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Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Brasil teve 177 mil mortes além do esperado até metade de outubro; excesso de óbitos é de 24% 

Dados, que mostram efeitos da pandemia do novo coronavírus no País, são de painel do conselho de secretários de Saúde 

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2020 | 13h00

BRASÍLIA - O Brasil teve cerca de 177,18 mil mortes além do esperado em 2020, um excesso de 24%, quando comparado a dados de anos anteriores. Os números são de painel atualizado pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

O Amazonas apresenta o maior porcentual entre os Estados (58%). No começo da pandemia, o Estado teve colapso dos sistemas de saúde e funerário. Na semana que se encerrou em 25 de abril, o crescimento de mortes alcançou o pico na região. Naquele período, o número de óbitos por causas naturais foi 331% superior ao da média de anos anteriores. Nas últimas semanas de outubro, caiu para cerca de 10%.  

Na outra ponta da tabela está o Rio Grande do Sul, com 3% no aumento de mortes. São Paulo, o Estado mais populoso, teve 17% de óbitos além do esperado (cerca de 28,4 mil mortes). O painel do Conass apresenta cálculos com dados compilados até 17 de outubro. A metodologia de coleta dos dados foi desenvolvida pela Vital Strategies. Naquela data, o ministério registrava 153 mil óbitos pela covid-19 no Brasil. Agora esse total já passa de 171 mil

O novo coronavírus não é, necessariamente, a causa direta do excesso de mortalidade. "O número de óbitos superior ao que era esperado para o período pode também ser reflexo indireto da epidemia. Mortes provocadas, por exemplo, pela sobrecarga nos serviços de saúde, pela interrupção de tratamento de doenças crônicas ou pela resistência de pacientes em buscar assistência à saúde, pelo medo de se infectar pelo novo coronavírus", observou o Conass. Pessoas com diabete e câncer estão entre os grupos de risco para a covid-19. 

O dado do conselho também segrega os óbitos por sexo e faixa etária. O excesso de mortes entre homens foi de 28% no País, enquanto das mulheres alcançou 20%. Já entre pessoas de até 59 anos, o porcentual é de 31%. Mortes de quem tem mais de 60 anos subiram 22%. Idosos também fazem parte do grupo mais vulnerável ao novo coronavírus. 

Segundo dados desta quarta-feira, 25, compilados pelo Ministério da Saúde, o Brasil tem 81 mortes causadas pelo coronavírus por 100 mil habitantes. O Distrito Federal apresenta a maior taxa (130) e Minas Gerais (47), a menor.

 

Distanciamento controlado ajudou RS, diz coordenadora

Coordenadora do Comitê de Dados (Gabinete de Crise) para o Enfrentamento da Covid-19 no Rio Grande do Sul, Leany Lemos atribui ao modelo de “distanciamento controlado” o fato de o Estado apresentar o menor “excesso de óbitos” do País. O termo é usado para comparar os dados de mortes de 2020 por causas naturais com a média de anos anteriores.

Apresentado no fim de abril, este modelo separa o Estado em regiões de saúde e, semanalmente, define uma “bandeira” (amarela, vermelha, laranja ou preta) para cada local. As cores sinalizam que a região deve adotar protocolos mais ou menos rígidos contra o coronavírus. Os protocolos se adaptaram, nos últimos meses, às regiões econômicas, para tornar viáveis serviços de turismo na serra gaúcha, por exemplo. Nesta semana, o governo decidiu liberar aulas presenciais mesmo em regiões sob  bandeira vermelha.

O governo do Rio Grande do Sul apresentou à reportagem um estudo que projeta quantas mortes seriam registradas no Estado, considerando as taxas de mortalidade de outros países e regiões do Brasil. “Perguntam muito sobre quantas vidas foram salvas na pandemia. É uma conta difícil de fazer. Pode ter mil parâmetros. A gente fez esse exercício. Olhando taxa de óbito do Estado e comparando com outros locais”, afirmou Leany.

Sob a taxa da Bélgica, por exemplo, as mortes gaúchas pela covid-19 subiriam de 6.639 para 15.938. Já comparando com a taxa brasileira, iriam para 9.245 mortos. As mortes no Rio Grande do Sul cairiam, se fossem considerados dados de Portugal (4.605), Alemanha (2.035), Uruguai (239), Singapura (28), entre outros países.

O governo gaúcho considerou os dados do último dia 25. O Estado ainda projetou que teria 8.809 mortes a mais, se aplicasse a taxa de mortalidade do Amazonas, mas menos 1.341 óbitos, sob números de Minas.

“Nosso objetivo é permitir uma vida mais próxima do normal. Mas as restrições sempre vão existir”, disse Lemos em referência ao  distanciamento controlado. Apesar de apresentar o menor excesso de óbitos, o aumento de casos da covid-19 nas últimas semanas fez com que bandeiras “vermelhas” retornassem ao mapa do distanciamento controlado, indicando “risco alto” para algumas regiões do Rio Grande do Sul.

No último dia 5, a “Rede Análise Covid-19”, formada por diversos pesquisadores, escreveu uma carta aberta à prefeitura de Porto Alegre apontando “clara reversão de tendência nos números de casos de infecção” pela doença. “Como a doença tem o potencial de gerar um crescimento exponencial, isto pode gerar um aumento repentino a qualquer momento”, destacou. 

Ministro admite 'repique' no Sul e no Sudeste

O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, admitiu nesta quinta-feira, 26, aumento do número de infectados no País. "No Sul e no Sudeste, o repique (de casos) é claro", reconheceu. Em várias regiões do País, o avanço do vírus traz sinais de alerta. No Estado de São Paulo, já houve orientação para adiar cirurgias eletivas (não urgentes) e o governo estuda novas restrição ao lazer.

No Rio, a ocupação dos leitos de UTI chegou a 94% e também houve orientação de evitar procedimentos que possam trazer sobrecarga aos hospitais. Já a prefeitura de Belo Horizonte ameaçou fechar novamente o comércio se a cidade não conseguir frear o contágio. 

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