Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Saiba as semelhanças e diferenças entre as vacinas Coronavac e Oxford

Anvisa aprovou no domingo, 17, o uso emergencial dos dois imunizantes na campanha de vacinação contra a covid-19 no Brasil

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 14h17

Por unanimidade, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou no domingo, 17, o uso emergencial da Coronavac e da vacina fabricada pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca. Oficialmente, a vacinação começaria nesta terça-feira, 19, mas o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, autorizou que os governadores iniciassem a imunização com a Coronavac nesta segunda-feira, 18, já que o ministério aguarda a chegada das doses da vacina de Oxford. O Estado de São Paulo, no entanto, imunizou ontem a primeira brasileira, minutos após a Anvisa liberar o uso emergencial da vacina.

Mesmo sendo indicadas para proteção contra uma mesma doença, as duas imunizações possuem diferentes métodos de formulação. A Coronavac usa uma versão inativada do vírus, método usado em grande parte dos imunizantes administrados no Brasil. A Oxford tem como base o fator viral. Ambas devem ser dadas em duas doses, com intervalos diferentes, e podem ser armazenadas em geladeira com temperaturas que variam de 2 a 8 ºC.

Conheça a seguir as semelhanças e diferenças entre as vacinas Coronavac e Oxford:

Como as vacinas são produzidas?

A Coronavac funciona ensinando o sistema imunológico a produzir anticorpos contra o coronavírus SARS-CoV-2. Os anticorpos se conectam às proteínas virais, como as chamadas proteínas spike que se espalham por sua superfície. Para criar a Coronavac, os pesquisadores da Sinovac começaram obtendo amostras do novo coronavírus de pacientes na China, Grã-Bretanha, Itália, Espanha e Suíça. No fim, uma amostra da China acabou servindo como base para a vacina.

Os pesquisadores então extraíram os vírus inativados e os misturaram com uma pequena quantidade de um composto à base de alumínio chamado adjuvante. Os adjuvantes estimulam o sistema imunológico a aumentar sua resposta a uma vacina.

Os vírus inativados têm sido usados há mais de um século. Jonas Salk os usou para criar sua vacina contra a poliomielite na década de 1950 e eles são a base para vacinas contra outras doenças, como raiva e hepatite A.

Já na vacina Oxford/AstraZeneca, conhecida como ChAdOx1 nCoV-19 ou AZD1222, o vírus SARS-CoV-2 é repleto de proteínas que usa para entrar nas células humanas. Essas proteínas chamadas de spike são um alvo tentador para potenciais vacinas e tratamentos.

A vacina é baseada nas instruções genéticas do vírus para produzir a proteína spike. Mas, ao contrário das vacinas Pfizer/BioNTech e Moderna, que armazenam as instruções em RNA de fita simples, a vacina Oxford usa DNA de fita dupla.

Os pesquisadores adicionaram o gene da proteína spike do novo coronavírus em um outro vírus chamado adenovírus. Os adenovírus são vírus comuns que geralmente causam resfriados ou sintomas semelhantes aos da gripe. A equipe Oxford/AstraZeneca usou uma versão modificada de um adenovírus que infecta chimpanzés, conhecida como ChAdOx1. Ele consegue entrar nas células, mas não pode se replicar dentro delas.

A AZD1222 é resultado de décadas de pesquisa com vacinas baseadas em adenovírus. Em julho, foi aprovada a primeira para uso geral - uma vacina para o Ebola, da Johnson & Johnson. Ensaios clínicos avançados estão em andamento para outras doenças, incluindo H.I.V. e Zika.

Quais os efeitos colaterais?

Até o momento, as duas vacinas não apresentaram efeitos colaterais graves. Entre os sintomas, dores na região em que a vacina foi aplicada, febre, dor muscular, dor de cabeça (de intensidade leve ou moderada), fadiga e calafrios, reações consideradas comuns por profissionais da saúde.

Como funciona o armazenamento?

