Alagoas, Bahia, Pernambuco e Espírito Santo (um em cada Estado); 2 no Mato Grosso do Sul; 3 em Pernambuco e Goiás; 4 no Rio Grande do Norte; 5 no Ceará, Minas Gerais, Paraná e no Distrito Federal; 8 em Santa Catarina; 9 no Rio de Janeiro; 24 no Rio Grande do Sul e 55 em São Paulo.

Os critérios para definir um caso suspeito de coronavírus, disse o ministério, passaram a enquadrar as pessoas que apresentarem febre e mais um sintoma gripal, como tosse ou falta de ar e tiveram passagem pela Alemanha, Austrália, Emirados Árabes, Filipinas, França, Irã, Itália, Malásia, Japão, Cingapura, Coreia do Sul, Coreia do Norte, Tailândia, Vietnã e Camboja, além da China, nos últimos 14 dias. 

O Brasil está preparado para lidar com o coronavírus?

De acordo com Gabbardo, neste momento há mais 213 notificações analisadas, o que pode elevar o número.  Sobre esse passivo, ele comentou que isso ocorreu porque a equipe de análise estava apta para uma demanda que era, até então, de poucos casos por dia. Mas só na terça chegaram ao ministério cerca de 300 notificações encaminhadas pelas secretarias de saúde. O grupo deve ser ampliado para atender as notificações.

Três pessoas listadas como suspeitas não viajaram para esses países, mas tiveram contato com o paciente de São Paulo já confirmado para o coronavírus. Para ele, além do aumento de países-alvo, o fato de ter havido a primeira confirmação na segunda-feira, pode ter levado a um aumento da procura. "Pessoas que vieram da Itália, que tiveram os sintomas, ao saber que houve um caso confirmado de alguém que veio da Itália... isso pode ter gerado nas pessoas uma necessidade de buscar a opinião de um profissional de saúde. E esse profissional, ao examinar alguém que veio da Itália, com sintomas, sabendo que no dia anterior teve a confirmação... tudo isso ajuda a aumentar a demanda", disse.

Isso ocorre porque há uma recomendação ou notificação de casos por parte das secretarias estaduais de saúde. Os técnicos do ministério, então, examinam os dados, checam se eles preenchem os quesitos para serem considerados suspeitos e então eles começam a ser tratados assim, para ir para os testes. Mas como estão chegando muitas notificações nas últimas horas, há mais 213 que ainda não passaram por essa análise do ministério. Por isso, a expectativa é que o números de casos deve subir. 

Gabbardo afirmou que tanto ele quanto o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, acreditavam que o vírus só chegaria ao Brasil no inverno. Com o aumento da lista de países e a primeira confirmação de caso, ele afirma que imaginava que o número de casos suspeitos ia subir, mas não tanto. 

"Eu não esperava que fosse de 20 para 300. Não sei se foi um movimento esporádico. Vamos ver se a curva de crescimento vai se manter ou se era uma demanda reprimida e agora vai voltar à normalidade."

O secretário afirmou, ainda, que o governo pode acionar a Justiça para garantir o fornecimento de máscaras. Há preocupação com isso porque empresas desistiram de fornecer o produto em licitação do ministério. Gabbardo disse que o governo pode pedir a apreensão dos produtos.

Ele afirmou que terá reunião nesta sexta-feira, 28, com a Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos (ABIMO) para tratar do assunto. 

O Ministério da Saúde não recomendou o cancelamento de eventos, como jogos esportivos ou blocos de pré-carnaval. De acordo com Gabbardo, o que deve prevalecer é o bom senso para que pessoas evitem, por exemplo, ir a um local de aglomeração caso tenham sintomas de doenças respiratórias.

Sessenta casos suspeitos de coronavírus já foram descartados no País. Para evitar a proliferação do vírus, o Ministério da Saúde recomenda medidas básicas de higiene, como lavar as mãos com água e sabão, utilizar lenço descartável para higiene nasal, cobrir o nariz e a boca com um lenço de papel quando espirrar ou tossir e jogá-lo no lixo. Evitar tocar olhos, nariz e boca sem que as mãos estejam limpas.

