Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Coronavac: tire suas dúvidas sobre os lotes suspensos pela Anvisa

Anvisa ordenou recolhimento de doses que tinham sido interditadas no início do mês. Butantan garante segurança do imunizante e vai repor as vacinas bloqueadas

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 12h55
Atualizado 22 de setembro de 2021 | 13h42

SÃO PAULO - A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou no dia 4 de setembro a interdição de 25 lotes da vacina Coronavac, que protege contra a covid-19. Ao todo, cerca de 12,1 milhões de doses tiveram o uso suspenso pela agência. Nesta quarta-feira, 22, a agência determinou o recolhimento dos imunizantes

Em São Paulo, o governo do Estado informou que já aplicou quatro milhões de doses pertencentes aos lotes suspensos. Nesta quarta, o secretário Estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn, disse que os vacinados estão sendo monitorados e nenhum efeito adverso grave relacionado a essas doses foi relatado.

Dados do Ministério da Saúde compilados pelo Estadão por meio da plataforma Base dos Dados mostram que quase todas as doses dos lotes suspensos foram aplicadas em São Paulo. Até o dia 31 de agosto, São Paulo tinha aplicado 3.314.292 doses desses lotes, enquanto outros 19 Estados juntos foram responsáveis pela aplicação de 14 mil doses. 

Conforme esses dados, que são oficiais e divulgados pelo Ministério da Saúde, não há registros do uso desses lotes em seis Estados e no Distrito Federal. Há atrasos entre a aplicação da vacina e a inserção da informação no sistema do governo federal, portanto este número pode estar defasado. O processo de notificação dos dados é feito manualmente por funcionários das unidades de saúde, o que pode levar a erros de digitação.

O Ministério da Saúde definiu nesta segunda-feira, 6, em nota técnica, que as pessoas que tomaram doses de um dos 25 lotes interditados da Coronavac deverão ser monitoradas por 30 dias para a “avaliação de possíveis eventos adversos”.

Leia abaixo perguntas e respostas sobre o assunto:

Por que a Anvisa interditou os lotes?

Segundo a agência, os 25 lotes de Coronavac interditados foram envasados em uma unidade fabril chinesa não inspecionada pela Anvisa e nem aprovada na Autorização de Uso Emergencial no Brasil. As doses foram enviadas pela Sinovac, parceira do Instituto Butantan no desenvolvimento e produção da Coronavac.

A Anvisa diz ter sido avisada pelo Butantan na noite de sexta-feira, 3 de setembro, que as doses foram envasadas em local não inspecionado. Além destes lotes que já estão no Brasil, outros 17 com nove milhões de doses que também foram envasados em local não inspecionado pela Anvisa estão em tramitação de envio ao País.

A agência disse ainda que consultou bases de dados internacionais em busca de informações sobre as Boas Práticas de Fabricação da empresa responsável pelo envase dos lotes. No entanto, não encontrou nenhum relatório de inspeção emitido por outras autoridades de referência ou pela própria Anvisa. 

Quais lotes foram interditados?

Ao todo, 25 lotes foram interditados: 202107101H, 202107102H, 202107103H, 202107104H, 202108108H, 202108109H, 202108110H, 202108111H, 202108112H, 202108113H, 202108114H, 202108115H, 202108116H, L202106038, J202106025, J202106029, J202106030, J202106031, J202106032, J202106033, H202106042, H202106043, H202106044, J202106039 e L202106048.   

Quem recebeu alguma dose desses lotes corre riscos?

Não. Em nota, o Instituto Butantan afirmou que os imunizantes são seguros para a população e que todas as doses foram atestadas pelo “rigoroso controle de qualidade do Butantan”. 

O diretor da Anvisa, Antônio Barra Torres, disse em entrevista ao jornal O Globo que não há motivo para pânico. Barra Torres afirmou que a decisão de suspender o lote é por cautela e reforçou que a Coronavac é uma vacina segura. A segurança da vacina foi comprovada por testes clínicos, cujos resultados foram analisados pelos técnicos da Anvisa e publicados em revista científica. 

Quantas pessoas receberam essas vacinas no Brasil?

Levantamento feito pelo Estadão mostra que, até o dia 31 de agosto, pelo menos 3.328.296 pessoas tinham sido vacinadas com essas doses em 20 Estados. A maioria dessas vacinas foram aplicadas no Estado de São Paulo. Os dados são do Ministério da Saúde e foram acessados pela reportagem por meio da plataforma Base dos Dados.

