Alexandre Brum/Estadão
Diretor do hospital Copa Star, no Rio, monitora pacientes com covid-19. Alexandre Brum/Estadão

No Rio, médicos se isolam para proteger famílias do contágio pelo coronavírus

Mesmo com rígidas regras de segurança, hospital Copa Star tem profissionais afastados e há quem opte por ficar em hotéis para evitar contágio

Roberta Jansen, Rio de Janeiro

26 de abril de 2020 | 05h00

RIO - Na linha de frente do combate aos casos mais graves da covid-19, os profissionais de saúde que trabalham num dos mais conceituados hospitais privados do Rio de Janeiro estão também sucumbindo ao novo coronavírus. A despeito da adoção das mais estritas regras de segurança, a doença já atingiu de 15% a 20% da equipe – o percentual chega a dobrar na rede pública - revelando uma das mais cruéis facetas da pandemia.

O hospital Copa Star é considerado top de linha no enfrentamento à doença, não só do ponto de vista de tecnologia, mas também de pessoal. São 60 médicos e 300 auxiliares, entre enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas. Atualmente está com 65 pacientes, grande parte entubada e em estado grave. A maioria dos doentes é idosa e apresenta alguma comorbidade, mas há pacientes de todas as idades. Segundo estatísticas, 25% dos óbitos são de pessoas que estão fora da chamada zona de risco.

"Um lado muito cruel dessa doença é o isolamento dos pacientes e também dos próprios médicos; muitos deles optaram por sair de casa”, contou o diretor médico do hospital, Bruno Celoria, de 35 anos. “O impacto é muito grande; tivemos perda de mão de obra, recepcionistas, médicos, enfermeiros. E todos eles fazem falta, o hospital é um organismo.”

Um dos coordenadores das unidades de terapia intensiva do hospital, Márcio Ananias, de 53 anos, não apresentava nenhum fator de risco, mas acabou desenvolvendo a forma grave da doença e teve que ficar dez dias internados na mesma unidade em que trabalha.

“Eu achei mesmo que ia morrer, cheguei a ligar para o seguro de vida e para a gerente do banco”, contou o médico, que já teve alta e se prepara para voltar ao trabalho na próxima semana. “E eu ficava pensando que, se eu morresse no hospital, não veria nunca mais nem a minha mulher, nem a minha filha; e que elas, por sua vez, não iam poder me ver nem mesmo dentro de um caixão.”

Justamente para impedir a circulação do vírus, os pacientes da Covid-19 ficam internados em unidades completamente isoladas do restante do hospital e não podem receber visitas. Embora totalmente necessário, o isolamento dos doentes de seus parentes é apontado como outra faceta cruel da nova epidemia.

“Eu me sentia solitário, deprimido, fiquei mal da cabeça mesmo”, enumera Ananias. “Eu que nunca tomei remédio para dormir, implorava ao meu médico que me desse algo; minha cabeça estava a mil por hora.”

O Copa Star é um dos poucos hospitais que tem 14 leitos de pressão negativa – quartos especialmente destinados a doenças infecciosas, que têm uma antecâmara e é dotado de uma espécie de filtro que impede a saída do vírus para o ambiente. Num primeiro momento, o diretor do hospital, João Pantoja, achou que esses leitos seriam suficientes para os pacientes Covid-19. Mas já abriu três unidades exclusivas para os doentes do novo coronavírus e planeja abrir uma quarta.

“Achamos que esses leitos dariam conta, mas rapidamente percebemos que teríamos que abrir unidades isoladas”, contou Pantoja.

Para entrar nesses espaços, os profissionais têm que colocar uma roupa especial, touca e máscara N9, que filtra 95% do ar. Uma vez no covidário (que é como os médicos chamam as unidades exclusivas para pacientes Covid-19), eles precisam acrescentar novas barreiras físicas de segurança, com luvas, óculos, lâmina de proteção do rosto (face shield) e avental descartável, toda vez que entram em contato direto com os pacientes.

Estudos divulgados recentemente mostram que boa parte da transmissão do vírus ocorre quando o paciente ainda não apresentou sintomas; o que dificulta muito a prevenção. Márcio Ananias, por exemplo, acabou pegando a doença de uma paciente particular, que tratava uma diverticulite e nem sabia que estava com a covid-19.

O próprio diretor do hospital conta que já teve covid-19, mas foi um dos pacientes assintomáticos. Só ficou sabendo porque fez um exame de sorologia em que a presença de anticorpos no sangue é apontada. O coordenador das unidades de terapia intensiva do hospital, Fábio Miranda, de 63 anos, apresentou alguns sintomas leves e está em casa, se recuperando da doença. A técnica de enfermagem Thais Cristina da Silva Santos, de 32 anos, acaba de voltar ao trabalho depois de passar 14 dias em casa.

“É um cansaço muito grande, um desconforto respiratório horrível, febre, dor de cabeça e muito medo”, contou Santos que, durante o período de recuperação, teve que ficar isolada em seu quarto para não ter contato com os pais, de mais idade. “Essa doença mexe muito com o nosso emocional.”

O medo de contaminar os parentes é outro drama enfrentado pelos profissionais de saúde da linha de frente. “Quando a coisa começou a esquentar lá no hospital, quando começaram a chegar os primeiros pacientes, há sete, oito semanas, fui para um hotel, fiquei duas semanas lá”, contou Fábio Miranda. “Depois consegui convencer a família toda a ir para a casa de Teresópolis; tá todo mundo lá: mulher, filhos, neto, cachorro. E eu fiquei aqui sozinho.”

Pantoja também ficou em um hotel, sozinho, durante algumas semanas, até descobrir que já tinha tido a doença e, portanto, estava imunizado contra o vírus. Ananias também conseguiu poupar a mulher e a filha. Desde o início da epidemia, por precaução, havia se isolado dentro da própria casa para não ter contato direto com as duas. Nem todos podem fazer isso.

“Minha mulher também é médica e nós temos cinco filhos, não tem como sair de casa”, contou o intensivista Maximiliano Dutra, de 46 anos, supervisor de um dos covidários do Copa Star. “Tomamos todas as precauções, mas os riscos existem, o risco é de todo mundo, da população inteira. E a gente é médico, né, não tem jeito, é o que a gente faz.”

Para os especialistas, a situação ainda vai piorar muito e tentam se preparar para o desafio. O hospital trabalha com a perspectiva de que o pico da epidemia será até o próximo dia 5 de maio. “Soubemos que houve o deslocamento de placas tectônicas, mas só agora é que começamos a enxergar a tsunami”, resumiu Pantoja.

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