Assista à entrevista concedida pelo ministério sobre o coronavírus

 

#AoVivo - Ministério da Saúde atualiza situação sobre o #coronavírus Publicado por Ministério da Saúde em  Quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Ministério vai antecipar vacinação contra gripe

O ministério irá antecipar a campanha de vacinação contra a gripe por causa do risco de surto de coronavírus, anunciou nesta quinta-feira, 27, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em coletiva de imprensa realizada no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.

 O coronavírus continua rapidamente se espalhando pelo mundo e já foi detectado em pelo menos 44 países, fora da China, em todos os continentes, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Mas a cada momento novos países fazem anúncios de casos, ainda não contabilizados pela OMS. 

No Rio, 'alerta máximo'

Existem nove casos suspeitos de infecção pelo coronavírus no Estado do Rio de Janeiro, segundo divulgou na noite desta quinta-feira, 27, a secretaria estadual de Saúde. Todos os casos estão sendo monitorados e por enquanto nenhum foi confirmado. Dois ocorrem no município do Rio, dois em Niterói (Região Metropolitana), um em Nova Iguaçu (Baixada Fluminense), um em Macaé (interior), além de dois turistas e um caso com local de residência ainda em investigação. Além dos sintomas respiratórios, os pacientes têm históricos de viagem para países com circulação ativa do vírus.

“Estamos em alerta máximo e preparados para enfrentar o coronavírus. Desde o início do ano trabalhamos na organização de um plano de resposta eficiente e ágil para enfrentar este novo vírus”, afirmou o secretário de Estado de Saúde, Edmar Santos. /COLABOROU FÁBIO GRELLET

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Governo antecipa vacinação contra gripe para facilitar diagnósticos

Ação deverá ter início em 23 de março, e não em abril, como inicialmente planejado

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 17h11
Atualizado 27 de fevereiro de 2020 | 17h37

SÃO PAULO - O Ministério da Saúde irá antecipar a campanha de vacinação contra a gripe por causa do risco de surto de coronavírus (Covid-19), anunciou nesta quinta-feira, 27, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em coletiva de imprensa realizada no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.

A campanha, inicialmente programada para começar no dia 13 de abril e ser realizada até meados de maio, deverá ter início já em 23 de março, segundo Mandetta.

Embora a gripe seja causada por um vírus diferente (influenza), o objetivo da antecipação é evitar aumento de doenças respiratórias e sobrecarga do sistema de saúde.

De acordo com Mandetta, serão 75 milhões de doses de vacina contra a gripe na campanha deste ano. Inicialmente, serão vacinadas crianças e gestantes. Em seguida, os idosos.

O ministro se reúne nesta quinta com o grupo criado para monitorar e coordenar ações contra a propagação do novo coronavírus no Estado. Nesta terça-feira, 25, o Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso de Covid-19 no Brasil. O paciente é um idoso paulistano de 61 anos de idade que chegou recentemente da Itália.

Ele foi atendido no Hospital Israelita Albert Einstein, encaminhado para isolamento domiciliar e passa bem, segundo a Secretaria da Saúde de São Paulo.

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Roberto Godoy: A postos, Exército vê situação de coronavírus no Brasil sob controle

Treino considera possibilidade de escalada da doença no país, mas especialista afirma que estágio extremo não será atingido

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 05h00

O eventual envolvimento das Forças Armadas no novo patamar da emergência do coronavírus pode ter o tamanho, o foco e a intensidade necessários. Nesta quarta-feira, 26, o Ministério da Defesa limitou-se a informar que até agora, a tropa atuou "na coordenação e na execução do resgate dos brasileiros em Wuhan (China) e na posterior quarentena (na base aérea) em Anápolis (GO). A coordenação de todas as demais ações relativas ao coronavírus é do Ministério da Saúde". 

O tom neutro é um cuidado. A orientação do comando é evitar a percepção de que haja uma preocupação excessiva por parte do governo. A rigor, os ensaios realizados e atualizados ao longo do tempo consideram a possibilidade de uma escalada que pode chegar a situações limite como o isolamento de zonas urbanas dentro das regiões metropolitanas ou de cidades inteiras. 