Há atrasos entre a aplicação da vacina e o registro da dose no sistema, portanto os números tendem a estar desatualizados. Um exemplo disso é São Paulo, já que o governo informou, no sábado, que quatro milhões de doses tinham sido aplicadas em todo o Estado. O preenchimento é feito de forma manual pela equipe das unidades de saúde e, por isso, pode haver erro de digitação no lote, o que também compromete a precisão da informação.

Quem tomou a vacina deve fazer o quê?

O Ministério da Saúde definiu no dia 6 de setembro que as pessoas que tomaram doses de um dos 25 lotes interditados da Coronavac deveriam ser monitoradas por 30 dias para a “avaliação de possíveis eventos adversos”. Toda reação grave aos imunizantes deve ser comunicada à autoridade de saúde local ou à Anvisa por meio do site VigiMed. 

São Paulo, o Estado que mais recebeu e aplicou doses destes lotes, informou que ainda não houve intercorrências entre as pessoas que receberam essas vacinas. Já a Secretaria Municipal de Saúde do Rio disse que as reações adversas devem ser comunicadas à unidade de saúde que aplicou a vacina. Não há indicação para revacinar as pessoas que receberam doses dos lotes interditados na cidade.  

Quem está com a segunda dose da Coronavac pendente ou marcada para os próximos dias deve tomá-la?

Sim. Os Estados e municípios já foram orientados a não aplicar lotes suspensos, portanto é totalmente seguro receber a segunda ou a primeira dose da Coronavac. 

Essas doses serão perdidas?

A Anvisa determinou o recolhimento de todos os lotes de Coronavac que estavam sob interdição cautelar desde o início do mês. A medida foi publicada nesta quarta-feira, 22, na Resolução (RE) 3.609. 

Como saber se tomei um dos lotes que foi interditado?

No cartão de vacinação há um campo informando o lote da vacina. Caso o cartão tenha sido perdido ou a informação esteja confusa, o lote pode ser consultado na plataforma ConectSUS, do governo federal.

O que o Instituto Butantan diz sobre o assunto?

Em nota, o Butantan diz que a medida da Anvisa "não deve causar alarmismo". "Foi o próprio instituto que, por compromisso com a transparência e por extrema precaução, comunicou o fato à agência, após atestar a qualidade das doses recebidas. Isso garante que os imunizantes são seguros para a população", diz trecho da nota.

Segundo o instituto, houve uma mudança em uma das etapas do processo de formulação da vacina na fábrica da Sinovac. "Reafirmamos, no entanto, que todas as doses da Coronavac estão atestadas pelo rigoroso controle de qualidade do Butantan", afirma o Butantan.

Quais Estados aplicaram doses dos lotes suspensos?

A reportagem identificou a aplicação dessas doses em pelo menos 20 Estados, na maioria em pequenas quantidades, mas aguarda posicionamento dos governos locais para esclarecer se houve alguma discrepância entre os registros e a aplicação.

Até o momento, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Paraná, Goiás, Tocantins, Ceará, Amazonas, Roraima e Distrito Federal confirmaram que receberam parte destes lotes. Os Estados e o Distrito Federal não souberam informar quantas doses já foram aplicadas.

Qual é o prejuízo que interdições como essa causam à vacinação contra a covid-19 no País? 

Para Renato Kfouri, os atrasos na vacinação "são sempre muito ruins", já que adiam que o País tenha uma maior cobertura vacinal e, com isso, diminua a propagação do vírus.

Ainda assim, ele reforça que processos legais, como o adotado na interdição da Anvisa, precisam ser respeitados, o que garante a segurança das pessoas. "Esperamos que seja o menor tempo possível de liberação", complementa o infectologista.

O governador João Doria (PSDB) informou que solicitaria à Sinovac, farmacêutica chinesa responsável pela fabricação do imunizante, a susbtituição dos lotes suspensos com novas doses, por meio do Instituto Butantan. 

Qual a recomendação do Ministério da Saúde?

Em nota técnica divulgada nesta segunda-feira, 6, o Ministério da Saúde definiu que quem recebeu alguma vacina dos lotes interditados deve ser monitorado por 30 dias para a "avaliação de possíveis eventos adversos". No Rio de Janeiro, a Secretaria de Estado de Saúde informou que os municípios fluminenses devem fazer esse acompanhamento. Ainda não foi divulgado como essa vigilância seguirá nos outros Estados. /COLABOROU ÍTALO LO RE

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