A vacina Oxford/AstraZeneca para a covid-19 é mais resistente do que as vacinas de mRNA da Pfizer e Moderna. As duas vacinas das farmacêuticas americanas precisam ser armazenadas a -70º e -20ºC, respectivamente e exigem duas doses de aplicação. Ao contrário delas, na vacina britânica, o DNA não é tão frágil quanto o RNA, e o revestimento de proteína resistente do adenovírus ajuda a proteger o material genético interno. Como resultado, a vacina de Oxford não precisa ficar congelada. A vacina deve durar pelo menos seis meses quando refrigerada entre 2 e 8°C.

A Coronavac também está no perfil desejado do Ministério da Saúde para armazenamento em temperaturas normais de geladeira comum de 2 a 8 °C, podendo permanecer estável por até três anos.

Quantas doses são necessárias, segundo estudos, e qual o intervalo entre as dosagens?

As duas vacinas são aplicadas em duas doses.

A de Oxford/AstraZeneca requer duas doses, administradas com um intervalo de quatro semanas, para preparar o sistema imunológico para lutar contra o novo coronavírus. 

Já a Coronavac pode ser administrada de 14 a 28 dias após a dose inicial. No entanto, segundo a Anvisa, o Butantã ainda não apresentou os dados de eficácia de acordo com o intervalo entre a primeira e a segunda dose.

Quantas vacinas há disponíveis da Coronavac e Oxford?

O País dispõe de 6 milhões de doses da Coronavac. O governo paulista pretende manter no estado cerca de 1,4 milhão. O volume não cobre as prioridades. Outros 2 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca fabricada na Índia estão com a compra acertada pelo Ministério da Saúde, mas ainda sem data para chegar ao Brasil. Além disso, o aval da Anvisa só vale para essas 8 milhões de doses, mas não para as demais a serem produzidas já no Brasil.

No Brasil, a Coronavac é desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantã, do Governo de São Paulo, já a vacina britânica, fabricada pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca, será produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Em quais países já foram aplicadas as duas vacinas?

Ambas as vacinas já foram aplicadas fora da fase de testes. Em 4 de janeiro, um britânico de 82 anos se tornou a primeira pessoa do mundo a ser vacinada com o imunizante produzido pela parceria Oxford/AstraZeneca.

Além da China, a Indonésia iniciou na última quarta-feira, 13, a campanha de vacinação contra a covid-19 com o uso emergencial da Coronavac, que demonstrou eficácia de 65,3% em testes clínicos locais. No dia seguinte, 14, a Turquia também começou a vacinar sua população com a vacina chinesa, com autorização emergencial.

Em 31 de dezembro do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) concedeu a primeira aprovação emergencial para uma vacina desde o início da pandemia do coronavírus, ao imunizante desenvolvido pelo Pfizer e pela BioNTech. A Coronavac e Oxford aguardam aprovação da OMS.

Qual a eficácia das vacinas?

As duas vacinas têm eficácia suficiente para ajudar no combate à pandemia. Nos testes, a vacina de Oxford foi administrada de duas formas diferentes: na primeira delas, os voluntários receberam metade de uma dose e, um mês depois, uma dose completa. Nesse grupo de voluntários, a eficácia foi de 90%. Já no segundo grupo, que recebeu duas doses completas da vacina, a eficácia foi reduzida a 62%. Esses dois resultados permitiram obter eficácia média de 70,32%.

Já a taxa geral de eficácia da Coronavac se revelou de 50,38%, o que significa que de cada cem pessoas vacinadas que tiverem contato com o vírus, 50,38% não vão manifestar a doença graças à imunidade conferida pela vacina. Para  quem acabou ficando doente, a vacina reduziu em 78% a chance de ter uma doença leve que precise de assistência médica. 

Estudos publicados na revista científica The Lancet mostraram ainda que ambas as vacinas são seguras, o que foi confirmado pela Anvisa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.