Um técnico militar, ex-integrante do Instituto de Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear (IDQBRN), que o Exército mantém em Guaratiba, no Rio, sustenta, entretanto, que esse estágio extremo não será atingido. Para o especialista, "a autoridade sanitária está controlando integralmente a situação".

Há várias unidades, como o 1.º Batalhão de Defesa QBRN, do Rio, dedicadas ao trabalho de alta complexidade e quase sempre preventivo. Por causa dos grandes eventos no País entre 2007 e 2016  - visita do papa Bento 16, Conferência da ONU Rio+20, Copas de Futebol das Confederações e da Fifa, Jornada Mundial da Juventude, Jogos Olímpicos, Jogos Paralímpicos, Jogos Mundiais Militares - foram feitos significativos investimentos no setor.  

O Exército tem laboratórios, alguns deles móveis, que podem identificar agentes biológicos e realizar descontaminação. Foi assim em 2014 e de novo em 2015, quando o 1.º Batalhão esterilizou dois aviões da Força Aérea utilizados no transporte de pacientes sob suspeita de contaminação pelo vírus ebola, de alto índice de mortalidade. Um deles, brasileiro, homem de 46 anos, viajou da Guiné, na África, até a Base Aérea do Galeão, no Rio, a bordo de um cargueiro SC-105 Amazonas, acomodado em uma maca de isolamento máximo. Um ano antes, o guineano Souleymani Bah havia chegado ao Galeão nas mesmas condições, mas em um LearJet da FAB convertido em Unidade de Cuidados Intensivos.

Este ano, na fase do coronavírus, a operação de DQBRN se repetiu na Base Aérea de Anápolis, Goiás. Os dois jatos Emb-190/VC-2 da frota da Presidência da República despachados para Wuhan, na China, que pousaram em Anápolis no dia 9 transportando 58 pessoas logo em seguida submetidas ao regime de quarentena, nas instalações da FAB, foram descontaminados pelo "time amarelo", uma referência ao traje de isolamento usado pela equipe. Os recursos empregados no procedimento são modernos - preservam a integridade operacional dos sistemas eletrônicos e digitais. 

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Coronavírus já é detectado em 47 países do mundo, em todos os continentes

Número de infectados chega a 83 mil em 51 países de todo o mundo e 2.856 mortes; novos casos de Covid-19 aparecem na Dinamarca, Noruega e Paquistão

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 12h52
Atualizado 28 de fevereiro de 2020 | 13h46

SÃO PAULO -  A rápida expansão global do novo coronavírus começa a dar sinais de que não é mais possível contê-lo. A doença está presente em pelo menos 50 países, em todos os continentes, de acordo com o boletim diário divulgado pela Organização Mundial de Saúde. E países que ainda não estavam com uma transmissão interna sustentada já podem ter chegado a esse nível. Os Estados Unidos investigam o caso de uma mulher na Califórnia que contraiu a doença sem ter viajado ao exterior.

São mais de 83 mil casos confirmados em todo o mundo (78.926 na China e 4.404 em 51 países) e 2.856 mortes (66 fora da China). Novos países entraram na lista de casos da OMS nesta quinta-feira, 27, como Dinamarca, Estônia, Georgia, Grécia, Macedônia do Norte, Noruega, Romênia e Paquistão. O Brasil, que tinha registrado oficialmente o primeiro caso na quarta, também foi incluído agora. A Nigéria, país mais populoso da África, confirmou um caso nesta sexta-feira, 28.

“Todo país deve estar pronto para seu primeiro caso, seu primeiro cluster, a primeira evidência de transmissão comunitária e para lidar com a transmissão comunitária sustentada. E deve estar se preparando para todos esses cenários ao mesmo tempo”, afirmou nesta quinta o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, na coletiva de imprensa diária que tem dado desde o início da crise.

Segundo ele, este é um momento decisivo, quando já há mais novos casos fora da China no período de 24 horas (746) do que onde surgiu a epidemia (439). “Nenhum país deve assumir que não receberá casos. Isso pode ser um erro fatal, literalmente. Este vírus não respeita fronteiras. Não faz distinção entre raças ou etnias. Não considera o PIB ou o nível de desenvolvimento de um país. A questão não é apenas impedir que casos cheguem às costas. O ponto é o que você faz quando tem casos”, disse.

