ANDREAS SOLARO / AFP
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Itália luta contra 'explosão' de casos do coronavírus, após terceira morte registrada

Escolas, universidades, museus e cinemas são fechados e já faltam alimentos em mercados de Milão; Áustria suspendeu tráfego de trens com o país e partidas de futebol foram adiadas

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2020 | 19h45

A Itália fez um mutirão neste domingo, 23, para conter o maior surto de coronavírus da Europa, isolando as cidades mais afetadas e proibindo eventos públicos em grande parte do norte do país, depois que um terceiro paciente morreu vítima da doença. Partidas do campeonato italiano foram adiadas e, neste domingo, a Áustria suspendeu o tráfego ferroviário com a Itália por medo do avanço da doença.  

Autoridades das regiões abastadas da Lombardia e do Vêneto, que são o ponto focal da crise, ordenaram que escolas e universidades fechassem por pelo menos uma semana, além de interditar museus e cinemas e cancelar os últimos dois dias do carnaval de Veneza. A unidade de proteção civil informou que o número de casos do vírus altamente contagioso chegou a 152. E todos eles, com exceção de três, apareceram desde a última sexta-feira.

“Fiquei surpreso com essa explosão de casos”, disse o primeiro-ministro Giuseppe Conte à emissora estatal RAI, alertando que os números provavelmente aumentarão nos próximos dias. “Faremos tudo o que pudermos para conter o contágio”, disse ele. A morte mais recente foi a de uma mulher idosa na cidade de Crema, a cerca de 45 km a leste da capital financeira da Itália, Milão. Como pelo menos uma das outras pessoas que morreram, ela vinha sofrendo de sérios problemas de saúde subjacentes, disseram as autoridades.

O número de casos confirmados da doença na Lombardia subiu de 54 para 110, enquanto que, no Vêneto, cerca de 21 pessoas foram diagnosticadas com o vírus, incluindo duas em Veneza, que estava lotada de turistas para o carnaval. As autoridades de saúde relataram casos isolados nas regiões vizinhas do Piemonte e da Emília Romana.

Quase uma dúzia de cidades na Lombardia e no Vêneto, com uma população de cerca de 50 mil, foram colocadas em quarentena, com os moradores instados a ficar em casa e com permissão especial necessária para entrar ou sair das áreas designadas. Em Milão, os moradores correram para estocar itens essenciais, enquanto alguns pais decidiram levar seus filhos para fora da cidade.

“Hoje é loucura. Parece que estamos em Bagdá. Não podemos reabastecer as prateleiras com rapidez suficiente”, disse uma assistente de loja do supermercado Esselunga Solari em Milão, recusando-se a informar seu nome porque não estava autorizada a falar com meios de comunicação. Até mesmo a catedral de Milão - o célebre Duomo - foi fechada. 

Ao Estado, o chef de cozinha brasileiro Gustavo Miranda de Lima, de 23 anos, que trabalha em um hotel em Milão, disse que as  farmácias já não têm mais máscaras nem álcool em gel. "As prateleiras estavam praticamente vazias. Eu nem estava pensando em estocar nada, só queria comprar algo para jantar e não ficar mais na rua. Mas resolvi trazer algo mais. Peguei os últimos três pedaços de carne. Também peguei seis ovos e só sobraram dez lá.” Leia o depoimento completo do brasileiro aqui

Lombardia e o Vêneto juntos representam 30% da produção doméstica bruta da Itália. Qualquer interrupção prolongada provavelmente terá um sério impacto em toda a economia, que já está perto da recessão. O turismo também terá um impacto imediato, com escolas em todo o país cancelando viagens, incluindo os feriados prolongados para esqui.

Em busca do primeiro caso

As autoridades de saúde estão tentando descobrir como começou o surto no norte italiano. A suspeita inicial na Lombardia recaiu sobre um empresário que voltou recentemente da China, o epicentro do novo vírus, mas seus exames deram resultado negativo. No Vêneto, os médicos testaram um grupo de oito visitantes chineses que estiveram na cidade que abrigou a primeira morte, mas, novamente, mostraram resultados negativos.

Antes de sexta-feira, a Itália havia relatado apenas três casos do vírus - todos eles de pessoas que chegaram recentemente da cidade chinesa de Wuhan, onde a doença surgiu no final do ano passado.

Ligação com a Áustria

Neste domingo, autoridades austríacas suspenderam todo o tráfego ferroviário com a Itália após saber que em um trem procedente de Veneza viajavam duas pessoas com febre e que poderiam estar infectadas pelo novo coronavírus, informou a rádio pública austríaca ORF.  O trem, que faz parte da linha Eurocity 86 e tinha como destino Munique, foi parado antes de chegar à Áustria e está na estação de fronteira no lado italiano.

Momentos mais tarde, a Áustria suspendeu todo o tráfego ferroviário nesta fronteira, o que afeta outros três trens na noite deste domingo. Foi a própria empresa ferroviária italiana que informou à austríaca sobre a presença de duas passageiras com febre no Eurocity, o que poderia indicar infecção por coronavírus, informou a ORF.

O trem já havia parado na cidade italiana de Verona para realizar uma análise das duas passageiras com sintomas, mas continuou após não se detectar o vírus. Cerca de 300 pessoas esperavam, na noite deste domingo, o trem na fronteira, sem poder entrar na Áustria. A Áustria, até o momento, não registra casos de coronavírus.

Campeonato italiano

As consequências do avanço do coronavírus também são sentidas também no esporte, principalmente com o adiamento de quatro partidas da série A. Neste domingo, o Torino anunciou o adiamento de jogo previsto para esta tarde contra o Parma, correspondente à 25ª rodada do campeonato italiano. Esse adiamento se soma a outros três que já haviam sido anunciados no sábado: Atalanta-Sassuolo, Hellas Verona-Cagliari e Inter de Milán-Sampdoria.

Jogos das séries B e C de campeonatos amadores também foram remarcados. Além do futebol, eventos de rúgbi e vôlei precisaram ser adiados. 

Coronavírus pelo mundo

Em todo o mundo, já são 28 países, além da China, com casos confirmados de coronavírus. A doença já infectou 78,8 mil pessoas e matou 2,4 mil, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados neste domingo, 23. Acredita-se que o novo coronavírus tenham surgido em um mercado de frutos do mar em Wuhan, na China, que também comercializava animais selvagens. Wuhan e outras cidades próximas foram colocadas em quarentena, mas parte da população conseguiu deixar o país antes da proibição de deslocamento.  

A China é o país mais afetado pela doença, com quase a totalidade das mortes, mas, na última semana, o novo coronavírus se expandiu para outros países, segundo alertou a OMS. A Coreia do Sul e o Japão registraram aumento de casos. Só na Coreia, são 602 confirmações da doença. No Japão, há 132 casos, além dos 634 registrados em um navio que aportou em Yokohama. A embarcação, com 3,7 mil pessoas a bordo, foi colocada em quarentena. /AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

 

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