Ele se dirigiu aos novos países com casos. “Minha mensagem para cada um é: está na sua janela de oportunidade. Se você agir agressivamente agora, pode conter esse vírus. Você pode impedir pessoas de ficarem doentes. Pode salvar vidas. Então meu conselho para esses países é se mover rapidamente”, afirmou Tedros.

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“Com as medidas corretas, pode ser contido. Essa é uma das principais mensagens da China. A evidência que temos é de que não parece haver uma ampla transmissão”, disse. E citou que na cidade de Guangdong, cientistas testaram mais de 320 mil amostras da população e apenas 0,14% deu positivo. “Isso sugere que a contenção é possível”, relatou o diretor-geral.

O segundo país com mais casos é a Coreia do Sul, com 2.022 relatos (e 13 mortes). Só lá houve um aumento de 505 casos em 24 horas. A Itália já soma 650 casos, com 17 mortes, de acordo com o Ministério da Saúde local. O Irã tem 141 casos, com 26 mortes. No Japão são relatados 186 casos em terra, além dos 705 que estão em um navio no porto de Yokohama.

"Nossos epidemiologistas têm monitorado esses desenvolvimentos continuamente e agora nós aumentamos a nossa avaliação de risco de dispersão e risco de impacto do Covid-19 para muito alto, no nível global", afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante coletiva de imprensa nesta sexta-feira, 28.

Ao todo, 24 casos foram exportados da Itália para 14 países. Outros 97 casos foram exportados do Irã para 11 países, desde quinta-feira.

Sobrecarga

O avanço acelerado da epidemia preocupa por poder sobrecarregar os sistemas de saúde em todo o mundo. A principal análise feita até agora sobre os pacientes, conduzida pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças chinês, apontou que, lá, a maior parte dos casos é leve. Dos 44.672 casos confirmados no país até 11 de fevereiro, mais de 36 mil – 81% – tiveram esse diagnóstico. Mas o coronavírus tem se apresentado como mais severo que uma gripe sazonal e os casos mais graves e críticos podem depender de internação – 15% podem precisar de tratamento em hospital e 5% podem requerer cuidado intensivo. Por esse mesmo estudo, a mortalidade local estava em torno de 2,3%. A maior parte das vítimas tem mais de 60 anos. 

Fora da China, a taxa de letalidade está em 1,55%. Especialistas acreditam que muito provavelmente esse valor será o mais próximo da realidade quando a epidemia se estabilizar, porque provavelmente muitas pessoas sem sintomas ou com sintomas muito leves na China acabaram nem sendo relatadas. A influenza sazonal, apesar de mais espalhada por todo o mundo, mata em apenas 0,1% dos casos. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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The Economist -Eleição em tempo de coronavírus

Regime iraniano arrisca agravar a epidemia de Covid-19

The Economist*, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 18h13

Oficialmente os radicais venceram a eleição parlamentar do Irã de 21 de fevereiro por vasta maioria. Eles conquistaram três quartos dos 290 assentos no Parlamento e reivindicaram um mandato por sua posição de confronto em relação aos Estados Unidos. Os reformadores e moderados, que buscam um melhor entendimento com os EUA e o Ocidente, tiveram um mau desempenho.

O comparecimento às urnas foi o menor numa eleição parlamentar desde a revolução islâmica em 1979, mas isto ocorreu por causa da “propaganda negativa” sobre a ameaça do coronavírus pelos inimigos do Irã, afirmou o líder supremo Aiatolá Ali Khamenei. A eleição, disse ele, mostrava a “genuína atenção do Irã para com a democracia”.

O regime é tão impopular que precisou manipular a eleição antecipadamente (mais do que o usual). Mais da metade dos que se candidataram tiveram seu registro rejeitado, incluindo 90 parlamentares que estavam no cargo, a maior parte reformadores e moderados. Em algumas áreas, como Teerã, o bloco moderado e que defende reformas boicotou a eleição por causa da desqualificação maciça dos candidatos.

O baixo comparecimento às urnas se deveu menos ao coronavírus e mais à crença de que essa eleição era uma fraude. Embora Khamenei tenha afirmado que votar era um “dever religioso”, somente 42% dos eleitores inscritos compareceram, uma queda em relação aos 62% em 2016. O que foi visto amplamente como uma reprovação do regime.

O governo parece também estar se enganando no tocante ao coronavírus. Até 18 de fevereiro insistia que não havia nenhum caso do vírus no país. Agora as autoridades declararam que pelo menos 61 pessoas foram infectadas e 12 morreram por causa do Covid-19 (o maior número fora da China). Mas podem estar ocultando a real escala da epidemia. Os números oficiais indicam uma taxa de mortalidade inusitadamente alta (na China, onde o vírus se originou, essa taxa é de 2,3%).

Isto significa que o número de infectados pode ser de centenas, talvez milhares. Em 24 de fevereiro, um deputado de Qom, Ahmad Amirabadi Farahani, disse que 50 pessoas morreram só naquela cidade (afirmação rapidamente rejeitada pelo ministério da Saúde). No mesmo dia, o Afeganistão, Bahrein, Kuwait e Iraque, reportaram seus primeiros casos, todos ligados ao Irã.

O Irã vem lutando para conter a epidemia. Fechou escolas e universidade em grande parte do país. Mas especialistas em saúde questionam se o país tem os recursos necessários para enfrentar a crise, diante das sanções americanas impostas em 2018, quando Donald Trump retirou os Estados Unidos do acordo nuclear firmado com o Irã e potências mundiais.

Com a economia em colapso e a moeda cada vez mais desvalorizada, o Irã tem tido dificuldade para importar remédios e outros suprimentos, incluindo os kits usados para o diagnóstico do coronavírus. A Organização Mundial da Saúde (OMS) enviou alguns carregamentos e empresas domésticas lutam para fabricar seus próprios kits. Mas o país está mal equipado para enfrentar a epidemia.

As autoridades iranianas prometeram ser transparentes. Mas suas promessas não inspiram confiança. Em janeiro, o regime derrubou, equivocadamente, um avião de passageiros ucraniano perto de Teerã, matando 176 pessoas a bordo. Então o governo (sem sucesso) tentou encobrir o acidente, o que acarretou enormes manifestações de protesto. Os iranianos agora estão irritados com o fato de o regime levar adiante a eleição quando a epidemia estava crescendo. E se queixam de que, embora as autoridades tenham fechado espaços seculares, como galerias e cinemas, deixaram abertos os santuários lucrativos, especialmente em Qom, que é a área mais atingida pelo vírus. Crescem os apelos para a cidade, que é base dos clérigos no poder em Teerã, ser colocada em quarentena para impedir peregrinos de disseminarem o vírus.

Vários países vizinhos fecharam suas fronteiras para cidadãos iranianos, aumentando o isolamento do país. Os ricos Estados do Golfo têm capacidade para lidar com os casos que já vazaram para seus países. Mais preocupantes são as nações que ainda precisam impor restrições: em 24 de fevereiro, aviões vindos do Irã continuavam aterrissando no Líbano e na Síria. O irã tem uma forte influência nos dois países e nenhum deles tem condições de enfrentar uma epidemia. Atolado na sua própria crise econômica, o Líbano vem tendo dificuldades para financiar suas importações de medicamentos.

A perspectiva de o vírus alcançar a Síria é particularmente funesta. Milhões de pessoas vivem muito próximas em Idlib, a província do norte ainda controlada pelos rebeldes e mesmo nas áreas controladas pelo regime os serviços de saúde foram destruídos por anos de guerra.

Os especialistas em saúde temem que a epidemia se torne uma pandemia. “Estamos particularmente preocupados com o rápido aumento de casos no Irã, Itália e República do Coreia”, afirmou o diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Os cidadãos da Itália e Coreia pelo menos dependem de governos razoavelmente transparentes e com recursos. Não é o caso dos iranianos. Um clérigo em Qom culpou Trump pela epidemia, dizendo se tratar de um complô americano para destruir a cidade santa. Os burocratas do governo esperam que essa estupidez os protegerá das críticas. Muitos iranianos discordam. Não agir de modo eficiente para responder de modo adequado ao vírus será muito mais prejudicial para a legitimidade do regime do que qualquer coisa que o presidente Trump pretendesse fazer.

*Tradução de Terezinha Martino

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